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Capítulo 06 · A Resistência Cap. 07 ▶▶
Helena explicando às meninas, no corredor do ITT, que o Sistema vigia cada palavra e gesto de todos
// Instituto Transdisciplinar de Tecnologias (ITT) · Corredor

Sofia lançou uma pergunta, que parecia estar fora de contexto:

— Tem um grupo por trás de tudo isso, não tem?

Mas a jovem respondeu pacientemente:

— Sim. Um grupo que luta contra o domínio do Sistema. — Helena respirou fundo. — O Sistema vigia tudo: cada palavra, cada gesto, cada intenção. Se eu falar demais, ponho todas nós em risco. Aqui, o controle é absoluto. O Sistema determina o que comer, o que vestir, onde trabalhar, como se divertir.

— E quem não se encaixa? — Clara perguntou, voz assustada.

— Desaparece. São considerados ‘inaptos’. Quem não se adapta é simplesmente removido da sociedade.

As palavras de Helena pareciam cortá-las ao meio. Cada revelação rasgava o véu que cobria a imagem daquela cidade próspera e desenvolvida. Helena montou um kit com os equipamentos, colocou em mochilas e entregou para elas. Vestidas com os colares e com os equipamentos guardados, voltaram ao corredor.

Will, ofegante e suado, correndo até Helena e pedindo que as meninas se escondam

Iam em direção a uma sala de aula quando, de repente, uma voz cortou o silêncio:

— Helena! Helena!

Um jovem ofegante correu até elas. Helena o reconheceu.

— Will!... O que você faz aqui?

— Se esconda! Os agentes estão vindo me buscar! — O suor escorria pelo rosto; ele o limpou com as costas da mão, inquieto. — Não deixa que vejam você!

— Então você é um ‘inapto’? — Helena perguntou, a voz embargada.

— Sempre fui... — Ele forçou um sorriso breve, trêmulo. — Tentei disfarçar, mas hoje o Sistema venceu.

— Will... ainda dá tempo de fugir!

— Não dá. Se eu fugir, só vou adiar o inevitável. — Ele se aproximou, baixando a voz. — Promete que vai continuar. Que não vai deixar que apaguem quem você é.

— Eu devia fazer algo... — murmurou ela, os olhos marejados.

— Já tá fazendo, resistindo. — Ele tocou a faixa no uniforme dela. — Isso ainda te protege... por enquanto!

Helena empurrando as meninas para um compartimento de paredes transparentes que ficam opacas, escondendo-as dos Sentinelas
// ITT · Compartimento Oculto

Um eco metálico soou do fim do corredor — passos pesados. Will baixou o olhar e, antes de se voltar para o destino inescapável, disse:

— Eles não podem prender todos nós pra sempre. Um dia as ‘eleitas’ vão chegar pra nos libertar!

Helena quis responder, mas as palavras se perderam no silêncio que precedeu a chegada dos SENTINELAS. Will deu um último olhar demorado e seguiu, sem virar o rosto.

— Meninas, entrem rápido! — Helena ordenou, abrindo uma porta lateral quase escondida.

Entraram apressadas num pequeno compartimento de paredes transparentes, que imediatamente ficaram opacas. Logo ouviram passos pesados ecoando no corredor.

— Shhh... Não podemos ser vistas! — pediu Helena.

Bia apertou o colar contra o peito como se fosse um escudo. O medo que invadiu aquele espaço era absoluto, quase palpável.

A comandante dos Sentinelas, alta e de uniforme impecável, parando diante do vidro opaco, como se soubesse quem se escondia ali

Os SENTINELAS passaram. Do grupo, uma figura se destacava: alta, uniforme impecável, movimentos precisos como os de quem nunca desperdiça um gesto. Estava no comando. Enquanto os outros avançavam pelo corredor, ela parou por um instante — apenas um instante — e virou lentamente o rosto para o compartimento onde as meninas se escondiam.

Bia prendeu a respiração.

O visor ocultava os olhos, mas havia algo na inclinação da cabeça, na forma como o corpo inteiro se deteve, que transmitia não busca, mas reconhecimento. Como se aquela figura soubesse exatamente o que havia do outro lado do vidro opaco — e escolhesse, deliberadamente, não agir.

Então ela seguiu. Passos firmes. Sem olhar para trás.

