Um silêncio repentino preencheu o ambiente.
A água fluía lentamente. Jean Bernard, sem tirar os olhos do que fazia, começou a narrar um breve episódio.
— Tem uma história que meu avô contava. De um fazendeiro que vivia numa terra que o governo queria comprar. Os vizinhos foram cedendo um por um — alguns com medo, alguns por cansaço, alguns porque acharam que resistir era inútil. O fazendeiro ficou. Todo ano plantava. Todo ano colhia. Os funcionários apareciam, oferecendo cada vez mais dinheiro; ele oferecia café, conversavam, e no final eles iam embora sem a terra.
— Por que ele não pegava o dinheiro? — Clara perguntou.
Bernard levantou os olhos por um momento.
— Meu avô dizia que alguém perguntou exatamente isso a ele. E o fazendeiro respondeu: "Se eu for embora, quem vai lembrar que essa terra tem nome?"
Colocou a última xícara sobre o balcão com o mesmo cuidado de sempre.
— Grains de Liberté tem nome. Enquanto eu estiver aqui, ela existe. Depois — ele encolheu os ombros levemente — quem passar por aqui ainda vai lembrar do cheiro de café.