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Capítulo 05 · O Instituto Cap. 06 ▶▶
Nexxus conduzindo as meninas por um corredor lateral até uma lanchonete futurista dentro da biblioteca
// Biblioteca · Ala da Lanchonete

Sofia ajeitou os óculos, confusa.

— Hoje? Parece que faz dias!

Nexxus, que até então observava em silêncio, inclinou a cabeça com aquele ar felino de quem guarda segredos — e soluções.

— A biblioteca é grande demais para abrigar apenas livros. Venham.

Virou-se e caminhou na direção oposta à que haviam seguido com Hannes. As meninas trocaram olhares hesitantes, mas a fome falou mais alto — e o seguiram.

Atravessaram um corredor lateral que não haviam notado antes. As estantes deram lugar a nichos iluminados, poltronas que se moldavam ao corpo e, finalmente, a um ambiente completamente diferente: uma versão compacta da lanchonete futurista, com paredes interativas, mesas que ajustavam a altura sozinhas e hologramas de comida flutuando no ar.

— Uma lanchonete! — Isa se surpreendeu. — Aqui dentro?

— A biblioteca também precisa alimentar o corpo — respondeu Nexxus, com um tom que soava quase como orgulho felino. — Nem só de cultura viverá o leitor, mas de toda energia que sustenta o cérebro.

Nexxus ativando a interface de pagamento com a pata sobre a mesa

— Como a gente paga? — Bia perguntou, prática como sempre.

Nexxus saltou para uma mesa e ativou a interface com a pata.

— A Resistência tem créditos. Considerem isso… um investimento.

— Investimento? — Isa franziu a testa.

— Em energia humana. Vocês vão precisar.

Clara tocando um holograma de bebida e recebendo um copo com líquido azulado brilhante

As meninas se entreolharam e, sem combinar, avançaram para as telas interativas. Clara foi a primeira: tocou num holograma que dizia “Clássico Refrescante”. Instantaneamente, um copo de material transparente se materializou diante dela, cheio de um líquido azulado que brilhava suavemente.

— É seguro beber isso? — perguntou, cheirando desconfiada.

Nexxus apenas a observou com seus olhos azuis, imóvel.

Clara deu um gole. Os olhos se arregalaram.

— Gente… isso tem gosto de guaraná natural. Daquele que meu pai comprava no mercadinho perto de casa.

Sofia mordendo um doce em forma de nuvem luminosa

Sofia escolheu um doce que parecia uma nuvem luminosa. Ao morder, fechou os olhos.

— É como… balas de goma. Como as da cantina da escola.

Isa mastigando um salgado com aroma de churrasco, cética

Isa, sempre cética, pegou um salgado que exalava aroma de churrasco. Mastigou devagar, processando.

— Tem gosto de carne na brasa. Mas é leve. Como se não fosse pecado comer.

Bia emocionada ao provar um bolo de laranja com canela que lembra a avó

Bia foi a última. Escolheu algo simples: cheirava como um bolo de laranja com canela, desses que aquecem a alma. Quando mordeu, sentiu os olhos marejarem sem aviso.

— Quentinho — murmurou. — Igual ao que minha avó fazia.

Nexxus observando as quatro meninas comerem, com um brilho de satisfação nos olhos

Nexxus observava tudo com um brilho diferente nos olhos — não era apenas processamento de dados. Era satisfação.

— A comida é memória — disse, em voz baixa. — E vocês precisam de ambas.

Nexxus contando a história do rei, do filho e do copo cheio até a borda

Clara, enxugando a boca com as costas da mão, olhou para o gato com curiosidade.

— Você sabe histórias?

Nexxus inclinou a cabeça, como se avaliasse se a pergunta merecia resposta.

— Histórias, não. Guardo conclusões. — Uma pausa. — Um copo cheio até a borda não recebe mais água. Antes de aprender o que vem a seguir, é preciso beber o que já se sabe.

Bia conectando a fábula do copo cheio ao modo como Hannes revela a verdade aos poucos

— Isso é o que Hannes fez com a gente — Bia disse devagar. — Não nos contou tudo de uma vez.

— Hannes protege o cristal — confirmou Nexxus, com simplicidade. — Eu registro o padrão e vocês precisam beber o conhecimento lentamente.

As meninas se entreolharam, sem saber se tinham realmente entendido o que o gato quis dizer. Mas ainda tinham curiosidades sobre o gato falante.

Clara rindo com a boca cheia, dizendo que está começando a gostar de Nexxus

Sofia, ainda saboreando a nuvem luminosa, perguntou:

— Você come?

