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Capítulo 01 · A Sintonia Cap. 02 ▶
Bia acordando no quarto e os óculos caindo no carpete
// Bauru · 20 de Outubro de 2027 BEEP BEEP BEEP.

O som cortou a calma do quarto. Bia esticou o braço para desligar o alarme e os óculos escorregaram da mesinha.

CLAC.

Vidro no carpete. O barulho da queda pareceu mais forte que o normal — como um som vindo do passado.

Por um instante, uma imagem surgiu na sua mente: um quarto com luz amarelada, ar frio, o celular dando ocupado.

Bia apalpou o chão até achar a armação fria e ajustou os óculos.

— Chegou o dia — murmurou.

Ela piscou forte para afastar a lembrança. Calçou as pantufas de coelho, já gastas nas pontas — um presente guardado com carinho.

Bia olhando pela janela ensolarada de outubro

Ao abrir a janela, o sol de outubro dourava as telhas e uma brisa invadiu o quarto, trazendo o cheiro de grama cortada do bairro arborizado.

A vizinhança estava calma, mas o peito de Bia estava agitado.

Era 20/10/2027, o dia de apresentar o Sintonizador Temporal na feira de ciências: um rádio retrô que imitava sons futuristas de filmes de ficção científica. O projeto da turma, naquele ano. O coração acelerou. Para Bia, era o resultado de três semanas de dedos queimados por solda e noites em claro.

Ela conseguia ver cada detalhe no esforço das amigas: Clara derramando estanho com sua empolgação desastrada, Sofia citando Platão enquanto segurava os manuais, Isa apontando cada milímetro de erro e a própria Bia apertando parafusos três vezes, porque tudo tinha que dar certo.

Clara apressada na cozinha com o pai tomando café

Do outro lado da cidade, Clara acordou de susto com os números vermelhos do relógio digital: 6h52.

Ela desceu as escadas apressada; o tempo parecia correr mais rápido.

— PAI! Cadê a minha blusa azul?!

Na cozinha, o Sr. Farzoni mexia o café, sem pressa.

— Tá na máquina. Usa a verde.

— A verde não combina com nada!

— Clara... — o olhar por cima da xícara bastou. — São quase sete horas!

Mesmo de carona, quase se atrasou. Isa e Sofia também despertavam, sem ter ideia do que o dia havia reservado para elas.

Bia diante do Sintonizador Temporal no laboratório vazio da escola

Bia chegou à escola cedo. O zelador ainda tirava o cadeado e as correntes do portão. O pátio vazio ecoava seus passos. Cheiro de cera nova no corredor.

Entrou no laboratório devagar, cautelosa.

— Hoje não posso errar.

O Sintonizador Temporal estava lá. Madeira envernizada. Botões cromados. Fios perfeitamente organizados. Bia passou os dedos sobre ele com carinho. Passos apressados no corredor.

— Bia! — Clara surgiu, cabelos louros bagunçados, ofegante. — Quase perdi a hora!

— Calma. Respirar ajuda — respondeu Bia, com um sorriso leve.

Isa analisando a parede com tinta fresca

Isa entrou logo depois, olhos atentos aos detalhes — câmeras novas no teto, parede com tinta ainda fresca.

— Por que pintaram só essa parte? — tocou a tinta mais escura, manchando a ponta dos dedos.

— Deve ser pra feira — arriscou Clara.

Sofia chegando com o livro na mão

Sofia chegou em seguida, com um livro fino na mão.

— "O mistério da coisa é a coisa" — citou com voz suave.

— Você lê Fernando Pessoa antes das oito? — Isa ergueu a sobrancelha. — Isso não é normal.

— É Alberto Caeiro.

— É a mesma coisa.

— Normal é relativo — Sofia fechou o livro. — Tá aberto a interpretações.

As quatro amigas reunidas ao redor do Sintonizador no ensaio

As quatro se reuniram ao redor do aparelho. Ensaiaram, testaram. Bia checou os fios mais uma vez. Clara admirava o resultado. Isa procurava falhas. Sofia fechou os olhos, torcendo para dar tudo certo.

O barulho da feira crescia lá fora.

Clara girando o dial e a discussão tensa com Isa

Quando Clara girou o dial, o som encheu o ar. Bia notou um tom diferente — quase imperceptível, mas algo estava fora do lugar.

— Funcionou! — Clara comemorou, batendo palmas.

— Claro que funcionou — Isa cortou, sem levantar os olhos do aparelho. — A gente testou dezessete vezes. Se não funcionasse agora, era porque alguém mexeu onde não devia.

O sorriso de Clara vacilou. Ela tinha sido a última a mexer no dial.

— Eu não mexi em nada...

— Eu não disse que foi você — Isa respondeu.

Mas a indireta tinha alvo, e o alvo era Clara. Bia se abaixou para ajustar os cabos, fingindo não ter ouvido. Mas era mais fácil arrumar um fio solto do que ignorar o clima pesado, que ficou no ar.

Carol tirando fotos e visitantes chegando ao ginásio da feira

No pátio, Carol circulava com o tablet, fotografando sorrisos.