Uma voz grave e robótica anunciando do lado de fora o mandado de recolhimento de William Augusto Magalhães

Pouco depois, uma voz grave ecoou do lado de fora:

— William Augusto Magalhães. MANDATO DE RECOLHIMENTO. ARTIGO 2, PARÁGRAFO 1, SUBSEÇÃO A. Insistência em formas de aprendizado não autorizadas. Ineficiência sistêmica constatada. CORREÇÃO IMPOSTA POR ORDEM DA GESTORA.

As palavras frias e burocráticas pairaram no ar, mais assustadoras que qualquer ameaça explícita. Dentro do compartimento, o ar parecia pesado, tenso.

Helena abrindo devagar a porta do compartimento, o rosto pálido, enquanto as meninas lamentam a prisão de Will
// ITT · Corredor

Minutos depois, Helena, com a voz baixa e o semblante marcado pela angústia, quebrou o silêncio:

— Eles já foram. Podemos sair.

Abriu a porta devagar. O rosto pálido refletia a dureza do que acabara de ouvir.

— Pobre garoto... — Bia sussurrou, triste.

— Ele foi levado! — Sofia completou, a respiração presa.

— Pra onde? — perguntou Isa, inquieta.

Helena nada falou.

As quatro meninas sentadas em silêncio em bancos frios de um pequeno hall vazio do ITT, tentando se recompor
// ITT · Hall de Descanso

Elas caminharam. O corredor estava vazio. Helena parecia flutuar, enquanto o eco dos passos das quatro meninas se perdia nas paredes de cristal. Ninguém falava. O único som era o dos sapatos delas, que de repente pareciam pesar mais.

Isa apertou o braço de Clara com força excessiva, mas Clara não reclamou. Bia olhava para o chão como se o chão tivesse levado Will. Sofia esperava que alguém dissesse alguma coisa. Helena continuou andando, sem olhar para trás.

Chegaram a um pequeno hall vazio. Bancos de material frio alinhavam-se contra a parede. Sem combinar, sentaram-se.

Clara pressionou a testa contra a superfície translúcida da parede. A umidade da respiração formou um círculo embaçado. Ela ficou olhando para ele, sem ver nada.

Isa esfregou as mãos nos joelhos. Bia tocou o próprio antebraço com os dedos — uma vez, duas, três — um gesto pequeno, quase invisível.

Sofia fechou os olhos e baixou a cabeça.

Helena ainda estava de pé.

Ninguém perguntou para onde iam. Ninguém disse que estava com medo. O corredor seguia vazio diante delas, enquanto claramente se ouvia o som de suas respirações tentando se reorganizar. O silêncio foi aos poucos se dissipando.

O rosto sereno da Gestora projetado na parede do hall, falando à cidade, enquanto as meninas e Helena permanecem imóveis

Um som suave, de três notas, percorreu o hall.

A parede diante delas perdeu a transparência e se acendeu. Um rosto de mulher surgiu na superfície — sereno, de traços delicados, os cabelos escuros presos com elegância. Não sorria exatamente. Parecia apenas feliz em vê-las.

— Boa tarde, Ibaru.

A voz era baixa e morna, como a de alguém que fala perto do ouvido.

— Hoje, nenhum cidadão desta cidade passou fome. Nenhum adoeceu sem cuidado. Nenhuma criança ficou sem escola. Há muitos anos é assim. O dia de amanhã já está programado. As cores do céu das 18h já foram escolhidas. — Uma pausa breve, medida. — Também hoje, uma pequena ineficiência foi corrigida no Setor Educacional. Não se preocupem com ela. O problema já foi ‘realocado’. Eu me preocupo por vocês.

Em algum lugar do prédio, outras paredes repetiam a mesma voz, um instante atrasadas, como um eco que não queria acabar.

— Vocês não precisam escolher o que comer, o que estudar, o que temer. Escolher cansa. Escolher erra. Deixem isso comigo.

O rosto inclinou-se levemente, com ternura. Por um instante — tão breve que Bia achou ter imaginado — algo humano passou pelos olhos dela. Depois, desapareceu.

— Durmam tranquilos. Eu vigio.

As três notas soaram outra vez, e a parede voltou a ser transparente.

Em toda Ibaru, ninguém esboçou reação. As pessoas continuaram andando, comendo, sorrindo, estudando — como se a voz fizesse parte do ar. Como se fosse normal.

