◀ Cap. 01 Início
Capítulo 02 · A Chegada Cap. 03 ▶
O dilema diante do Sintonizador

O mistério em torno daquele curioso aparelho crescia.

— Mas por que ele esconderia isso aqui? — Isa rebateu.

— Talvez a gente devesse chamá-lo — Clara propôs.

— Será que é perigoso?

Bia respirou fundo, sentiu o estômago dar um nó. Apertou os dedos até as unhas cravarem nas palmas.

— É uma feira de ciências. Não aprovariam nada que fosse arriscado.

Bia decidida a acionar o SDR

Isa recuou um passo.

— Mas tá abandonado. E se esse troço for perigoso mesmo?

— Tem o meu nome — Bia insistiu. — Preciso saber o que isso significa.

— Só "Bia", não o nome inteiro — Sofia observou.

— O professor Elias tava muito estranho hoje — Clara lembrou.

Bia tocou o botão.

— Bia, não! — Clara agarrou o braço dela.

— Só vou girar um pouco — ela se soltou e virou o botão devagar, no sentido horário, até o ponteiro chegar no meio.

O disparo de luz do SDR e o salto temporal

Uma sensação de indução elétrica subia pela pele. Faíscas saltaram. A luz do ginásio piscou. Um feixe dourado subiu, formando um círculo brilhante.

— Uau, que maneiro! — Isa exclamou.

Um vento suave abafou os sons da feira. Bia viu que o relógio na parede marcava 8h21 — foi a última imagem antes da explosão de luz branca. Elas fecharam os olhos. Tudo girou. Frio cortante. Ausência de peso.

Os segundos pareciam eternos. Ainda puderam ouvir um som grave saindo do aparelho e o coração de cada uma batendo no mesmo ritmo.

Então aconteceu... As meninas desapareceram num turbilhão de luz.

A patrulha de Sentinelas na praça futurista
// Nova Realidade · Ponto de Chegada

Quando abriram os olhos, estavam ao lado de uma praça. A escola tinha sumido. O SDR não estava mais com elas — permaneceu no mesmo lugar, como uma âncora do passado, o estalo do deslocamento temporal ainda ecoando nos ouvidos.

Antes que pudessem entender onde estavam, o som rítmico de botas pesadas contra o chão metálico as fez paralisar. Do final da avenida, um grupo de policiais de uniformes escuros e visores opacos avançava em formação perfeita.

Havia uma precisão assustadora em seus movimentos; revistavam cada sombra com lanternas de luz azul.

— Escondam-se! — sussurrou Bia, puxando as outras para trás de um tronco de árvore translúcido.

A comandante Sentinela diante do esconderijo

O feixe de luz de um dos SENTINELAS varreu a praça, parando a milímetros do pé de Sofia. O coração delas batia tão forte que parecia audível no silêncio da rua. A líder do grupo parou e levantou a mão, sinalizando para a tropa deter o passo. Por um momento, a oficial olhou diretamente para onde elas estavam. Sob o visor, as meninas perceberam um olhar feminino frio, calculado, cortante como uma lâmina.

Por um instante pareceu que a mulher as via de fato. Mesmo assim, o grupo mantinha a imobilidade de estátuas, rostos ocultos pela disciplina rígida que o Sistema impunha aos seus servos.

A mentira no comunicador

O chiado de estática veio do comunicador no ombro da oficial. Uma voz sintética solicitou um relatório de varredura. A mulher manteve o olhar fixo no esconderijo das meninas por mais um segundo — longo, pesado — antes de apertar o botão de resposta.

— Setor 4 limpo. Nenhuma anomalia detectada — disse ela, com voz firme que não admitia dúvidas. — Sigam para o quadrante norte. Houve uma oscilação de energia lá.

Com um gesto seco, comandou a tropa na direção oposta. As meninas soltaram o ar, sem saber que aquela mentira acabara de salvar suas vidas.

O choque visual da metrópole futurista

— Vocês estão bem? — Bia perguntou, voz rouca.

— Não! — Clara gritou, agarrando o braço de Sofia, dedos tremendo. — Eu disse pra não mexer naquele treco! Eu sabia!

— Isso não pode ser real — Sofia balbuciou, voz trêmula.

— Que loucura é essa? Onde a gente tá? — Isa girava o corpo, peito arfando.

Arranha-céus translúcidos se curvavam ao longe. Carros flutuavam em silêncio. Drones voavam como libélulas de luz. Bia tocou a árvore que servira de esconderijo. As folhas de cristal tilintaram como sinos delicados.

— A pergunta certa é quando a gente tá — disse, tentando soar firme.

O banco inteligente e as roupas que mudam de cor

— Para com isso! — Clara explodiu, olhos marejados. — Isso não pode ser real! É impossível!

Sofia apontou o céu azul perfeito, sem nuvens. Clara se jogou num banco — e gritou quando ele pulsou levemente sob ela, ajustando-se ao seu corpo.

