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Capítulo 12 · O Dissidente Cap. 13 ▶▶
Bia sentindo o sangue gelar dentro da loja de sucata tecnológica ao entender que a transmissão interceptada era delas
// Zona Marginal · Loja de Sucata Tecnológica

Bia sentiu o sangue gelar. Sabia que eram elas.

— Que tipo de transmissão? — Helena quis saber.

— O problema é que o Sistema não conseguiu rastreá-la — os dedos dele tamborilaram no balcão. — Frequência desconhecida. Pessoas não registradas circulando pela cidade.

Helena trocou um olhar rápido com as meninas.

— Então o Sistema não tem certeza do que captou?

— Os SENTINELAS receberam ordens de busca às cegas — ele explicou, gesticulando. — Não sabem o que procuram, mas acreditam que vão reconhecer quando encontrarem. E enquanto fazem isso... — fez uma pausa pesada. — Aproveitam pra executar mandatos de captura dos ‘inaptos’ nas áreas que investigam. Formaram pelotões de patrulhamento.

Clara sussurrando os nomes de Will e Bernard ao perceber que as capturas fazem parte de um mesmo plano do Sistema

Bia de repente se lembrou.

— A gente viu um desses patrulhamentos assim que chegamos. Havia uma mulher no comando.

— Will... — Clara sussurrou. — Bernard...

— Efeito colateral — o rapaz confirmou, amargo. — Assim o Sistema abre duas portas com uma chave só.

Helena se endireitou, o rosto pálido.

— Então você também está em risco.

O rapaz da loja se apresentando como Vinícius, resignado com o próprio risco diante dos SENTINELAS

— Sempre estive — ele deu de ombros, mas havia resignação ali. — Prefiro ser levado a ser mais um fantoche nesse teatro de horrores.

— Como é mesmo seu nome? — Helena perguntou, voz suave.

— Vinícius. É um prazer te ver de novo, Helena.

Clara segurando com cuidado um pequeno mp3 antigo encontrado nas prateleiras da loja, perguntando se ainda funciona

Enquanto conversavam, Clara percorria as prateleiras com os dedos. Parou diante de um aparelho pequeno, retangular, com botões físicos e uma tela minúscula.

— Isso é um mp3? — Pegou o objeto com cuidado, como quem segura uma relíquia. — Ainda funciona? No meu tempo...

A pergunta pairou no ar por um segundo longo demais. Vinícius congelou. Os olhos se arregalaram, a boca abrindo devagar.

— Meu tempo... — ele repetiu, quase inaudível. — Ela disse “meu tempo”.

Vinícius contornando o balcão com os olhos brilhando de reverência, percebendo que as meninas são as eleitas

Acima deles, num registro que ninguém ali podia ouvir, um som agudo pulsou no ar e se prolongou, como se desta vez quisesse ser ouvido.

— Eu... — Clara colocou rapidamente o aparelho de volta na prateleira. O impacto da mão ecoou. — Desculpa, eu não queria...

— São elas — Vinícius contornou o balcão em dois passos, os olhos brilhando — não de medo, mas de algo próximo à reverência. — São elas, não são? As ‘eleitas’?

— Vinícius... — Helena tentou intervir.

— Eu sabia! — Ele riu, um som estrangulado entre choro e euforia. — Eu sempre acreditei que esse dia chegaria!

Clara recuando envergonhada e esbarrando em Isa, enquanto Helena a tranquiliza sobre a reação de Vinícius

Clara recuou, esbarrando em Isa.

— Desculpa, desculpa, eu estraguei tudo...

— Tá tudo bem — Helena colocou a mão no ombro dela. — Vinícius é nosso aliado. Faz parte dos dissidentes.

Vinícius entregando o mp3 limpo e funcionando de presente para Clara

A respiração de Clara ainda saía irregular. Vinícius pegou o mp3 da prateleira e limpou-o com a manga.

— Funciona perfeitamente — estendeu pra Clara. — Fica com ele. É um presente.

— Não sei se eu posso...

Helena autorizou com o olhar.

— Não pensei que viveria pra conhecê-las — Vinícius insistiu, colocando o aparelho nas mãos dela. — Aprendi os nomes de vocês nos cultos. Sei quem vocês são.

Bia apertando a mão de Vinícius Boomer num cumprimento formal em meio à loja clandestina

Bia deu um passo à frente, estendendo a mão.

— Eu sou Bia.

— Vinícius Boomer — ele apertou a mão dela, ainda sorrindo. — É uma honra.

As outras se apresentaram num ritual estranho em meio àquela loja clandestina. Helena retomou o controle da conversa.

