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Capítulo 09 · A Unidade Cap. 10 ▶▶
Pideya ouvindo Sofia contar como o cheiro de uma flor a devolveu à época antes da separação dos pais
// ITT · Sala de Fixação Mental

Pideya estava satisfeita com as respostas e continuou, em tom solene:

— Muito bem. A lição é que a verdade, para os humanos, não existe de forma absoluta. O que temos é apenas a interpretação dela.

Pideya desviou o olhar, virando para o lado.

— E você, Sofia, o que quer nos contar sobre o olfato?

Sofia tocou o nariz, ajeitando os óculos.

— O cheiro daquela flor me levou de volta pra casa — antes da minha mãe partir, antes da separação dos meus pais. Foi como sentir algo que eu tinha perdido, mas que nunca deixou de existir.

— Isso mostra que não perdemos nada — apenas guardamos em locais escondidos na mente. Mesmo sem saber que estão lá, nos ferimos com eles.

Isa engolindo em seco ao contar que o gosto de uma maçã trouxe de volta a lembrança do atropelamento do seu cachorro Totó

Isa estava se esquivando, mas Pideya tocou suavemente seu ombro.

— E o paladar, Isa?

Ela engoliu em seco.

— Era só o gosto de uma maçã, mas trouxe o Totó de volta. De repente, eu tava no quintal, esperando ele voltar... mas ele nunca voltou. Eu não me lembrava dessa dor há anos. Foi como se eu tivesse visto o atropelamento outra vez.

— Nós somos aquilo de que nos alimentamos — disse Pideya. — Quem se alimenta de mágoas viverá sempre magoado.

O chão da sala acendendo como um pulsar de coração enquanto Pideya explica que as meninas ativaram a sexta chave, a autoconsciência

Helena acompanhava tudo, calada. Pideya caminhou até o centro da sala. O chão sob seus pés acendeu como um pulsar de coração.

— Não treinamos seus sentidos apenas para perceberem o mundo — mas para perceberem a si mesmas. O toque, a luz, o cheiro, o sabor... tudo isso abre portas que estavam fechadas desde o nascimento de vocês.

Helena sentiu o desejo de completar:

— Cinco sentidos, cinco chaves. Para o que está por vir, vocês despertaram muito mais do que isso.

As meninas se entreolharam. Todas se lembravam da sala dos medos — do momento em que precisaram respirar dentro da própria vulnerabilidade até que o pânico cedesse lugar à clareza.

— Vocês ativaram sua autoconsciência. Esta foi a sexta chave — disse Pideya. — E é só com ela que poderão percorrer o que vem agora.

Bia dando um passo à frente para perguntar o propósito de tudo, enquanto Helena revela que aquele futuro está quebrado e precisa ser consertado

Bia deu um passo à frente.

— Mas por quê? Pra que tudo isso?

Pideya e Helena trocaram um olhar de cumplicidade.

— Para enfrentar o que está vindo — respondeu a NEUROTÁQUION. — O futuro que viram não é perfeito... e nem mesmo justo.

Helena se aproximou, a voz saindo áspera:

— Este futuro está quebrado. Vocês precisam consertar. Se tentarmos e falharmos, essa linha do tempo colapsa.

Clara segurou o encosto da cadeira, sentindo a frase como um golpe.

— Mas... o que nós temos a ver com isso?

— Tudo — respondeu Pideya. — Vocês precisam decidir o destino de E.V. — Subject Alpha.

Hologramas das simulações anteriores se formando no ar enquanto Helena revela que E.V. é Eloah Vidal, filha do professor Elias

— Afinal, quem é E.V.? Por que a gente a viu? — quis saber Bia.

— Ela é Eloah Vidal. A filha do professor Elias. Foi ele quem programou em vocês as portas para dimensões cognitivas adormecidas. Quando estimulados em sequência específica, os sentidos ativam o que chamamos de consciência quântica integral — respondeu Helena.

— Então Eloah é a filha do professor! Conta mais! — pediu Bia.

