Caminhavam sem rumo entre as bancadas, deixando a feira seguir ao redor.
— Sabe o que eu queria mesmo? — disse Clara, os olhos brilhando. — Ir a um show da Ana Maris. Um dia, na primeira fila, cantando cada música.
— Um dia a gente vai ao show da Ana Maris, sim — Bia sorriu. — Mas antes, vamos ao seu. Você no palco, e a gente na primeira fila gritando seu nome.
— Imagina só — Sofia completou. — "Clara Farzoni, ao vivo." Vai ser um sucesso.
Clara riu, encabulada, e o sonho pareceu por um instante possível.
Sem nem perceber, começou a cantarolar baixinho — depois mais alto, a voz ganhando coragem entre as bancadas:
Essa é minha própria canção
Cabe inteira no meu coração
Se eu desafinar
Tudo bem
As outras três não resistiram. Como sempre faziam quando Clara cantava, entraram juntas, sem combinar, completando o refrão:
Só eu sei o som que eu tenho aqui também
Quando o medo gritar mais alto
Eu aumento o volume da razão
Vivo em primeira pessoa
Minha vida é meu refrão
As vozes se encontraram no ar, desafinadas e felizes, e por um momento não havia feira, nem avaliadores, nem o peso estranho daquela manhã — só as quatro e a canção. Foi então que ele apareceu.
Um gato surgiu no corredor, como se a canção o tivesse chamado. Pequeno, esguio, olhos azuis intensos. Pelo limpo demais para ser de rua.