— Me diga tudo sobre a interceptação da mensagem. Cada detalhe.

Vinícius mostrando um monitor antigo piscando em verde fosforescente ao explicar como o Sistema tentou triangular a transmissão

Vinícius voltou pro balcão, os dedos tamborilando enquanto organizava os pensamentos.

— O drone emitiu a saudação ontem, por volta das 11h da manhã. Coordenadas exatas no centro da praça principal. — Puxou um monitor antigo, a tela piscando em verde fosforescente. — O Sistema tentou triangular a origem, mas as frequências cerebrais eram... diferentes. Não correspondiam a nenhum padrão registrado.

— Diferentes como? — Sofia se aproximou.

— Como se viessem de... outra época — ele olhou pra elas. — Pessoas cujos padrões neurais não existem no banco de dados da Gestora.

Vinícius olhando com franqueza para as meninas, avisando que elas não se movem nem falam como as pessoas daquele tempo

O silêncio foi quebrado apenas pelo zumbido do monitor antigo.

PADRÃO NEURAL NÃO CATALOGADO — PRAÇA PRINCIPAL.

CONSULTA AO BANCO DE DADOS: NENHUMA CORRESPONDÊNCIA.

CONSULTA AO ARQUIVO HISTÓRICO: UMA CORRESPONDÊNCIA PARCIAL.

REFERÊNCIA: PROTOCOLO ORIGEM — ENCERRADO EM 2138. DADOS PERDIDOS.

INCONCLUSIVO. ARQUIVAR.

— Quanto tempo temos? — Helena perguntou, a voz firme apesar da palidez.

— Difícil dizer — Vinícius desligou o monitor. — Mas não será difícil descobrir quem procuram.

Fez uma pausa. Olhou para as meninas — não com julgamento, mas com a franqueza de quem sobreviveu tempo suficiente para saber o que o Sistema busca.

— Suas amigas não falam como a gente. Não se movem como a gente. Qualquer SENTINELA minimamente atento vai perceber.

Clara abaixando o olhar, culpada, ao perceber que Helena e Vinícius trocaram um olhar significativo em sua direção

Helena não disse nada. Mas os olhos foram para Clara — apenas por um segundo, apenas o tempo de um pensamento — antes de voltarem para Vinícius.

Clara viu. Abaixou o olhar, suspirando lentamente.

Não disse nada também.

Preocupada, Clara apertou o mp3 contra o peito.

— Gente, eu disse ‘meu tempo’ sem querer... quando vi já tinha falado.

— Está tudo bem, Clara — Helena tocou o ombro dela. — Você só confirmou o que ele já suspeitava. Precisávamos de um aliado que soubesse a verdade. Agora temos.

Vinícius entregando uma mochila com comunicadores analógicos de curto alcance para Helena

Vinícius chegou perto delas, pegou alguns objetos das prateleiras e os colocou numa mochila.

— Levem isso. São comunicadores analógicos de curto alcance. Se precisarem de ajuda, me chamem. — Entregou a mochila pra Helena. — E tomem cuidado. O Sistema tá nervoso. E um Sistema nervoso é um Sistema perigoso.

Helena pegou a mochila, o peso repentino fazendo o braço ceder um pouco.

— Obrigada, Vinícius. Por tudo.

— Obrigado a vocês — ele sorriu, emocionado. — Obrigado por me darem esperança.

Vinícius chamando Helena de volta para dizer, com calma e aceitação, que aquele podia ser seu último dia de liberdade

Elas já estavam saindo quando ele chamou:

— Helena!

Ela se virou.

— Hoje pode ser meu último dia de liberdade. Captei sinal de SENTINELAS nas proximidades. — A voz estava calma, revelando aceitação. — Então vou te dizer algo que Amy sempre repetia: A resistência não está em sobreviver. Está em escolher como viver.

Helena assentiu, os olhos brilhando.

As meninas caminhando em silêncio pelas ruas estreitas, Bia perguntando a Helena como Vinícius sabia sobre as eleitas

A porta rangeu ao se fechar atrás delas. Caminharam em silêncio por algumas quadras. O peso do encontro, das revelações, da constante sensação de serem caçadas pressionava como cobertor pesado em noite de febre.

Foi Bia quem quebrou o silêncio.

— Como ele sabia sobre as ‘eleitas’?

— E o que são esses cultos? — Sofia emendou, ajeitando os óculos.

Isa apenas olhava pra Helena, esperando as respostas.

Helena parou, virando-se pra elas. O rosto cansado, mas com uma expressão de calor.

— Tudo começou com Amy. Minha amiga. Minha mentora.

