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Capítulo 10 · O Passeio Cap. 11 ▶▶
As quatro meninas decididas a enfrentar o que for preciso para resgatar Eloah, enquanto Helena retorna aliviada ao apartamento
// Apartamento de Helena

A decisão pesava nos ombros de cada uma delas, sem espaço para dúvidas. As meninas enfrentariam o que fosse preciso para ajudar todas aquelas pessoas aprisionadas pelo Sistema, além de empenharem-se ao máximo pelo resgate de Eloah.

Helena retornou e se alegrou com a decisão. Conversaram mais, exploraram as tecnologias do apartamento.

Clara espantada olhando pela janela quando a noite cai abruptamente como um interruptor desligado

Clara olhava pela janela quando a noite caiu abruptamente. Ela se espantou.

— O dia desapareceu como um interruptor desligado!

— Aqui o tempo é otimizado — explicou Helena. — O Sistema controla até mesmo a transição das horas do dia.

Helena aproveitou para deixar as meninas a par das horas.

— Sincronizado com o tempo de vocês, agora seriam 22h.

— Se você não dissesse, eu nem notaria o horário — falou Sofia.

— Já está tarde, vocês precisam descansar. Amanhã teremos um longo dia. Quero mostrar alguns lugares pra vocês — avisou Helena.

As meninas se acomodando em camas neurais que monitoram os sonhos, adormecendo pouco a pouco no quarto do apartamento

No quarto, ela apontou para as camas.

— Esta é uma cama neural. Ela monitora seus sonhos, tornando-os restauradores.

As meninas se acomodaram. Quanto mais tempo passavam com Helena, mais a amizade entre elas florescia. Pouco a pouco, os olhos se fecharam. O descanso era necessário.

Bia acordando desorientada quando as camas neurais se retraem nas paredes, enquanto Helena anuncia que hoje conhecerão a cidade de verdade

As camas neurais se retraíram às 7h da manhã, dissolvendo-se nas paredes como se nunca tivessem existido. Bia acordou com o movimento suave, desorientada por um segundo antes de lembrar onde estava. Helena já estava de pé, ajustando algo no painel da parede.

— Bom dia — disse, a voz mais animada que no dia anterior. — Hoje vocês vão conhecer a cidade de verdade.

Clara se espreguiçou, o cabelo formando um ninho de passarinho.

— Tipo, um passeio turístico?

— Tipo uma aula — Helena corrigiu, mas estava sorrindo. — Preciso que vocês vejam como tudo funciona aqui. O lado bom e o... — Ela hesitou. — Bem, vocês vão entender.

Clara sorrindo ao conseguir que sua barra Tech-Abiótica tenha gosto de brigadeiro, depois de reclamar que parecia remédio

O café da manhã foi rápido — mais Tech-Abióticos que se transformavam em sabores familiares. Bia mordeu uma barra que tinha gosto de pão de queijo quentinho. Clara fez uma careta pra sua.

— O meu tá com gosto de remédio.

— Porque você tá pensando em remédio — Helena riu, descontraída. — Relaxa e pensa em algo que você gosta.

Clara fechou os olhos, concentrada. Quando mordeu de novo, sorriu.

— Brigadeiro!

Helena séria na porta do apartamento, avisando as meninas para não pronunciarem seus nomes em voz alta na cidade

Antes de saírem, Helena parou na porta e as olhou com atenção.

— Uma coisa importante — disse, o tom mudando para algo mais sério sem perder a leveza. — Enquanto estivermos na cidade, não usem os nomes umas das outras em voz alta. O Sistema monitora padrões de linguagem em espaços públicos. Um nome que não existe no banco de dados chama atenção. Usem apelidos, ou simplesmente não usem nomes. Entendido?

As quatro assentiram. Pareceu simples o suficiente.

As meninas caminhando pelas ruas sincronizadas da cidade, um drone-borboleta quase acertando o rosto de Isa
// Cidade · Ruas

Terminada a instrução, saíram do prédio. Andaram pela cidade como quem busca tesouros ocultos, e a rua as engoliu naquele já conhecido turbilhão de movimento sincronizado. Bia observou um homem passar a centímetros de uma mulher, ambos sem desviar o olhar de seus hologramas pessoais.

— Como eles não se esbarram? — murmurou.

— O Sistema calcula as rotas — Helena seguia à frente, a voz baixa. — Cada passo, cada movimento. Tudo previsto, tudo aprimorado.