Só naquele hall, cinco pessoas continuavam imóveis.

Clara não tinha tirado a testa do vidro. Sofia abriu os olhos devagar.

— Ela falou do Will — sussurrou. — Como se fosse uma goteira consertada.

Isa encarando Helena e exigindo saber para onde Will foi levado, enquanto Helena olha fixamente para o fim do corredor

Depois de um longo momento, Isa ergueu o rosto. A voz saiu rouca, cortando o ar como uma lâmina enferrujada.

— Por que você não diz para onde ele foi levado? Você não sabe?

Helena continuou olhando para o fim do corredor onde Will havia desaparecido. Seus olhos ainda estavam marejados.

— Will tinha mania de desenhar — disse, a voz distante. — Uma vez desenhou um mapa de Ibaru com todas as rotas de fuga que imaginava. Ninguém levou a sério. E eu, na época, não suspeitei de nada. Agora que ele se foi, aquele desenho faz sentido para mim.

— O que ele fez de errado, para ser levado? — perguntou Clara, ainda com a testa na parede.

— Will não fez nada de errado. Ele só não era igual à maioria das pessoas. Sua forma de pensar não era como o Sistema quer que seja. — Helena fez uma pausa.

— Então, pra onde ele foi? — perguntou Isa, novamente.

— Ele foi levado para onde todos os ‘inaptos’ vão. Para o lugar de onde nunca se volta.

Isa tremendo de indignação ao descobrir que pensar diferente é considerado um risco mortal no Sistema

Isa explodiu em indignação. O corpo tremia, as mãos cerradas.

— Isso é um absurdo! Só por pensar diferente?

Helena a encarou com um olhar firme e pesaroso.

— Sim. Aqui, pensar por si mesmo é um risco mortal.

Clara segurou com força o braço de Helena, como se buscasse proteção.

— Então a gente tá em risco!

Helena tocando a própria faixa azul no braço ao confessar às meninas que ela também é uma 'inapta' perseguida pelos Sentinelas

Helena respirou fundo e confessou:

— Eu também sou uma ‘inapta’.

Olhando diretamente para Clara, tocou com força a própria faixa azul no braço — gesto carregado de significado.

— Vocês estão protegidas. Esta faixa me protege, assim como o colar protege vocês.

— Você é como aquele garoto, ‘inapta’? — Bia perguntou, surpresa.

— Sou — ela respondeu, com um suspiro profundo. — Se eu cruzar com os SENTINELAS, eles podem detectar meu bloqueador. A ameaça de captura está sempre presente.

O medo cresceu no olhar de Clara.

— Quem são os SENTINELAS?

— São os agentes implacáveis do Sistema. Caçam e capturam dissidentes.

Helena contando a fábula da cidade que proibiu o fogo e ficou seca e sem calor, comparando Will a uma chama rara

Isa lembrou da fala de Will:

— O que ele quis dizer com “as ‘eleitas’ vão nos salvar”?

— Está chegando o dia em que todos os perseguidos serão libertados, e toda opressão será exterminada — disse Helena.

Em seguida ela olhou para o fim do corredor onde Will havia desaparecido.

— Amy dizia que uma cidade que apaga todo fogo por medo de se queimar acaba morrendo de frio.

Fez uma pausa.

— Will era fogo. Agora existem poucos como ele. E esse número diminui, cada dia mais. O Sistema tem muito medo do fogo.

Helena colocando as mãos nos ombros de Isa, admitindo que não sabe o destino das meninas caso sejam capturadas

— E se formos pegas, como o Will foi, o que vai acontecer com a gente? — disparou Isa.

Helena tentou suavizar, colocando as mãos sobre os ombros da menina.

— Confesso que não sei ao certo o que aconteceria com vocês se fossem capturadas. Quanto a mim, se eu for pega, meu destino será o Subnível. Vocês sabem que estão protegidas, não é?

Ninguém respondeu.

Olhou para cada uma com calma forçada.

— Vamos continuar. As aulas nos esperam.

Bia caminhando pensativa, intrigada com a lembrança do Sentinela que as viu e escolheu não agir

Bia a acompanhava, mas algo além da captura de Will a intrigava. A imagem daquela figura parada diante do vidro opaco. A inclinação da cabeça. A escolha de não agir.