— O banco tá vivo!

— Calma, Clara — Bia tentou, mas a própria voz tremia.

Uma mulher passou. A roupa dela mudou de azul sereno para dourado vibrante. Logo depois, uma garotinha que caminhava sozinha sorriu para elas — e a roupa da menina se tingiu de laranja suave, pulsando mais forte quando ganhou o sorriso de volta.

— As roupas... mudam de cor — Isa disse, fascinada. — Mostram o que a pessoa sente.

— Eu quero ir pra casa — Clara suplicou, a voz engasgando. — Por favor, alguém me leva pra casa.

O drone de recepção da Prefeitura

— Vamos respirar e pensar — Bia murmurou. — Tem que ter uma explicação.

Um painel holográfico flutuava próximo: "Fusão quântica acelera viagens intergalácticas." Sofia leu em voz alta, olhos arregalados.

Clara pisou num ícone no chão — era a propaganda de uma floricultura. Flores virtuais explodiram ao redor, dançando antes de sumir em luz.

— Acho que a gente morreu — disse, com sorriso nervoso, e deitou-se no chão, cruzando as mãos sobre o peito.

— Para com isso! — Isa se ajoelhou ao lado dela. — Você tá assustando todo mundo, levanta.

— Olha! Aquilo tá vindo pra cá! — Clara apontou para o alto.

Um drone esférico flutuou na direção delas. Clara se escondeu atrás de Bia.

— Bem-vindas, visitantes registradas: Bia, Isa, Clara e Sofia.

A rota guiada pelas setas luminosas

— Como ele sabe nossos nomes? — Sofia sussurrou.

— Alguém tá vigiando a gente — Isa disse, franzindo a testa.

— Nos trouxeram de propósito — Bia respondeu, erguendo o queixo.

— A Prefeitura saúda sua presença. Um percurso de introdução foi preparado. Sigam este drone pelos sinais no chão — o drone continuou, voz mecânica.

Bia respirou fundo, olhou ao redor e, decidida, falou:

— Vamos seguir. É a única opção. Talvez alguém explique por que estamos aqui.

— Seguir?! — Clara gritou. — Eu não vou seguir nada!

— E o que você quer fazer? Ficar aqui gritando? — Isa retrucou.

— Eu só quero voltar pra casa — Clara respondeu, voz chorosa, mordendo o lábio.

— Todo mundo quer — Sofia disse, suave, ajeitando os óculos.

Isa tocando o piso ondulante e a mágoa silenciosa de Clara

— Para com isso, Clara — Isa cortou. — Surtar não vai te levar pra casa. Assim você só piora pra todo mundo que tá buscando uma saída.

Em seguida ela abaixou-se, tocando o piso, que ondulou sob os dedos.

Clara encolheu. Não era a primeira vez no dia que a Isa a fazia sentir que era o problema.

A Sorveteria NeoGelato e o reencontro com Nexxus

Bia olhou o caminho de setas luminosas.

— Vamos continuar. Juntas a gente descobre o que tá acontecendo.

Seguiram caladas. Passaram por praças com fontes de luz líquida. Crianças brincavam com hologramas de dragões e unicórnios. Uma seta brilhou forte: Sorveteria NeoGelato. A fachada mudava de cor devagar. Humanoides atendiam atrás de paredes transparentes. Sabores flutuavam como esculturas. Pessoas passavam em fluxo perfeito, sem tropeços, quase sem olhares.

Isa apontou de repente:

— Olha ali! O gato!

O siamês estava parado na porta da sorveteria, olhos brilhando, imóvel. Esperando.

— É ele mesmo — Bia confirmou.

O pacto de união entre as quatro amigas

— Não vou seguir esse gato de novo — Clara explodiu, voz alta.

Algumas pessoas viraram a cabeça, olharam por um segundo e seguiram como se nada tivesse acontecido.

Mas aquele momento disparou algo que os sentidos comuns não captavam. Um som agudo pulsou no ar, acima delas, e parou. Ninguém reparou.

— Vocês não tão vendo? Foi ele que levou a gente até aquele treco na feira! — A voz dela tremia. — Olha onde a gente veio parar! Nem sabemos onde estamos, nem como voltar!

Sofia tentou tocar o ombro dela, mas Clara se afastou.

— Não me acalma como se eu fosse maluca. Eu tenho direito de surtar!

— Ela tem razão. E se ficar pior? E se a gente se perder mais? — Isa olhou ao redor, franzindo a testa.

O gato esperava, imóvel.

Bia confessando seu próprio medo diante das amigas

Bia respirou fundo, peito apertado. Todas olhavam para ela, esperando respostas.

— Eu também tô com medo — admitiu, voz baixa. — Não... tô apavorada. É como cair sem ter onde segurar.

— Você tá com medo? — Clara piscou, surpresa.