Um drone-borboleta passou zunindo perto do rosto de Isa. Ela recuou, batendo o ombro em Clara.

— Ei!

— Desculpa — disse Isa, franzindo a testa. — Esse negócio quase me acertou.

— Quase — Helena enfatizou. — Porque o Sistema não sabe que você está aqui.

O neon pulsante e o holograma de um hambúrguer gigante na entrada da Lanchonete Megabyte, com telas touchscreen para personalizar pedidos
// Cidade · Lanchonete Megabyte

O néon da Lanchonete Megabyte pulsava na esquina seguinte, cores vibrando numa sequência hipnótica. Um holograma de hambúrguer gigante girava lentamente, tão real que Bia quase estendeu a mão.

— Uau — Clara parou na entrada.

O cheiro atingiu todas ao mesmo tempo — gordura de fritura, queijo derretido, algo cítrico e doce que não conseguiam nomear. Sofia inalou, esticando o nariz.

— É bom demais.

— É calculado — Helena entrou, gesticulando pra que a seguissem. — As cores, os sons, até os aromas. Tudo projetado pra ativar os centros de prazer no cérebro.

Dentro, paredes inteiras eram telas touchscreen onde clientes desenhavam pedidos com os dedos. Isa se aproximou de uma tela, tocando hesitante. A interface respondeu instantaneamente, mostrando opções em cascata.

— Eles podem personalizar tudo?

— Tudo. Tamanho, temperatura, textura. Até o formato da batata.

Um robô ginoide servindo bandejas com precisão cirúrgica enquanto clientes nem erguem os olhos dos hologramas pessoais

Um robô ginoide deslizou entre as mesas, depositando bandejas com precisão cirúrgica. Ninguém agradecia. Ninguém olhava. Bia observou um homem pegar o prato sem erguer os olhos do holograma particular.

— Eles nem percebem que tem alguém servindo.

— Não é alguém — disse Isa, mas a voz saiu incerta. — É uma máquina.

— Será? — Sofia inclinou a cabeça, observando o ginoide, ajeitando os óculos. — Ela parece tão consciente.

Bia observando um garoto sozinho numa mesa de canto, comendo batatas sem nenhum adulto por perto, enquanto Helena explica a eficiência do Sistema

Helena se inclinou na mesa, a voz baixando.

— Vocês querem entender como funciona aqui? Observem ao redor.

Bia varreu o ambiente devagar. Nas mesas ao redor, pessoas comiam em silêncio, olhos fixos em projeções pessoais. Não conversavam. Não riam. Apenas consumiam. Bia notou um garoto, não mais que dez anos, sentado sozinho numa mesa de canto. Comia batatas com uma mão, a outra deslizando por uma interface virtual. Nenhum adulto por perto.

— Onde estão os pais dele? — Sofia seguiu o olhar de Bia.

— Trabalhando. Estudando. Fazendo o que o Sistema designou. As crianças aqui são independentes desde cedo. Não precisam de ninguém.

— Isso é triste — Sofia ajeitou os óculos.

— Ou eficiente — Helena encolheu os ombros. — Depende de como você olha.

Helena tocando o sensor no pulso para pagar com Créditos, o tom endurecendo ao dizer que apenas cidadãos recebem alguma coisa

O robô chegou com uma bandeja. Helena tocou num sensor discreto no pulso.

— São Créditos. A moeda daqui. Você ganha por existir do jeito certo. Bom comportamento. Ideias alinhadas. Trabalho intelectual aprovado.

— Parece bom — Clara pegou uma batata frita.

— Pra quem é cidadão — o tom de Helena mudou, ficou mais duro. — Os outros não recebem nada.

Bia sentiu o peso daquelas palavras. Helena já empurrava um copo em sua direção.

— Experimentem. Enquanto ainda posso pagar.

Enquanto ainda posso. A frase ecoou na cabeça de Bia. Mas Helena já se levantava.

Helena conduzindo as meninas para fora da lanchonete, repetindo o aviso para evitarem dizer seus nomes em público

— Venham, temos outros lugares pra conhecer.

E olhando para as meninas aconselhou, repetindo as mesmas palavras que já dissera no apartamento, antes de saírem:

— Não que seja realmente arriscado, mas apenas por precaução, evitem dizer seus nomes em voz alta, em público.