Ninguém havia perguntado. Ela tampouco comentou. Mas a certeza se instalou devagar, como pressão antes de uma tempestade: aquele SENTINELA as havia visto. E havia deixado passarem.

Por quê?

A pergunta seguiu com ela pelo resto do dia, silenciosa e sem resposta — mais perturbadora, de certo modo, do que qualquer ameaça aberta.

Helena parando no corredor para examinar disfarçadamente o próprio bracelete, notando uma frequência de vibração estranha
// ITT · Corredor

Mais à frente, ergueu a mão, pedindo que esperassem.

— Um momento — disse, adiantando os passos. — Preciso verificar a rota das próximas salas. Não demoro.

Disfarçou, como quem consulta o Hollo-Lens. Mas não era o Hollo-Lens que ela olhava.

Era o bracelete.

Girou-o devagar no pulso — um gesto que fazia várias vezes por dia, quase sem perceber, tão automático quanto respirar. Desta vez, parou no meio do movimento. Havia algo no padrão de vibração, uma frequência quase imperceptível, que ela nunca havia notado antes. Ou talvez sempre tivesse notado e nunca tivesse se feito a pergunta certa.

O código é meu. Só eu e Amy deveríamos tê-lo.

Deixou o bracelete quieto no pulso. Respirou. Guardou o pensamento no mesmo lugar onde se guardam as coisas pesadas demais para serem carregadas à luz do dia.

— Pronto — disse, virando-se com um sorriso controlado. — Podemos continuar.

As meninas a seguiram. Nenhuma havia notado a pausa.

Nexxus caminhando alguns passos atrás do grupo pelo longo corredor de vidro e cristal translúcido do ITT, atento a tudo

Nexxus, alguns passos atrás, havia notado tudo.

O corredor pareceu se fechar ao redor delas. O som de vozes distantes ainda ecoava no ar.

— Precisamos continuar — declarou Helena, com determinação renovada. — Nosso caminho é cheio de obstáculos, mas a resistência começa aqui.

Sofia olhou para o grupo, uma chama de esperança surgindo no olhar:

— Então somos todas agentes de um movimento de revolução...

Um suspiro coletivo preencheu o espaço — misto de medo e coragem. A viagem rumo ao desconhecido continuava, mas agora carregava um propósito cristalino: lutar contra um Sistema opressor.

Helena adiantou os passos e pediu que a seguissem de perto.

Diante delas, estendia-se o longo corredor de vidro e cristal translúcido do ITT, onde o silêncio era tão intenso que quase podia ser sentido como uma presença. O ar trazia um frescor sutil, quase físico. As divisórias translúcidas pareciam água congelada, fluindo em ondas suaves conforme vozes e passos se espalhavam.

Clara e Isa discutindo se devem aceitar o destino de 'eleitas', enquanto Bia tenta apaziguar o grupo

Clara, olhando para Helena, falou:

— Ainda não sei por que somos as ‘eleitas’, mas me sinto pronta pro destino que tá se revelando pra nós.

Isa, com a cara fechada, cruzou os braços e lançou um olhar incisivo para Clara:

— Você acha que a gente tem que aceitar tudo isso só porque somos ‘eleitas’?

Clara revirou os olhos, mordendo o lábio inferior.

— Não é questão de aceitar. É que não temos escolha! Quer você queira ou não, já estamos dentro.

Bia tentou intervir, em tom tranquilo:

— Vamos tentar entender o quadro todo antes de fazer julgamentos. Não adianta discutir enquanto a gente não souber tudo.

Sofia suspirou, um sorriso cansado surgindo:

— Já começaram as brigas... Parece que essa aventura vai testar muito mais que a nossa coragem.

Helena conduzindo as meninas adiante pelo corredor do ITT, prometendo levá-las a um lugar onde a Gestora não possa encontrá-las

Helena observava e deixava o grupo extravasar as tensões, mas logo direcionou:

— Toda essa pressão, essa angústia, tudo faz parte do processo. Por ora, só peço que confiem em mim. Precisamos de um lugar onde a Gestora não possa nos encontrar. Vou levar vocês até lá.

Os ânimos se acalmaram e seguiram.

Enquanto caminhavam, múltiplas salas surgiam através do vidro.

// Em Produção

O próximo capítulo ainda não foi publicado.

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