— A verdade está chegando até vocês — completou Pideya. — Agora estão preparadas para conhecê-la.

Ela gesticulou e hologramas se formaram no ar, projetando imagens das simulações que elas tinham experimentado com Hannes.

— Agora vocês estão prontas para a próxima etapa. Bia, você deve guiar o caminho. Clara, a música e o amor são suas armas. Isa, sinta o mundo através do toque. Sofia, permita a integração livre — as diferenças são o que mantém o equilíbrio. A harmonia não se faz com coisas iguais, mas com coisas que se completam.

Pideya explicando às quatro meninas que juntas formam uma unidade imbatível, capaz de enfrentar a Gestora sendo apenas quem são

Helena saiu da sala por alguns instantes para preparar uma pausa para as meninas. Pideya se aproximou delas e acrescentou:

— Agora vocês são mais do que a soma entre vocês. As quatro formam uma unidade. Únicas... e unas.

E, como se lesse a mente das meninas, se antecipou:

— Se sentiram que o que foi dito foi apenas uma repetição do treinamento de Hannes, estão enganadas. Isso foi para lembrá-las de que vocês são imbatíveis juntas. Possuem o poder de confrontar a Gestora — apenas sendo quem são. A união é o poder.

Pideya concluía sua fala quando Helena abriu a porta, chamando-as com um gesto suave.

— Venham. Está concluído. Vamos fazer um intervalo.

Helena servindo às meninas uma bandeja de barras energéticas brilhantes no refeitório iluminado por luz dourada
// ITT · Refeitório

As meninas se despediram de Pideya e a seguiram. Helena as conduziu ao refeitório do ITT, que se estendia sob uma luz dourada filtrada pelas janelas de cristal. O aroma de comidas preparadas com cuidado preenchia o ar. As meninas se acomodaram nas cadeiras, ainda tensas com tudo que haviam vivido.

Helena colocou sobre a mesa uma bandeja com barras brilhantes, partículas cintilando sob a luz.

— Querem experimentar os Tech-Abióticos?

Clara arqueou as sobrancelhas.

— Parece nome de remédio...

— São barras energéticas — explicou Helena. — Restauram forças e emoções.

Cada menina saboreando uma barra Tech-Abiótica que reproduz uma memória gustativa diferente e pessoal

As meninas provaram. Bia fechou os olhos e se surpreendeu: estrogonofe de frango, suave e familiar. Clara sentiu churrasco defumado — lembrança de domingos em família. Sofia saboreou fondue de queijo com cogumelos, uma lágrima escapando sem aviso. Isa mastigou e reconheceu o gosto de hot pot de salmão — lembrança das refeições com os pais nos restaurantes japoneses de que tanto gostava.

— Isso é magia! — exclamou Sofia.

— É ciência e emoção — corrigiu Helena, sorrindo. — A fusão das duas.

— Como isso é possível? — perguntou Isa, incrédula.

— Cada uma sente algo diferente porque os nanoenergéticos agem diretamente no hipocampo e no córtex insular, buscando memórias gustativas e reproduzindo-as com fidelidade.

Helena, com o olhar sério, contando a história do professor Elias Vidal e como ele fundiu a mente da filha doente à Gestora

O silêncio que se seguiu foi quebrado pela própria Helena. O olhar ficou mais sério. O momento havia chegado.

— Agora estão preparadas. Preciso revelar o que está por trás de tudo isso — disse, com determinação.

As meninas se entreolharam, ansiosas. Era o que elas mais queriam. Finalmente, a verdade.

— Tudo começou com o professor Elias Vidal — disse Helena. — Um cientista brilhante, pai dedicado. Ele buscava salvar sua filha de uma doença neurodegenerativa.

— Então foi por isso que a gente viu o professor — murmurou Sofia.

— Elias criou a Gestora, uma IA para ajudá-lo na cura da filha. Mas quando a doença avançou, ele tomou uma decisão radical: transferiu a mente dela para dentro da Gestora.

— Ele fundiu a filha com a Inteligência Artificial? — Clara arregalou os olhos.

