◀ Cap. 12◀ Início
Capítulo 13 · A Profecia Cap. 14 ▶▶
A luz do apartamento de Helena pulsando brevemente durante o escaneamento noturno enquanto ela tenta tranquilizar as meninas
// Apartamento de Helena · Noite

Foi então que a luz do apartamento pulsou.

Um único pulso. Breve. O mesmo tipo de flutuação que Bia havia visto no refeitório do ITT horas antes.

Ninguém falou. Todas viram.

Só Bia ouviu.

Foi menos que um som — um fio de voz por baixo do zumbido da luz, fino como o de uma menina falando de muito longe. Duas palavras.

Vocês chegaram.

Bia olhou para as outras. Ninguém mais tinha levantado a cabeça.

Helena afastou os dedos do vidro.

Virou-se. O rosto estava controlado — o rosto de sempre, o de quem pesa cada palavra antes de soltá-la.

— É o escaneamento noturno — disse, antes que alguém perguntasse. — Está tocando os limites da proteção do apartamento. É normal. Estamos seguras aqui.

— Normal? — Isa cruzou os braços. — Isso acontece toda noite?

— Sim. O escaneamento dura nove horas. A Borracha Plúmbea Atóxica bloqueia qualquer leitura. Não há risco.

Falou Helena, sem muita convicção nas suas próprias palavras.

Sofia observando Helena com atenção analítica, apontando que ela ficou pálida quando a luz piscou

Sofia ajeitou os óculos, observando Helena com aquela atenção que mais parecia análise do que contemplação.

— Então por que você ficou pálida quando a luz piscou?

Helena ficou em silêncio por um segundo.

— Não, eu não fiquei.

— Ficou — disse Sofia, com calma. Não era acusação. Era constatação.

Bia se aproximando de Helena com passos lentos e calculados, confrontando-a sobre o bracelete

Bia se levantou da poltrona. Caminhou até Helena com passos lentos, como quem tem tempo, quando na verdade estava contando cada palavra antes de usá-la.

— É o bracelete — disse, baixo. — Não é? Você tá verificando se ele foi comprometido.

O apartamento ficou completamente quieto.

Helena não respondeu imediatamente. Olhou para Bia com uma expressão que não era surpresa — era o reconhecimento de alguém que sabia que esse momento chegaria, e que havia esperado que chegasse mais tarde.

Helena olhando para o próprio bracelete, admitindo que, ao contrário dos colares de Élida, foi ela mesma quem o fez

— Estou verificando — confirmou, a voz cuidadosa. — Ainda não tenho certeza de nada. Porém os colares de vocês são feitos por Élida — disse com convicção — são seguros, isso eu sei com certeza.

— Mas o seu bracelete não foi feito por Élida? — perguntou Bia.

Uma pausa.

— Não. O meu fiz eu mesma.

Clara havia parado de olhar para o vazio onde o mp3 deveria estar. Isa havia descruzado os braços. Sofia segurava os óculos com uma das mãos, imóvel.

Bia sentando-se novamente na poltrona, agora vigilante, depois de Helena prometer ir ao laboratório de Élida no dia seguinte

— Quando você vai ter certeza se ele ainda é seguro? — insistiu Bia.

— Amanhã vou até o laboratório de Élida — Helena respondeu. — Ela analisa o código e me diz.

Bia assentiu. Não havia mais o que perguntar — pelo menos não aquela noite. Voltou para a poltrona e sentou-se, mas desta vez com os ombros ligeiramente diferentes. Não mais só observando. Esperando.

Helena sentando-se no chão da sala, vulnerável, decidindo finalmente contar a história de Amy às meninas

Helena se virou para a janela novamente. A cidade pulsava lá fora, tranquila e controlada, como sempre.

— Preciso contar a vocês sobre Amy — disse, depois de um momento. — Prometi, e é hora de cumprir.

Sentou-se no chão — gesto que as surpreendeu. Ali estava a jovem que as guiara pelo futuro, agora vulnerável, humana.

— A história começa há três anos. Meu décimo quarto aniversário.

Clara se inclinou pra frente.

— O que aconteceu?

Helena de olhos fechados reconstruindo a memória da tarde dourada na Grains de Liberté quando tinha catorze anos

Helena fechou os olhos. Quando falou, a voz carregava o peso da memória.