— Eu recarrego. E isso não é muito diferente de comer.

Clara riu com a boca cheia.

— Tô começando a gostar de você, robô.

— A recíproca é verdadeira, Clara.

Por alguns minutos, naquela lanchonete dentro de uma biblioteca que guardava a memória do mundo, elas foram apenas quatro amigas compartilhando uma refeição. O peso da missão ainda estava lá, mas agora cabia mais fácil sobre os ombros.

Nexxus conduzindo as meninas de volta ao corredor principal em silêncio reflexivo

Quando terminaram, Nexxus se levantou.

— Alguém as espera. Ela está chegando.

As meninas trocaram olhares. Um novo personagem. Um novo capítulo.

Nexxus as conduziu de volta ao corredor principal com passos mais lentos, como se respeitasse o tempo que precisavam para processar tudo. Caminharam em silêncio — não o vazio opressor de antes, mas uma pausa necessária, um respiro entre revelações.

O gato, sem olhar para trás, avisou:

— Chegamos.

Nexxus parado diante de uma escada em espiral de cristal, à espera de alguém que se aproxima

Correu até um canto da biblioteca e parou perto de uma escada em espiral que parecia descer do céu. Sentou-se com elegância felina, o rabo enrolando-se em torno das patas. Os olhos azuis brilhavam com intensidade, fixos nos degraus de cristal.

Um leve perfume descia do andar superior, envolvendo as curvas suaves da escada. Um zumbido suave preenchia o ar, gerando expectativa.

— Ela está chegando — murmurou Nexxus.

Bia sentiu a ansiedade molhar a ponta dos dedos. Clara apertou o próprio braço. Isa estava imóvel, tentando esconder o tremor nas mãos. Sofia ajeitou os óculos, olhos arregalados.

Passos ecoaram no topo — firmes, decididos. Não era o som metálico de androides, nem o flutuar silencioso das NEUROTÁQUIONS: eram os passos de uma pessoa.

Helena descendo a escada de cristal, jovem, humana, de cabelos castanho-avermelhados e olhos verdes

O gato ergueu o focinho, como se avistasse algo invisível. Clara apertou a mão de Isa.

Então viram um vulto aparecer.

Descendo lentamente os degraus, surgiu uma figura. Uma jovem. Real. Humana. Não era uma projeção. Tinha cabelos longos, ondulados, castanhos avermelhados — os fios refletiam a luz em tons quentes. Seus olhos eram verdes, quase transparentes, e transmitiam calma e urgência, juventude e sabedoria, medo e esperança — tudo em um só olhar.

Usava um uniforme personalizado, com patches bordados e uma faixa azul no braço — detalhes que revelavam individualidade num mundo de conformidade. Sua postura era natural, como a de quem conhece o lugar de cor, como se esperasse por elas há mais tempo do que poderia imaginar.

Parou diante do grupo, passando os olhos rapidamente por cada rosto, como se as conhecesse de longa data.

— Olá, Bia, Clara, Isa, Sofia. Não temos muito tempo — falou com voz firme e acolhedora. — É necessário que me sigam.

Helena se apresentando, prestes a conduzir as meninas ao próximo destino

O sotaque era sutil, revelando influência estrangeira — uma leve variação na pronúncia do “r”, herança da mãe. As meninas se lembraram das palavras de Hannes: “Alguém já espera para guiá-las ao próximo passo.” E agora estavam diante daquela jovem. Instintivamente, sentiram que ela poderia ter as respostas que buscavam.

— Meu nome é Helena — continuou, com um leve sorriso. — Vou conduzi-las ao próximo destino. A próxima etapa já começou.

Virou-se, pronta para caminhar, e acrescentou:

— Sei que estão assustadas. Sei que nada disso faz sentido ainda. Mas garanto: cada passo as aproxima das respostas e das escolhas que terão que fazer.

Não havia mais volta. Não agora.

As meninas caminhando com Helena entre colunas cristalinas e livros flutuantes

Percorreram os corredores da biblioteca entre colunas cristalinas e livros flutuantes que pareciam sussurrar segredos diretamente em suas mentes. Helena liderava com andar decidido, mantendo sempre três passos de distância.

— Você é uma pessoa? — Clara perguntou de repente, curiosidade misturada à descrença. — De carne e osso? Real?

Helena olhou para trás, sorriso genuíno, rosto iluminado.

— Sim. Cem por cento humana. Pode ter certeza.