— A “arquiteta” — Bia confirmou.

— Ela mesma — Helena respirou fundo. — Quando começou a falar sobre as pesquisas do professor Elias Vidal, falou sobre vocês. Isso se tornou uma espécie de profecia das ‘eleitas’ e algumas pessoas se apegaram a isso. Começaram a se reunir. A manter a esperança viva. Amy anotava tudo que havia descoberto numa agenda de papel — um diário que não podia ser rastreado.

Helena explicando às meninas, ainda na rua, que elas são a promessa da profecia que se espalhou entre os dissidentes

Sofia ficou muito interessada nos detalhes, mas Helena pediu que aguardassem. Nas ruas não era lugar pra falar sobre isso.

— Espera — Clara arregalou os olhos. — Amy lidera um culto?

— Não é bem assim — Helena riu baixinho. — Mas algumas pessoas a veem como profeta. Alguém que anuncia a renovação deste mundo. E vocês... — olhou pra cada uma. — Vocês são essa promessa.

Sofia deu um passo à frente, fascinada.

— Preciso ouvir a história completa.

— Nas ruas não é seguro — disse Helena, já retomando a caminhada. — Quando voltarmos pra casa, prometo contar tudo.

Mesmo tomadas pela curiosidade, elas concordaram. Estavam contando os passos para chegar logo ao apartamento.

Clara parando abruptamente na rua ao perceber que esqueceu o mp3 no balcão da loja de Vinícius

Estavam a caminho quando Clara sentiu a falta de algo. Parou abruptamente, levando a mão ao peito.

— O mp3.

— O quê?

— Eu deixei na loja — os olhos dela se arregalaram. — No balcão. Quando ele me deu, eu... esqueci de pegar.

Helena não hesitou.

— Vamos voltar.

Se apressaram. Não era longe. Cinco, talvez seis minutos no máximo.

Mas quando dobraram a esquina, o mundo tinha mudado.

No lugar da loja de Vinícius, uma loja reluzente de vidro temperado e néon, sem nenhum vestígio de sua existência
// Zona Marginal · O Lugar Onde a Loja Estava

A porta não estava mais ali. No lugar da fenda discreta na parede, havia uma loja reluzente — vidro temperado, néon pulsante, interior branco e estéril. Dentro, uma IF organizava gadgets coletivos autorizados em prateleiras perfeitamente alinhadas. Nenhum eletrônico antigo. Nenhum circuito exposto. Nenhum vestígio de Vinícius.

Clara segurou a parede, as pernas cedendo.

— Não...

Bia colocou o braço ao redor dela, mas não conseguiu falar. Sofia cobriu a boca com as mãos. Isa apenas olhava, o rosto sem expressão, processando. Helena se aproximou da vitrine e colocou a mão no vidro, como se pudesse atravessá-lo e encontrar a loja antiga do outro lado.

— Ele sabia — a voz saiu rouca. — Por isso disse aquilo sobre o último dia de liberdade.

— Foram minutos — Isa finalmente falou, a voz tremendo. — Não passaram nem dez minutos.

— É assim que funciona — Helena afastou a mão do vidro. — Rápido. Eficiente. Como se você nunca tivesse existido.

Clara com o rosto molhado de lágrimas, afastando-se da parede e assumindo a culpa pela captura de Vinícius

Clara se afastou da parede. O rosto ainda estava molhado, mas ela não limpou as lágrimas.

— Foi minha culpa — disse. A voz saiu estranha — não trêmula, não chorosa. Apenas plana. — Eu disse "meu tempo". Foi por minha causa.

Bia apertou o braço de Clara. Clara não respondeu ao toque.

Helena olhou para ela. Tentou dizer algo. Não encontrou as palavras.

Não disse nada.

Sofia tocando a vitrine impecável da nova loja, perguntando quantas mais pessoas serão apagadas como Will, Bernard e Vinícius

Sofia tocou a vitrine, dedos deixando marcas no vidro impecável.

— Will, Bernard, Vinícius... — cada nome uma pedra jogada num lago. — Quantos mais?

— Quantos forem necessários — Helena respondeu, mas a voz estava quebrada. — Até que a gente pare isso.

Isa olhava pra mochila que Helena carregava.

— Ele nos deu os comunicadores. Sabia que não ia poder usá-los.

— Era um presente — Helena segurou a mochila com mais força. — E uma despedida.

O silêncio caiu novamente, pesado como chumbo.

Sofia retirou as mãos do rosto. Os olhos estavam vermelhos, mas não choravam mais.

— Vamos — ela disse. — Não podemos ficar aqui.