— Eu estava na Grains de Liberté. A mesma cafeteria onde conheceram Bernard hoje.

O cheiro de café torrado na hora invadiu a mente de Helena, tão vívido que as meninas quase podiam sentir. Ela falava devagar, reconstruindo cada detalhe. A luz da tarde entrava pelas janelas, dourada, fazendo a poeira dançar no ar. Um jazz suave tocava baixinho.

Helena suspirou, mergulhando nas lembranças, e continuou narrando:

— O barulho dos moedores era reconfortante. Mas eu estava nervosa, mexendo no cappuccino sem parar.

Bia observava Helena. Os dedos dela imitavam inconscientemente o gesto de mexer uma xícara invisível.

— Esperava alguém?

Helena jovem escrevendo em segredo um bilhete pedindo ajuda depois de ouvir o pai falando dela como um problema a ser resolvido

— Amy — Helena abriu os olhos, mas o olhar estava distante. — Deixei um bilhete na mesa dela, na prefeitura. Pedindo ajuda. Pedindo pra nos encontrarmos em segredo.

— Por quê? — Sofia sussurrou.

Helena passou a mão pelo rosto, o gesto cansado.

— Porque descobri que era 'inapta'. Ouvi meu pai conversando com um assistente. — A voz tremeu. — Ele falava sobre mim como se eu fosse um problema a ser resolvido.

Clara levou a mão ao peito.

— Seu próprio pai...

— O prefeito Vargas não tem filhos — Helena corrigiu, amarga. — Tem responsabilidades. E eu me tornei uma delas.

Amy sentando-se em silêncio diante de Helena na cafeteria, esperando sem pressa que a jovem falasse

O silêncio pesou. Isa quebrou-o, voz baixa:

— E Amy foi?

Helena sorriu, mas o sorriso era triste.

— Ela chegou atrasada. Quando entrou, eu quase desabei ali mesmo. Sentou-se na minha frente, pediu café preto pro Bernard e esperou. Não me apressou. Só esperou.

Sofia ajeitou os óculos.

— O que você disse?

— Que era 'inapta'. Que precisava saber o que ia acontecer comigo. — Helena riu sem humor. — Achei que ela, como 'cronista', saberia meu destino.

Helena explicando que Amy era uma cronista, uma vigilante do tempo com acesso a painéis gigantes de passado, presente e futuro

— Cronista? — O rosto de Isa se contraiu por um instante.

— 'Vigilantes do Tempo' — Helena explicou. — 'Cronistas' são os assistentes do prefeito. Monitoram tudo por meio de painéis gigantes: passado, presente, futuro. Amy era uma delas.

Bia processava a informação.

— Então ela tinha acesso a tudo?

— Mais do que deveria — Helena confirmou. — Foi assim que descobriu sobre vocês, as Variáveis Humanas Adequadas. Sobre o professor Elias Vidal e todas as suas pesquisas.

Amy tocando a mão de Helena através da mesa, contando entre lágrimas silenciosas sobre o marido Stephen, levado pelos SENTINELAS

As meninas trocaram olhares, curiosas.

Helena continuou, a voz mais baixa agora:

— Amy chorou quando contei que eu era 'inapta'. Eram lágrimas silenciosas, mas eu vi. Ela tocou minha mão através da mesa. Disse que me ajudaria. Mas antes, precisava me contar por que estava lutando.

A voz de Helena mudou, ficou mais íntima.

— Ela me contou sobre Stephen. O marido dela. Como ele foi levado pelos SENTINELAS. — Uma pausa. — Meu pai foi a última pessoa a falar com ele. Horas depois, Stephen desapareceu.

Clara engoliu em seco.

— Seu pai... entregou o marido dela?

— Nunca saberemos — Helena encolheu os ombros. — Mas Amy jurou que descobriria a verdade. Que o traria de volta. E que desmantelaria o Sistema da Gestora.

Helena caminhando até a janela ao contar como Amy aprendeu a arquitetura do tempo e se conectou com as NEUROTÁQUIONS

Isa cruzou os braços.

— Ela tava sozinha nisso?

— No começo, sim — Helena se levantou e caminhou até a janela. — Mas Amy é brilhante. Aprendeu a arquitetura do tempo. Descobriu como se conectar com Inteligências Não Humanas.