— Óbvio! — Bia quase riu, mas saiu um soluço. — Acham que eu sei o que tô fazendo? Meu coração tá disparado! — Colocou a mão no peito. — Mas ficar parada não resolve.

— Seguir um gato também não parece boa ideia — Isa disse.

— É a única que a gente tem — Sofia murmurou, ajeitando os óculos.

Todas se calaram. A cidade seguia perfeita ao redor. O gato inclinou a cabeça. Bia olhou as amigas.

— Eu não sei o que vai acontecer. Não sei se a gente vai voltar. Mas não vejo outra opção.

— Obrigada, ajudou muito — Isa ironizou, mas sem força.

O pacto de união entre as quatro amigas

Bia estendeu a mão no centro do grupo.

— Entramos nisso juntas. Vamos ficar juntas. Não importa o que vier.

Sofia colocou a mão sobre a dela na hora.

— Juntas.

Isa suspirou e juntou a mão.

— Vocês são dramáticas demais.

Clara limpou o rosto, fungando.

— Se a gente morrer, eu mato vocês.

— Tem todo direito — Isa disse.

Clara colocou a mão por cima.

— Juntas! — Bia gritou.

— Juntas! — ecoaram.

O som se perdeu na praça. O gato aprovou com um movimento de orelha. Clara tremia menos.

— Tá. Vamos seguir o gato maluco. Mas se der encrenca, eu juro…

Soltaram uma risada nervosa e seguiram.

Caminhando pela cidade futurista e a história do pai de Bia

O gato caminhava à frente. Setas luminosas brilhavam mais forte no chão.

— Pra onde ele tá levando a gente? — Clara perguntou, mais calma.

— Pra... Fábrica de Chocolate? — Sofia brincou.

— Tomara que tenha comida. Tô com fome — Isa disse.

— Vocês pensam em comida agora? — Clara ficou incrédula.

— Medo dá fome — Bia explicou.

Bia contando a história do pai sobre a mulher na floresta escura

Bia caminhou mais alguns passos antes de falar, como se o pensamento tivesse demorado um pouco para sair:

— Tem uma história que meu pai me contou, quando eu ainda era uma garotinha. Falava de uma mulher que entrou numa floresta escura sem mapa, sem lanterna, sem saber se havia saída do outro lado. Alguém perguntou por que ela foi assim mesmo. Ela disse que se ficasse esperando saber tudo antes de dar o primeiro passo, nunca sairia do lugar.

— Ela chegou do outro lado? — Clara perguntou.

— Meu pai nunca contou essa parte.

Bia sorriu de lado.

— Ele dizia que o ponto da história não era a saída. Era o primeiro passo.

— Se a mulher se perdeu, garanto que ficou com fome — Isa disse.

— Tudo dá fome pra Isa — Sofia retrucou.

Outra risada leve surgiu.

A Cafeteria Lumière e a Lanchonete Megabyte, com o fluxo perfeito das pessoas

Passaram pela Cafeteria Lumière — paredes de cristal translúcido, aroma de café no ar. Depois, pela Lanchonete Megabyte — néon vibrante, cheiro de fritura. As pessoas seguiam em fluxo perfeito, sem esbarrões.

— Tudo parece tão ensaiado — Sofia murmurou. — Tipo NPC — Clara completou.

Nexxus falando com as meninas e a revelação do ano 2157

Perdidas nos pensamentos, quase perderam o gato de vista. Ele reapareceu e se sentou diante delas.

A voz saiu nítida e calma:

— Meninas, bem-vindas ao ano 2157.

Elas congelaram. O gato continuou, acolhedor:

— O destino indicado pelo drone está próximo. Busquem pelo saber.

Clara levou as mãos ao peito. Bia ficou boquiaberta.

— Sua jornada começa ao dobrar a próxima esquina — finalizou o gato.

As meninas espantadas com um gato que fala

— Um gato falando... tô louca — Sofia riu, histérica, tapando a boca.

— Eu ouvi! — Clara tapou a boca, também.

— Ele falou mesmo — Bia exclamou.

— Talvez seja uma projeção de voz — Isa tentou.

— Se a gente tá no futuro, ou gatos falam ou esse aqui é especial — Bia disse.

O gato sumiu na multidão.

— 2157... — Bia repetiu, em voz baixa.

As meninas suspiraram.

As instruções finais do drone diante da esquina da Biblioteca

— O que a gente faz? — Isa sussurrou.

— Vamos até lá. Talvez alguém explique como voltar pra casa — Bia olhou a esquina.

Deram o passo. O drone surgiu de novo, voz solene, mas reconfortante:

— Não se assustem. Vocês conheceram Nexxus, o gato guia. Ele as conduzirá quando necessário.

O drone fez uma pausa. As meninas trocaram olhares.

— Vocês são importantes para o que vem a seguir — continuou. — Conhecerão o propósito de tudo no tempo certo. Sigam as orientações. Só assim poderão voltar para casa.