— Sim. Ela tornou-se parte do sistema. A alma da Gestora.

Bia esfregando o antebraço ao perceber que E.V. é Eloah Vidal e que o destino dela está nas mãos das quatro, no instante em que a luz do refeitório pisca

Bia apertou as mãos, sentindo o peso da revelação, esfregando o antebraço.

— Então... E.V. é Eloah Vidal. É o destino dela que está nas nossas mãos!

Ninguém respondeu. As meninas mal conseguiam respirar. O ar ficou pesado. Isa recuou na cadeira, desconfortável.

Helena abriu a boca para continuar — e foi exatamente nesse momento que a luz do refeitório piscou.

Não foi apagão. Foi um pulso único, breve, como uma pálpebra fechando e abrindo. O tipo de flutuação que os sistemas integrados ao ITT produziam quando recebiam um sinal externo não programado.

Um drone esférico de sensores azuis passando lentamente pela janela de cristal do refeitório, à altura exata da mesa das meninas

Pela janela de cristal à direita da mesa, um drone passou.

Lento. Silencioso. Em rota horizontal, a altura do segundo andar — exatamente a altura do refeitório. Não era um drone de entrega, nem um drone de limpeza. Era esférico, com dois sensores frontais que varriam o ambiente com luz azul discreta.

Clara viu primeiro.

— Helena... — disse, a voz saindo pequena.

Helena já havia se levantado. Estava de pé antes que qualquer uma percebesse o movimento, o corpo ligeiramente à frente das meninas, como instinto mais do que decisão. Seus olhos acompanharam o drone até ele desaparecer além do ângulo da janela.

O refeitório estava cheio de outros estudantes. Ninguém mais havia olhado para a janela.

Isa se inclinou sobre a mesa, voz baixíssima:

— Era de varredura?

Helena ficou em silêncio por um segundo longo demais.

Helena olhando rapidamente para o próprio bracelete antes de decidir levar as meninas embora do refeitório para terminar a conversa em segurança

— Sim — admitiu, a voz controlada mas sem a firmeza habitual. — E não deveria estar nesse corredor.

— Você disse que o ITT era seguro — disse Isa.

— É. Estava. — Helena olhou para o bracelete no pulso — rápido, quase involuntário. — Precisamos terminar essa conversa em outro lugar.

Bia notou o gesto. O mesmo do corredor, horas atrás. A mesma hesitação.

— Helena... — disse.

— Não agora — Helena a interrompeu, suave mas firme. Sorriu para as outras, o tipo de sorriso que serve para não assustar. — Vamos ao meu apartamento. Lá termino de explicar tudo e vocês terão privacidade para conversar.

Ela prosseguiu:

Helena explicando, enquanto recolhe a bandeja às pressas, que Bia é a Variável Primal capaz de ativar o código que desliga Eloah da Gestora

— Elias sabia dos riscos. Criou algo chamado Variável Humana Adequada: uma combinação das sinapses de quatro jovens. Vocês.

— A gente? — Clara levou a mão ao peito, mordendo o lábio.

— Sim. E dentro desse grupo, a Variável Primal é você, Bia.

— E o que isso significa? — Isa se inclinou para frente, franzindo a testa.

— Significa que vocês podem ativar o código capaz de desligar a filha do professor da Gestora.

— As chaves da memória! — concluiu Bia.

— Exatamente. — Helena já se levantava, recolhendo a bandeja com movimentos rápidos e precisos. — Mas essa parte da conversa fazemos saindo daqui. Agora.

As meninas entrando no apartamento protegido de Helena, com paredes como displays de cristal líquido e paisagens holográficas
// Apartamento de Helena

O prédio ficava próximo ao ITT, cercado por um jardim amplo. A porta dissolveu-se em partículas quando entraram, recompondo-se atrás delas. O espaço era amplo — paredes como displays de cristal líquido, paisagens holográficas em constante mudança.

— Aqui é aconchegante... — murmurou Bia.

— E é seguro. O Sistema não pode enxergar vocês aqui e, lá fora, os colares protegerão vocês — explicou Helena.