— Pessoal, olhem aqui! — gritava. Clic, clic, clic.

Visitantes começaram a chegar. Pais, professores, crianças correndo. A escola fervilhava.

Clara percebeu a tensão da amiga.

— Relaxa, Bia — disse. — Tá tudo bem.

Clara demonstrando o Sintonizador Temporal aos visitantes curiosos

Um grupo se aproximou. Clara aproveitou para explicar aos visitantes curiosos:

— É só girar esse botão aqui devagar, no sentido horário, até o ponteiro chegar no meio — dizia, sorrindo. — Aí vem o som futurista perfeito!

O som saiu limpo. Uma senhora levou a mão ao peito, surpresa. Um homem murmurou "fascinante".

Sofia lendo no estande enquanto conversa com Clara e Isa

— Viu o projeto do 9º C? Ficou incrível, e eles nem ensaiaram ontem — Isa, distraída com o estande vizinho, falou para Sofia.

Sofia, mergulhada no livro, mal ouviu. Clara tocou seu ombro.

— Ei, filósofa... Volta pra Terra.

— Desculpa — Sofia sorriu. — Tava pensando... e se viajar no tempo fosse mesmo possível?

— Muito impossível — Isa balançou a cabeça.

— Tudo parece impossível até que alguém consiga fazer — Sofia respondeu.

Sofia agachada conversando com as crianças sobre viagem no tempo

Crianças se aproximaram. Sofia se agachou até a altura delas.

— Se pudessem viajar no tempo, iriam pro passado ou pro futuro?

— Passado, comprar Bitcoin! — falou o de cabelo espetado.

— Pro futuro, ver carro voador! — disse o outro.

— E se descobrissem algo terrível que não pudessem mudar?

Os meninos saíram correndo, rindo alto.

— Típico. Você assustando criança com filosofia — Isa balançou a cabeça.

— Eu só queria que eles pensassem sobre isso! — Sofia se defendeu.

— Nem todo mundo quer pensar no peso da existência antes do almoço — Clara brincou.

— E depois a gente só quer descansar — Bia completou.

Todas riram.

O professor Elias Vidal recebendo a mensagem luminosa no tablet

No andar de cima, o professor Elias Vidal revisava anotações quando o tablet piscou. A tela escureceu. Uma luz dourada formou palavras no ar, acima da tela do aparelho:

Professor Elias Vidal, O futuro está em perigo. Ouça as quatro jovens que virão até você. Elas são a chave. Não as ignore. O tempo conta com sua ajuda. — Amy —

O professor Elias guardando a mensagem e descendo as escadas pensativo

O coração dele disparou. Procurou câmeras, reflexos, alguma explicação. Nada. Tocou a mensagem — sólida, fria. Dobrou-a e guardou no bolso.

— Quatro meninas...

Desceu as escadas mergulhado em seus pensamentos. Varreu o ginásio com o olhar até encontrar um estande com meninas. Viu as quatro ao redor de um aparelho.

O professor Elias Vidal encarando Bia no estande

Quando ele se aproximou, Bia sentiu o chão tremer. Elias sentou-se à mesa, diante delas, olhando cada uma. O olhar demorou em Bia.

— Tudo sob controle por aqui?

— Tudo, professor — Sofia respondeu.

— Mesmo? — insistiu, fixo em Bia.

Ela engoliu em seco. O coração martelou nos ouvidos.

— Sim.

— Belo projeto. Muito criativo.

Clara mordeu o lábio inferior, forçando o ar a entrar devagar. Elias era normalmente animado; hoje parecia estranho.

— Professor, o senhor tá bem? — Isa perguntou.

— Às vezes a ciência nos surpreende — ele disse, vago, e se afastou.

Elas observaram até ele sumir entre as barracas.

— Que clima foi esse? — Clara soltou o ar.

— Ele te encarou tipo... uns cinco minutos — exagerou Isa.

— Estranho — Bia piscou rápido.

O gatilho emocional e as lembranças do passado de Bia

As palavras de Isa dispararam outro gatilho. Mão no tapete, relógio correndo, respiração parada, socorristas — ela cortou a memória, de novo.

As meninas caminhando pelos corredores alegres da feira

— Vamos dar uma volta? — Clara sugeriu.

— Boa ideia — Bia concordou.

— E a barraca? — Isa perguntou.

— A Carol tá ali — Sofia apontou. — Vamos pedir pra ela olhar.

Carol aceitou, animada. Bia deu instruções rápidas, guardaram as mochilas e saíram pelos corredores, mergulhadas no caos alegre da feira de ciências da escola CAIC.

Exploraram o evento, empolgadas.

— Olha isso! — Clara mostrou um drone carregando brigadeiros.

— E aquele braço robótico! Tá jogando xadrez sozinho! — Isa apontou, animada.

Sofia parou diante de um painel solar que se autoajustava, engrenagens girando com suavidade.

— Todo ano me surpreendo com a criatividade daqui — disse ela. — Cada projeto é como uma pergunta sobre o que a gente é capaz de criar.

— Por que você fala isso sempre que vem na feira? — Clara inclinou a cabeça.