— Tudo bem, vamos pra casa — Helena concordou, afastando-se da vitrine. — Precisamos descansar.

Clara caminhando sozinha à frente das outras enquanto atravessam a Zona Integrada de volta ao apartamento de Helena
// Apartamento de Helena

Caminharam em silêncio.

O peso do que haviam visto — e do que não podiam mais ver — pressionava como ar antes da tempestade.

Clara ia à frente. Não atrás. Não ao lado.

Na frente, como se precisasse provar algo para si mesma — ou como se não suportasse ser vista.

As ruas da Zona Integrada, cercadas pela perfeição artificial, ignoravam o peso de mais uma vida apagada. A leitora ainda estava na praça, o livro aberto no colo. Quando passaram por ela, seus olhos se encontraram por um segundo — ela sabia. Todos sabiam. A resistência não está em sobreviver. Está em escolher como viver. Mesmo que custasse tudo.

A porta do apartamento de Helena se dissolveu atrás delas, recompondo-se com um sussurro. O silêncio ali dentro era diferente — não opressivo como na rua, mas pesado de expectativa. Clara se deixou cair no sofá que se moldou ao corpo. Segurava o vazio onde o mp3 deveria estar.

— Eu nem cheguei a usá-lo.

Ninguém respondeu. Porque não havia resposta que importasse.

Helena colocando a mochila de Vinícius sobre a mesa, os comunicadores tilintando, percebendo que as meninas são o motivo das três capturas

Helena colocou a mochila de Vinícius sobre a mesa. Os comunicadores tilintaram uns contra os outros.

Três capturas em um dia. Três vidas apagadas como se nunca tivessem existido.

Helena sabia que elas eram o motivo — só não sabia como.

O peso dessa verdade preencheu o apartamento como gás invisível, sufocante, inescapável.

Clara sentada no parapeito da janela olhando o vazio, com Helena parada ao lado dela em silêncio, tentando consolá-la

O apartamento estava em silêncio. Helena pensou em preparar algo no Dispensador de Nutrientes. Isa revisava os equipamentos. Sofia folheava um livro digital sem prestar atenção.

Clara estava sentada no parapeito da janela.

Não olhava a cidade. Apenas existia ali, olhando o vazio.

Não ouvia. Só observava.

Helena aproximou-se. Não tocou nela. Ficou ao lado, olhando o mesmo horizonte vazio.

— Ele já estava marcado — disse depois de um longo tempo.

Clara não respondeu.

— Não foi você, Clara.

— Se a gente não tivesse ido visitá-lo — a voz saiu baixa, sem acusação, sem autopiedade — talvez ele ainda estivesse ali.

— Ele sabia antes de nós chegarmos. Vinícius sabia que seria levado. A única diferença é que você deu a ele a certeza de que a esperança não era loucura.

Clara demorou a responder.

Quando respondeu, a voz estava rouca.

— E se for só o que eu dei? Esperança? Isso não salvou ele.

Helena ficou em silêncio.

— Às vezes, é tudo o que se pode dar — disse por fim. — E não é pouco.

Helena explicando a Clara por que Vinícius quis lhe dar o mp3, um pedaço de um mundo fora do Sistema

Clara apertou a mão contra o peito.

— Ele me deu aquele mp3. E sabia que ia ser levado.

— Sim.

— Por quê?

Helena olhou para os olhos dela. Lembrou-se do aparelho. Pequeno. Velho. Fora de lugar naquele mundo perfeito e tudo ficou claro para ela.

— Porque ele queria que você tivesse algo que não fosse daqui. Algo que lembrasse que existe um mundo fora do Sistema. Um mundo onde a música não é só dados.

Clara não disse mais nada. Mas o aperto no coração afrouxou.

Apenas um pouco. Apenas o suficiente.

Bia, sozinha diante do Dispensador de Nutrientes com a bandeja intocada, aperta o próprio antebraço, enquanto Sofia para a dois passos atrás dela.

A pausa que se seguiu foi necessária. Banho. Comida. Um intervalo de console de entretenimento neural que não curou nada, mas deixou os músculos mais frouxos e a respiração mais regular. Às vezes o corpo precisa de trégua mesmo quando a mente não aceita.

Foi durante essa pausa, enquanto Clara e Isa se revezavam no banho, que Sofia encontrou Bia sozinha diante do Dispensador de Nutrientes. A máquina já havia entregado a bandeja. Bia não a pegou. Olhava para o próprio braço.

Cinco segundos. Pausa. Cinco segundos.

Sofia parou a dois passos. Bia falou sem se virar.