— E se a gente encontrar SENTINELAS? — perguntou Isa, desconfiada.

— Não é comum cruzar com eles. Eles sempre buscam alvos específicos — aparecem e desaparecem rapidamente, sem ficar circulando sem destino. Se isso acontecer, o risco existe: eles podem detectar o bloqueador dos uniformes.

— Existe outra forma de a gente ser detectada pelo Sistema? — perguntou Isa, olhando diretamente nos olhos de Helena.

— Só pelo escaneamento completo, à noite. Mas este apartamento tem proteção contra isso — Borracha Plúmbea Atóxica.

Helena sorrindo ao deixar as meninas sozinhas no apartamento para que organizem as ideias, saindo em direção ao jardim

Clara suspirou aliviada.

— Então podemos descansar.

Helena sorriu.

— Sim. Vou deixá-las conversando enquanto vou ao jardim. Assim vocês organizam as ideias.

Ela saiu. A porta se fechou com um sussurro.

As meninas ficaram sozinhas.

As quatro meninas debatendo sozinhas no apartamento se devem salvar ou sacrificar Eloah, Clara com os olhos marejados de pena

Sofia foi a primeira a argumentar:

— Salvar ou sacrificar. Isso é cruel demais.

— Seja como for, faremos o nosso melhor — disse Bia, firme.

Isa balançou a cabeça.

— A gente tá em 2157. Como Eloah ainda existe?

— Não é mais humana — respondeu Bia. — É parte da IA.

— Se ela existe, a gente deve salvá-la — completou Sofia. — Não destruí-la.

Clara, chorosa:

— Tenho pena dela...

Sofia observando discretamente a mão de Bia esfregando o antebraço em ciclos, hesitando em perguntar o que está acontecendo com a amiga

O debate continuou. Sofia falava. Isa rebatia. Clara ouvia com os olhos marejados.

Bia participava — respondia quando perguntavam, concordava quando fazia sentido. Mas Sofia, que a conhecia melhor do que qualquer uma, notou que a mão direita de Bia continuava o gesto que havia voltado com força no corredor depois do Espelho. Esfregando o antebraço. Cinco segundos. Pausa. Cinco segundos.

Sofia abriu a boca, hesitou, fechou. Não era o momento. Ou talvez fosse, e ela não soubesse como começar.

Voltou ao debate.

Clara confessando que só quer voltar pra casa, enquanto Isa e Bia discutem se o propósito da missão foi escolhido ou imposto a elas

— Eu só quero voltar pra casa... — murmurou Clara, num intervalo.

— A gente também quer — disse Sofia. — Mas agora temos um propósito.

— Um destino que não escolhemos — retrucou Isa.

— Ele nos escolheu — concluiu Bia. — Por isso vamos até o fim, juntas.

— Mas como vamos fazer isso? — insistiu Isa.

Sofia contando a história do engenheiro que construiu uma ponte a partir das duas margens ao mesmo tempo, sem que nenhuma tentasse ser o todo

Bia ficou olhando as mãos por um momento — a mesma mão que havia esfregado o antebraço seguidamente, sem que ela percebesse.

— Meu professor de física contou uma vez — disse Sofia — sobre uma ponte que desabou três vezes durante a construção. Na quarta tentativa, o engenheiro mudou a abordagem: em vez de construir de uma margem até a outra, começou das duas margens ao mesmo tempo, com equipes diferentes. Cada equipe avançava sem saber exatamente onde a outra estava. No meio do rio, os dois lados se encontraram e encaixaram perfeitamente.

— Por que funcionou dessa vez? — Clara perguntou.

— Porque nenhuma das duas metades tentou ser a ponte inteira.

As quatro se entreolharam.

A questão era que nenhuma delas conseguia sequer imaginar como — ou quando — encontrariam Eloah.

Havia uma segunda questão, menor, mas insistente, que Sofia guardou para si naquela noite: o que estava acontecendo com Bia desde que saíram do Espelho do Medo — e até quando ela ia fingir que estava tudo bem?