Mesmo sem entenderem plenamente o motivo, concordaram.

Bolhas de luz flutuantes com sabores de sorvete na translúcida Sorveteria NeoGelato, Clara materializando uma casquinha dourada nas mãos
// Cidade · Sorveteria NeoGelato

A Sorveteria NeoGelato brilhava como uma joia translúcida. Sabores flutuavam em bolhas de luz suspensas no ar, cada um com um nome escrito em letras que se reorganizavam constantemente.

“Nostalgia de Verão”? — Clara leu em voz alta, a cabeça inclinada, mordendo o lábio. — Como um sorvete pode ter gosto de nostalgia?

— Pega um pra ver — Helena sugeriu, ficando pra trás e deixando-as explorar.

Clara estendeu a mão. A bolha explodiu em partículas douradas que se reorganizaram em seus dedos, materializando uma casquinha perfeita. Ela lambeu. Os olhos se arregalaram, a respiração prendendo.

Clara gritando o nome de Bia por engano ao lembrar de um dia na praia, enquanto os ombros de Helena se enrijecem por uma fração de segundo

— Olha Bia... — quase gritou, buscando as palavras, a voz saindo rouca. — É aquele dia na praia. Lembra? A gente tava com sua tia?

O nome saiu antes que ela percebesse. Saiu com a naturalidade de quem está entre amigas, num quintal, sem nenhum perigo — e não numa sorveteria de 2157 onde o Sistema monitorava padrões de linguagem em tempo real. Bia.

Helena não se mexeu. Mas os ombros, que estavam levemente relaxados, enrijeceram numa fração de segundo que só Bia notou, porque estava olhando para ela. Ao redor, ninguém levantou a cabeça. Os clientes continuavam nas projeções, nas bolhas, nos sorvetes. O ginoide atrás do balcão não alterou o ritmo. Tudo parecia idêntico a um segundo antes.

Mas Helena ficou imóvel por dois, três segundos — os olhos varrendo o ambiente com uma calma que era trabalho demais para ser natural.

Acima delas, num registro que ouvido nenhum alcançava, um som agudo pulsou no ar. Desta vez, não parou tão rápido.

Helena explicando que o Sistema lê temperatura corporal e ondas cerebrais para encontrar memórias felizes, enquanto Sofia recua de uma bolha de 'Abraços dos Pais'

— Como é que ele sabia? — Clara continuou, lambendo a casquinha, ainda perdida na memória. — Daquele dia na praia?

— Leu você — Helena respondeu, a voz de volta ao tom técnico, distante. — Temperatura corporal, microexpressões, padrões de ondas cerebrais. O Sistema sabe qual memória te faz feliz.

Clara assentiu, sem perceber que havia feito algo errado.

Sofia tocou uma bolha que dizia “Abraços dos Pais”, mas recuou antes que explodisse.

— Isso é invasivo — ela disse.

— Ou conveniente. Tudo aqui depende de como você olha.

Isa parada, imóvel, recusando-se a tocar qualquer bolha de sorvete para não deixar o Sistema ler suas memórias

Bia experimentou o sabor que Sofia havia evitado. Doce demais, perfeito demais. E junto com o gosto, veio uma sensação: calor envolvendo o corpo, o cheiro de grama cortada, de cesta de piquenique, e o som de risadas distantes. Ela sabia qual tinha sido o dia que o Sistema havia encontrado em sua cabeça.

Isa permanecia imóvel, olhando pras bolhas flutuantes sem tocar nenhuma.

— Você não vai experimentar? — Clara perguntou.

— Não quero que leiam minhas memórias.

A frase caiu como chumbo na água. Helena esboçou um sorriso.

— Então vamos pro próximo lugar.

Helena caminhando ao lado de Clara e tocando brevemente seu ombro, corrigindo em voz baixa o deslize do nome dito em público

Quando saíram, Helena caminhou ao lado de Clara por um momento — não na frente, ao lado — e disse, baixíssimo, sem olhar para ela:

— Nomes. Lembra?

Clara abriu a boca. Fechou. O sangue subiu ao rosto.

— Eu... desculpa. Eu não percebi que...

— Eu sei. — Helena tocou brevemente o ombro dela. — Só não faça de novo.

Não havia raiva no tom. Apenas o peso de alguém que sabe exatamente o que está em jogo e precisa que as outras também saibam.