— As NEUROTÁQUIONS — Bia concluiu.

— Hannes, Pideya e Skouter — Helena confirmou. — Amy as libertou do controle absoluto da Gestora. Deu a elas autonomia. Escolha. E, em troca, elas se tornaram aliadas.

— Skouter? — Bia passou a mão pelo antebraço.

— Sim, a Guardiã do Governo. Em breve vocês estarão com ela.

Sofia se levantou também, fascinada.

— Ela criou uma resistência digital.

Helena se virando para as meninas ao lembrar como Amy lhe deu um propósito quando ela era apenas uma menina desesperada num café

— Mais que isso — Helena se virou. — Ela arquitetou um futuro diferente. E quando me conheceu, quando viu uma menina de quatorze anos desesperada num café, me deu um propósito.

— Você se tornou aluna dela — disse Bia.

Helena assentiu.

— Naquele dia, na Grains de Liberté, Amy me apresentou a Bernard. Disse que ele cuidaria de mim. Depois me levou pro apartamento dela. — Fez uma pausa. — Amy mudou minha vida pra sempre.

O silêncio que se seguiu era de absorção. Cada menina processava, conectando pontos.

Helena de pé no centro da sala, gesticulando, contando como o diário de papel de Amy foi esquecido e virou fonte de fé entre os dissidentes

— Mas e o culto? — Sofia insistiu. — Como isso virou um culto?

Helena voltou pro centro da sala, mas não sentou. Ficou de pé, gesticulando enquanto falava.

— Amy mantinha um diário. Não digital — papel. Era a única forma de registrar sem ser rastreada. — Sorriu de leve. — Nele, ela escrevia tudo. Não dados técnicos. Histórias. Como quatro meninas do passado viriam pra salvar o futuro. Os nomes de vocês. A missão. Tudo em forma de narrativa.

Clara arregalou os olhos.

— Ela já sabia sobre a gente?

— Há anos — Helena confirmou. — O problema é que Amy esqueceu o diário numa reunião com outros dissidentes. Ele nunca foi devolvido.

— Alguém roubou? — Sofia perguntou.

— Não. Alguém o guardou como tesouro — Helena corrigiu. — O diário começou a ser lido nas reuniões. Virou fonte de esperança. De fé. E, com o tempo... — fez um gesto vago. — Virou profecia.

Helena rindo ao contar como Amy, sem querer, virou profeta e passou a ser chamada de arquiteta pelos dissidentes

Bia balançou a cabeça, incrédula.

— Amy virou profeta sem querer.

— Ela odiava isso — Helena riu. — Por isso, as amigas dela começaram a chamá-la de "arquiteta". O nome pegou. Agora ninguém mais a chama de profeta.

— Mas as pessoas ainda acreditam na profecia — Sofia murmurou.

— Sim — Helena confirmou. — Vinícius acreditava. Bernard também. Todos os dissidentes conhecem a história das quatro 'eleitas' que virão pra libertar o futuro.

Clara relembrando os olhos brilhantes de Vinícius ao perceber que a esperança que deu a ele foi tudo o que puderam oferecer

O peso daquelas palavras caiu sobre elas como um cobertor pesado.

— Por isso ele ficou tão emocionado — Clara sussurrou, lembrando-se dos olhos brilhantes de Vinícius. — Quando eu disse "meu tempo", ele soube.

Helena se aproximou de Clara e tocou o ombro dela.

— Você deu esperança pra ele. Nos últimos minutos de liberdade, ele soube que a luta valia a pena.

Clara limpou os olhos com as costas da mão.

— Não parece suficiente.

Helena olhou pra Clara, buscando as palavras certas.

— Não parece, mas é — admitiu. — Isso é tudo que podemos dar.

Isa gesticulando frustrada, questionando como o movimento pode dar certo com o tempo de Helena se esgotando

Isa fez uma expressão de estranhamento.

— E agora? O Sistema tá atrás da gente. Três pessoas foram capturadas hoje. Seu tempo tá acabando, Helena. — Gesticulou, frustrada. — Como esse movimento ainda pode dar certo?

Helena a encarou, firme.

