Início
Prólogo · O Despertar Cap. 01 ▶▶
Eles chegaram
// 20 de Outubro de 2145 · 10h42

Na quarta-feira, 20 de outubro de 2145, às 10h42...

Eles chegaram.

Stephen com a bola de baseball diante do console neural

O pesadelo de Stephen estava prestes a se tornar real. Stephen, ainda com a respiração descompassada pela acalorada discussão com o prefeito Vargas havia poucos minutos, arremessava sua velha bola de baseball contra a parede, enquanto tentava relaxar diante do console de entretenimento neural.

A porta de madeira estremece com a pancada

A porta de madeira maciça estremeceu sob o impacto seco da primeira pancada. Ele franziu a testa e se levantou rapidamente do sofá. Certamente não se tratava de uma visita amigável. A conversa tensa sobre os rumos do Projeto de Governo e a crescente segregação dos considerados ‘inaptos’ ecoava em sua mente.

A frieza de Vargas e seu olhar distante o haviam deixado com um pressentimento sombrio.

Dois Sentinelas invadem a sala com arrombador sônico

Antes que pudesse alcançar a janela em busca de uma possível rota de fuga, a porta cedeu com um estrondo — lascas de madeira voaram pelo ar. Dois vultos uniformizados, altos e de porte atlético, invadiram a sala. Seus rostos eram inexpressivos, como se congelados. Seus movimentos precisos e coordenados transmitiam uma eficiência fria e assustadora. Eram os SENTINELAS. Um deles, que carregava um DISPOSITIVO DE ARROMBAMENTO SÔNICO em formato de escopeta, disse pausadamente:

— Stephen O'Reilly. MANDATO DE RECOLHIMENTO, ARTIGO 3, PARÁGRAFO 2, SUBSEÇÃO B — declarou, com voz monótona e desprovida de qualquer emoção.

Stephen encurralado na sala

Stephen recuou instintivamente. O som da madeira se partindo ainda ecoava pela sala quando percebeu que não havia para onde fugir. Aqueles homens não agiam com raiva, pressa ou hesitação. Havia algo pior na maneira como avançavam: uma precisão absoluta. Como máquinas treinadas para eliminar qualquer possibilidade de resistência. O brilho azulado dos dispositivos refletia nas paredes da sala enquanto o ar parecia se tornar mais pesado a cada passo. Pela primeira vez, Stephen sentiu que o Sistema não pretendia apenas silenciá-lo.

Pretendia apagá-lo. Os agentes se aproximaram com agilidade surpreendente.

Stephen paralisado com a foto de Amy no chão

O outro SENTINELA portava um dispositivo em formato de bastão que, ao ser acionado, emitiu uma breve onda sonora. PZZZT.

No mesmo instante, o corpo de Stephen pareceu pesar toneladas. Os músculos entorpeceram e a coordenação motora desapareceu. Ele ficou imóvel. Com o impacto na porta, a fotografia de Amy caiu no chão. Stephen tentou alcançá-la, mas os músculos não responderam. Próxima aos pés de um dos SENTINELAS, a velha bola de baseball repousava desfocada no chão, congelada sob a luz âmbar da sala. Era inútil lutar. Não pôde sequer deixar uma mensagem para Amy, sua esposa.

Stephen conduzido pelos Sentinelas para fora de casa

Com profissionalismo gélido, os agentes o conduziram para fora de casa. Vizinhos curiosos surgiram nas portas, mas recuaram ao verem a frieza dos algozes e a cabeça de Stephen baixa, o queixo contra o peito. Ninguém ousava intervir.

A Gestora da Rede observava — onipresente e silenciosa — por meio de dispositivos acoplados aos SENTINELAS. Seu Sistema era implacável com os opositores.

Doze anos se passaram
Nexxus observando a cidade futurista de Ibaru
// Ibaru · 2157

Do alto do edifício mais alto de Ibaru, o guia observava a cidade se estender até o horizonte. O sol da tarde banhava torres translúcidas, praças, jardins suspensos e ruas onde automóveis deslizavam em silêncio.

Visão dos contrastes da cidade e o Subnível

Seus olhos captavam tudo: o zumbido das máquinas, o riso de crianças em praças impecáveis e o ar abafado que subia das entranhas do solo — do Subnível, onde milhares de pessoas encenavam uma vida que nunca foi sua, perdidas em um sonho eterno.

Nexxus sentindo o pulso da cidade

Caminhando pela cidade, era possível sentir o cheiro doce e metálico que subia pelas grades de ventilação nas calçadas. Ele fechou os olhos e sentiu o pulso da cidade. O chamado havia sido ouvido.