Baristas ginoides dançando enquanto criam arte no leite vaporizado na elegante e silenciosa Cafeteria Lumière
// Cidade · Cafeteria Lumière

A Cafeteria Lumière era o oposto da lanchonete — silenciosa, elegante. Paredes de cristal ajustavam a luz automaticamente, criando uma atmosfera de pôr do sol perpétuo. O aroma era complexo: café, canela, cardamomo, algo floral que Bia não reconhecia. Baristas ginoides se moviam como dançarinas, criando arte em cada xícara.

— Perfeito — Bia murmurou, observando uma delas desenhar uma folha no leite vaporizado.

— Sim — Helena se sentou perto da janela. — Perfeito demais.

Ocuparam as cadeiras próximas da saída e observaram a coreografia dos robôs em silêncio.

Clara quebrou o silêncio primeiro.

— Helena, por que você está nos mostrando tudo isso?

Helena não respondeu de imediato. Os dedos traçavam padrões na mesa, deixando marcas que desapareciam segundos depois.

Helena se levantando e deixando Créditos virtuais na mesa, prometendo levar as meninas a conhecer alguém importante

— Porque vocês precisam ver — disse finalmente. — O bom e o ruim. O conforto e o custo.

— O custo? — Sofia se inclinou, ajeitando os óculos.

Helena se levantou e deixou Créditos virtuais na mesa com um gesto rápido.

— Venham. Tem alguém que preciso que conheçam.

As ruas mudando para fachadas mais antigas e desgastadas, Helena mencionando que foi Amy quem lhe mostrou aquele lugar
// Cidade · Bairro Antigo

As ruas mudaram conforme caminhavam. O néon dava lugar a fachadas mais antigas, mais desgastadas. O sincronismo perfeito dos pedestres diminuía. Aqui, algumas pessoas tropeçavam. Se esbarravam.

— Amy me mostrou esse lugar — Helena falou baixo, quase pra si mesma. — Quando eu ainda estava descobrindo que tipo de pessoa eu queria ser.

— Quem é Amy? — Sofia perguntou.

Helena sorriu — aquele sorriso triste que já estava ficando familiar.

— A “arquiteta”. Alguém que escolheu lutar quando seria mais fácil aceitar. — Fez uma pausa. — Vocês a conhecerão em breve.

Uma cafeteria antiga de letreiro desgastado escondida entre a perfeição futurista, o sino da porta tilintando ao cheiro de café torrado na hora
// Cidade · Grains de Liberté

Dobraram uma esquina. Ali, no meio de toda aquela perfeição futurista, havia algo completamente fora de lugar: uma cafeteria antiga, com letreiro de madeira desgastada.

Grains de Liberté. O cheiro de café puro vazava pela porta entreaberta.

— Que lugar bonito — Bia sussurrou.

A porta se abriu com o tilintar de um sino — um som que não existia mais na cidade, mas que soava profundamente familiar pras meninas. O aroma as atingiu como onda: café torrado na hora, madeira velha, algo terroso e real.

— Isso é... — Sofia fechou os olhos. — Café de verdade.

Atrás do balcão, um homem moía grãos com as mãos. Movimento, pressão, ritmo. Nada de botões. Nada de robôs. O ranger do moedor ecoava no espaço pequeno.

Jean Bernard moendo grãos de café à mão atrás do balcão, prometendo preparar cinco doses especiais para as meninas experimentarem o verdadeiro

— Helena! — Ele sorriu, mas havia cansaço naquele sorriso. Linhas profundas ao redor dos olhos. — É bom ter você por aqui.

— Bernard — Helena se aproximou. — Preciso que prepare algo especial. Cinco doses. Elas precisam experimentar o verdadeiro.

— Será um prazer — disse ele, já alcançando as xícaras, dedos se movendo com a precisão de quem fez aquilo milhares de vezes. — Mas você sabe que um dia virão me buscar por essa teimosia.

Não estava brincando. Bia passou a mão pelo antebraço, desconfortável.

— Não me importo — Jean Bernard despejou água fervente sobre o pó moído na hora.

O cheiro explodiu, preenchendo cada canto.

— Prefiro que arranquem a arte das minhas mãos com violência do que entregá-la voluntariamente — fez uma breve pausa, respirou fundo.

— Quando este dia chegar, estarei preparado.

// Em Produção

O próximo capítulo ainda não foi publicado.

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