Junto ao Dispensador, Bia esboça um sorriso curto e sem graça ao contar o que o espelho lhe disse; Sofia ajeita os óculos e espera em silêncio.

— Sofia, desde ontem à noite, aqui no apartamento, você parece querer me perguntar o que aconteceu comigo no espelho.

Sofia ajeitou os óculos. Não adiantava fingir.

— Pareço porque quero. — Respirou fundo. — O que ele te mostrou, Bia?

Bia demorou. A mão continuou o movimento.

— Ele nem precisou mostrar muita coisa. Só disse que eu sempre tomo a decisão errada. — Um sorriso curto, sem graça nenhuma. — E eu sabia do que ele tava falando.

Sofia esperou. Tinha aprendido, com a partida da mãe, que algumas coisas só saem quando ninguém empurra.

Lembrança em cores desbotadas e lavadas (sem sépia): baixa saturação, pretos acinzentados, leve névoa luminosa e foco suave, como uma foto antiga desbotada pelo sol: Bia, aos dez anos, no corredor escuro da casa da avó, com o celular no ouvido, olha assustada pela porta entreaberta do quarto.

— Eu tinha dez anos quando fui dormir na casa da minha avó, que morava sozinha. Meu avô já tinha falecido. Durante a noite, eu ouvi um barulho no quarto dela. Quando cheguei, ela tava no chão. — A voz não tremeu. Parecia ensaiada de tanto ser repetida por dentro. — Peguei o celular e liguei pro meu pai. Ninguém atendeu. Liguei pra minha mãe. Nada. Só depois liguei pra emergência.

Sofia sentiu o estômago afundar antes de entender por quê.

— Quando o socorro chegou, um deles falou pro outro. Achou que eu não tava ouvindo. “Se a gente chegasse cinco minutos antes, ela estaria viva.”

O Dispensador emitiu um bipe discreto, lembrando que a bandeja esperava.

— Cinco minutos, Sofia. O tempo de duas ligações erradas.

— Você era uma criança.

Bia finalmente se vira para Sofia, que olha para a mão da amiga apertando o próprio antebraço.

— Eu sei. Todo mundo me disse isso. A Clara me disse isso no velório. — Bia finalmente olhou para ela. — Mas ninguém sabe dos cinco minutos. Nem a Clara.

Sofia olhou para a mão sobre o antebraço.

— E isso?

— Começou naquela época. Depois passou. — Bia baixou os olhos para o próprio gesto, como se só agora o visse. — O espelho fez voltar. Ele me mostrou a Helena, o Hannes, o Nexxus presos naqueles fios. Por minha causa. E hoje... — Engoliu em seco. — Hoje foram três pessoas. Will, Bernard, Vinícius. A Isa disse que não passaram nem dez minutos.

— Isso não foi culpa sua. Nem da Clara.

Sofia e Bia sozinhas diante do Dispensador de Nutrientes; Sofia pousa a mão sobre o antebraço de Bia

— Não é isso que me assusta. — A mão apertou o braço com mais força. — O professor fez de mim a Variável Primal. Em algum momento, vai depender de mim. Uma decisão. E se eu errar de novo? Se eu ligar pro número errado de novo? Vocês ficam presas aqui. Sem nenhuma chance de voltar pra casa.

Sofia não procurou palavras bonitas. Deu os dois passos que faltavam e pousou a mão sobre a de Bia, em cima do antebraço, segurando o gesto no meio.

— Então você não decide sozinha — disse. — Você conta pra gente. Antes. Igual agora.

Bia não respondeu. Mas não tirou a mão.

O gesto não parou para sempre. Voltaria muitas vezes nos dias seguintes. Mas, a partir daquela noite, Bia não contava mais os segundos sozinha.

As meninas espalhadas pelas poltronas da sala, corpos relaxados após a trégua no console de entretenimento neural, enquanto Helena observa a cidade pela janela

Quando finalmente se afastaram do console de entretenimento neural, os rostos estavam menos tensos. Não aliviados — apenas menos apertados. Pela primeira vez naquele dia, voltaram a respirar em ritmo aproximadamente normal.

O peso do Subnível retornou como névoa densa, infiltrando-se pelos poros. As meninas estavam espalhadas pela sala, corpos afundados nas poltronas. A mente ainda processava Will, Bernard, Vinícius. Três vidas apagadas num único dia.

Agora era Helena quem observava pela janela, dedos tamborilando no vidro translúcido. A cidade brilhava lá fora, indiferente, perfeita em sua ignorância ordenada.

// Em Produção

O próximo capítulo ainda não foi publicado.

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