Amy, a arquiteta, ajustando linhas de código no painel holográfico do Monitor do Tempo, diante da cidade de Ibaru à noite

Atrás dele, a “arquiteta” trabalhava. Dedos ágeis dançavam sobre painéis holográficos, ajustando linhas de código que brilhavam como constelações. Juntos, eles haviam vasculhado décadas no Monitor do Tempo — não datas frias, mas ondas de memória viva, padrões neurais que a Gestora jamais previra. Então as encontraram. Quatro meninas. 2027. Padrões únicos. Variáveis impossíveis de calcular. A “arquiteta” pausou o trabalho e olhou para o gato.

— Finalmente, lá estão elas!

Ele abriu os olhos — azuis como cristal — e saltou do parapeito.

— O tempo as escolheu — disse com voz calma. — Agora é só buscá-las.

A janela iluminada do apartamento de Amy no alto de uma torre escura de Ibaru, com a silhueta de Nexxus, como a lanterna que espera o retorno de quem se perdeu

A “arquiteta” voltou aos códigos. Números correram pelas telas até que uma data se fixou: 20 de outubro de 2027. Antes de acionar o comando final, Amy olhou para a foto de Stephen, seu marido preso no Subnível.

Uma história antiga lhe veio à mente — a de uma mulher que todas as noites acendia uma lanterna na janela de casa e a deixava queimar até o amanhecer. Os vizinhos perguntavam por que desperdiçava o azeite. Ela respondia que seu marido estava viajando e que, quando voltasse, precisava encontrar luz no caminho. Anos se passaram. Alguns vizinhos pararam de perguntar. Outros começaram a dizer que ela havia enlouquecido. Ela continuou acendendo a lanterna. Numa noite de tempestade, uma chama quase apagada foi o bastante para que ele reconhecesse a janela, depois de tanto tempo perdido.

Amy entendeu aquela mulher de um jeito que as palavras não alcançavam. A lanterna não iluminava o caminho inteiro — só o passo seguinte. E às vezes um único passo é tudo que o amor consegue pedir.

Blecaute em Ibaru e a energia do Monitor do Tempo

Ela respirou fundo e apertou o botão.

O painel vibrou violentamente. Amy sentiu o arrepio do consumo de energia atingir o limite crítico — o Monitor do Tempo exigia mais do que a rede deveria permitir. Ela prendeu a respiração, esperando o bloqueio imediato do Sistema. Mas, nas profundezas da infraestrutura de Ibaru, uma ordem silenciosa foi dada, criando um vácuo momentâneo de vigilância. O código fluiu livre. As luzes da cidade piscaram intensamente até que um blecaute desligou Ibaru por completo. A Gestora observava, mas algo garantia que ela não visse o que acontecia naqueles segundos cruciais.

A cidade tornou a se iluminar em questão de instantes.

O SDR se materializando na escola em 2027

Um aparelho viajou pelo tempo e pelo espaço até se materializar sobre uma mesa, em um canto afastado da escola das meninas.

— Está feito. A Gestora vai investigar esse pico de energia com certeza — disse Amy, a voz ainda trêmula pela descarga.

— Espero que não encontre nada. Vou me preparar para o salto — confirmou o gato, cujos olhos, novamente, refletiram dados. — Se o salto desviar, posso me perder delas.

— Você não vai se perder — disse Amy, e havia certeza na voz dela. — Para encontrá-las, siga a canção. O Sistema rastreia tudo o que pode ser medido, mas nunca aprendeu a ouvir o que une as pessoas.

Agora Nexxus sabia: onde houvesse uma canção sendo cantada junto, sem medo, ali elas estariam.

Amy continuou suas instruções:

— Élida garantiu que os cálculos estão corretos e que estaríamos invisíveis para o Sistema — completou, mais baixo. Mesmo assim, seus olhos buscaram no horizonte a torre da Prefeitura, como se suspeitasse que alguém, propositalmente, havia ignorado a queda de energia — permitindo que aquele vácuo existisse.

PICO DE ENERGIA — SETOR CENTRAL.

ORIGEM: REDE DA PREFEITURA DO TEMPO.

AUTORIZAÇÃO: GABINETE DA PREFEITURA. MANUTENÇÃO PROGRAMADA.

INVESTIGAÇÃO: DESNECESSÁRIA.

ARQUIVAR.

O gato nada mais disse e caminhou até ela.

As quatro garotas acordando para uma manhã comum em Bauru
// Bauru · 20 de Outubro de 2027

Bem longe dali, no passado, quatro meninas despertavam para um dia comum. A última manhã antes de tudo se transformar. Aquele momento mudaria a história — mas elas ainda não sabiam disso.