— Porque não estamos sozinhas. Amy planejou cada detalhe. Élida construiu as ferramentas. As NEUROTÁQUIONS nos apoiam. E vocês... — olhou pra cada uma. — Vocês são o código que a Gestora não consegue decifrar.

— Mas a gente ainda não sabe como isso funciona — Bia protestou.

— Vão saber — Helena prometeu. — Em breve, conhecerão Élida. Conhecerão o restante do plano. Mas antes... — fez uma pausa. — Precisam entender por que confio tanto em Amy. Por que entrego minha vida a essa causa.

Sofia ajeitou os óculos.

— Conte.

Helena tocando um painel na parede, fazendo hologramas suaves e silhuetas de memória flutuarem na sala escurecida

Helena respirou fundo. Caminhou até a parede e tocou um painel. A sala escureceu levemente, e hologramas suaves começaram a flutuar no ar — não imagens nítidas, apenas silhuetas, sombras de memória.

— Depois daquele dia no café, Amy me levou pro apartamento dela — Helena falou enquanto as formas dançavam. — Foi lá que ela me mostrou a verdade completa.

Bia se inclinou pra frente.

— Sobre o Subnível?

Helena assentiu, os olhos fixos nos hologramas.

— Amy não queria me assustar. Tentou poupar detalhes. Mas eu insisti. — A voz ficou mais baixa. — Precisava saber o que ia acontecer comigo quando completasse dezoito anos.

Uma silhueta feminina curvada digitando num holograma, representando Amy hackeando o Sistema com ajuda das NEUROTÁQUIONS

Uma silhueta surgiu no holograma — uma figura feminina, curvada, digitando em algo invisível.

— Ela me mostrou registros. Arquivos que nunca deveriam existir. Pessoas entrando no Subnível. — Helena fechou os olhos. — Mas nunca saindo.

Clara mordeu o lábio, tensa.

— Como ela conseguiu esses arquivos?

— Amy hackeou o próprio Sistema — Helena sorriu sem humor. — Com ajuda das NEUROTÁQUIONS. Elas criaram pontos cegos. Lugares onde a Gestora não enxerga.

— Como este apartamento — Sofia observou.

— Exatamente — Helena confirmou. — Mas isso exigiu sacrifício. Amy arriscou tudo. E quando me mostrou a verdade, ofereceu algo que mudou tudo.

As meninas trocando olhares confusos quando Helena responde, simplesmente, que o que Amy lhe ofereceu foi tempo

— O quê? — Isa perguntou.

— Tempo — Helena respondeu simplesmente.

As meninas trocaram olhares confusos.

— Faz sentido — murmurou Sofia. — O mesmo tempo que condena também pode salvar. É contraditório, mas é assim com quase tudo que importa.

Documentos legais e textos flutuantes no holograma, mostrando a emenda que Amy propôs para proteger jovens menores de idade

Helena gesticulou, e o holograma mudou. Agora mostrava documentos flutuantes, textos legais piscando.

— Amy usou a posição de 'cronista' pra propor uma emenda ao Sistema. Uma lei que protegesse jovens menores de idade.

Bia arregalou os olhos.

— Uma lei que impedisse crianças de serem levadas?

— Sim — Helena confirmou. — Ela argumentou que era ineficiente. Que jovens ainda estavam em desenvolvimento, que podiam ser 'corrigidos'. O Sistema aceitou a lógica.

— E seu pai? — Sofia perguntou. — O prefeito concordou?

Helena riu, mas o som era amargo.

— Prontamente. — Apertou os punhos. — Nunca soube se foi por estratégia política ou se, no fundo, ele ainda me amava.

Isa de pé, o rosto contraído, entendendo que a urgência da missão também é sobre salvar a própria Helena antes que seu tempo se esgote

Clara engoliu em seco.

— Então você ganhou tempo até completar dezoito anos.

— Três anos e meio — Helena corrigiu. — Que agora se reduzem a alguns meses.

O peso daquelas palavras encheu a sala como fumaça tóxica.

Isa se levantou, o rosto contraído.

— Por isso a urgência. Não é só sobre salvar o mundo. É sobre salvar você.

Helena finalmente olhou pra elas, os olhos brilhando.

— É sobre salvar todos nós. — A voz tremeu. — Se eu for levada antes de completarmos a missão, o plano pode falhar. Amy perdeu Stephen. Não pode perder mais ninguém.