Sofia contando a história do homem e do barco de madeira

Sofia ficou olhando as engrenagens girando por um momento.

— Minha avó me contou uma história uma vez. De um homem que sonhava em atravessar o oceano num barco de madeira. Todo mundo na aldeia ria dele. Falavam que madeira afunda, que o vento não obedece, que o oceano não perdoa sonhadores. Ele construiu o barco assim mesmo. Demorou anos. No dia em que saiu, metade da aldeia foi ao porto — não pra desejar boa viagem, mas pra ver o naufrágio. O barco sumiu no horizonte e nunca naufragou.

— Ele chegou do outro lado? — Clara perguntou.

— Ninguém sabe. Mas a história que ficou não foi a dos que riram. Foi a do barco que sumiu no horizonte.

— Isso é um final frustrante — Isa franziu a testa.

— É um final aberto — Sofia corrigiu, com um sorriso. — A diferença é que num final frustrante você desiste de imaginar. Num final aberto, você não consegue parar de pensar no que aconteceu com ele.

Bia com um pressentimento estranho em meio às risadas das amigas

Todas riram — riso solto, leve.

Bia, mesmo descontraída, pressentia algo que não sabia explicar — como se alguém, de algum lugar, lesse suas lembranças página por página.

— Precisamos voltar — falou, olhando o celular. — São 8h15. Os avaliadores chegam logo.

O professor Elias observando as quatro meninas de longe, com a mensagem ainda no bolso

Sem que percebessem, de longe, o professor Elias Vidal as observava. A mensagem ainda queimava no bolso.

— Quatro meninas… E se não forem elas? — murmurou. — Ouça-as… Mas ouvi-las dizer o quê?

Apertou o bolso com os dedos trêmulos. Desviou o olhar delas, mas as palavras permaneceram grudadas na sua mente.

As quatro amigas cantando juntas e o gato siamês aparecendo no corredor

Caminhavam sem rumo entre as bancadas, deixando a feira seguir ao redor.

— Sabe o que eu queria mesmo? — disse Clara, os olhos brilhando. — Ir a um show da Ana Maris. Um dia, na primeira fila, cantando cada música.

— Um dia a gente vai ao show da Ana Maris, sim — Bia sorriu. — Mas antes, vamos ao seu. Você no palco, e a gente na primeira fila gritando seu nome.

— Imagina só — Sofia completou. — "Clara Farzoni, ao vivo." Vai ser um sucesso.

Clara riu, encabulada, e o sonho pareceu por um instante possível.

Sem nem perceber, começou a cantarolar baixinho — depois mais alto, a voz ganhando coragem entre as bancadas:

Essa é minha própria canção
Cabe inteira no meu coração
Se eu desafinar
Tudo bem

As outras três não resistiram. Como sempre faziam quando Clara cantava, entraram juntas, sem combinar, completando o refrão:

Só eu sei o som que eu tenho aqui também
Quando o medo gritar mais alto
Eu aumento o volume da razão
Vivo em primeira pessoa
Minha vida é meu refrão

As vozes se encontraram no ar, desafinadas e felizes, e por um momento não havia feira, nem avaliadores, nem o peso estranho daquela manhã — só as quatro e a canção. Foi então que ele apareceu.

Um gato surgiu no corredor, como se a canção o tivesse chamado. Pequeno, esguio, olhos azuis intensos. Pelo limpo demais para ser de rua.

O gato deslizando entre maquetes até a barraca abandonada

— Olhem! — Sofia exclamou baixinho.

— Não parece de rua — Bia disse.

— Que fofo! — Clara se aproximou devagar, mão estendida.

O gato as encarou, virou e deslizou entre as maquetes.

Elas o seguiram sem pensar. O corredor ficou mais silencioso, a luz mais fraca. O cheiro de cera deu lugar a um ar parado. Pararam num canto esquecido do ginásio, cheio de vulcões de papelão e robôs de sucata.

— Cadê ele? — Clara olhou ao redor.

Sofia notou algo diferente e apontou para uma barraca afastada, quase abandonada. Sobre uma mesa velha, um rádio antigo com botões cromados brilhava como novo. O visor oval piscava em amarelo e vermelho. Um letreiro simples, estampado na pequena tela, anunciava:

Sintonizador de Destino Remoto (SDR)

A tela do SDR piscando a mensagem gravada para Bia

Bia se aproximou devagar. O design era avançado demais para uma feira escolar. Ao tocar o metal, sentiu um formigamento leve subir pela pele.

— Tá ligado — murmurou.

— Parece o nosso projeto, mas muito melhor. Quem fez isso? — Isa arregalou os olhos.

— É antigo e futurista ao mesmo tempo — Sofia se aproximou, pensativa.

Uma luz azul piscou. Palavras surgiram gravadas no visor oval:

| Bia: SDR pronto. Inicie a sintonia certa. Altere destinos.

— Bia... essa mensagem é pra você — Clara mordeu o lábio, pálida.

— Quem mandou isso? — Isa sussurrou.

— Não sei — Bia respondeu.

— Será que é do professor Elias? — Sofia sugeriu, ajeitando os óculos.