Bia quis saber, tom firme:

— Pra onde tá nos levando?

— Temos um roteiro a seguir — respondeu Helena, olhos brilhando com determinação suave — até que estejam prontas.

Isa explodindo de frustração, exigindo a verdade completa, e Helena revelando vulnerabilidade

Isa explodiu:

— Prontas pra quê? Quando vão nos contar a história completa? Tamos cansadas de migalhas! Queremos a verdade inteira!

Helena se virou. Pela primeira vez, o olhar dela revelou vulnerabilidade.

— Entendo sua frustração. Se pudesse, contaria tudo agora. Mas, como Hannes disse, as revelações precisam ser graduais.

Olhando com ternura, continuou:

— Isso não é por crueldade, mas por necessidade. Vocês viram o que aconteceu nas sessões dos capacetes, quando suas mentes foram levadas ao limite. — Respirou fundo. — A verdade é transformadora. Muda quem você é. Se não estiverem preparadas, podem se quebrar. Eu não posso deixar isso acontecer.

Sofia percebendo que Helena fala por experiência própria, num silêncio pesado

Sofia ajeitou os óculos, olhos fixos em Helena.

— Você fala como se soubesse disso por experiência própria.

Helena manteve o olhar firme.

— Sei, Sofia. Sei exatamente o que significa descobrir tudo de repente.

As palavras pareciam flechas diretas ao alvo. O silêncio se estendeu, pesado e cheio de expectativa.

O arco luminoso do portal se materializando com o letreiro Instituto Transdisciplinar de Tecnologias

Por fim, Helena se virou novamente.

— Venham. Há um lugar esperando por vocês.

Conduziu-as até uma parede que parecia sólida. Quando Helena tocou a superfície, um grande arco luminoso se materializou, pulsando com energia suave e convidativa. Sobre o arco, em letras néon flutuantes:

INSTITUTO TRANSDISCIPLINAR DE TECNOLOGIAS (ITT)

Bia olhou para o portal, sentindo a vibração no ar. A voz saiu baixa, carregada de dúvida e resignação:

— Não temos escolha, né?

Helena respondendo sobre escolha e destino diante do portal luminoso

Helena devolveu um olhar compreensivo.

— Sempre haverá escolhas. Vocês podem recusar. Podem pedir pra voltar pra casa. Mas...

— Mas? — Sofia pressionou, olhos brilhando.

— Às vezes, o destino faz as escolhas por nós. Vocês viram aquela menina pedindo socorro. Sentem o peso disso.

As palavras de Helena não eram apenas discurso. Eram um pacto, uma promessa e um pedido silencioso. Um fio dourado de energia parecia conectar as quatro, fazendo-as sentir parte de algo maior.

As meninas atravessando o portal e chegando a um corredor luminoso em forma de colmeia, com cápsulas flutuantes

Elas seguiram Helena através do portal. A passagem foi menos violenta que a do SDR — como deslizar por uma cortina de água morna. O novo ambiente as envolveu.

O corredor luminoso refletia luz, calor e o som dos seus passos. Salas suspensas, cápsulas flutuantes, interligadas como células nervosas de um cérebro gigante. O silêncio absoluto engolia até o menor som.

— Onde estamos? Isso não parece feito pra pessoas. Parece uma colmeia — murmurou Clara, observando o longo corredor de vidro translúcido.

— Consigo ouvir meu coração batendo — murmurou Sofia, olhos arregalados.

Isa passou a mão pela parede fria de cristal, arrepiando-se.

— Parece um laboratório... um centro de estudos de cobaias.

— Acho que é um campus tecnológico ultramoderno, daqueles que a gente vê na internet — arriscou Bia, tentando decifrar.

Helena revelando que estuda Engenharia Quântica no Instituto Transdisciplinar de Tecnologias

Helena se virou, sorriso tênue iluminando o rosto.

— Este é o Instituto Transdisciplinar de Tecnologias. Eu estudo aqui. Sejam bem-vindas.

— Estuda? — Isa franziu a testa. — Mas isso nem parece uma escola!

— É sim — respondeu Helena com confiança. — Estudo Engenharia Quântica aqui.

Clara girando encantada, exclamando que sempre quis estudar num lugar assim

Os olhos de Clara brilharam. Ela girou nos próprios pés, tentando abarcar tudo de uma vez — as cápsulas flutuantes, os corredores de luz, as salas que pulsavam conhecimento.

— Isso é maravilhoso! — A voz saiu alta, transbordando, esquecida de qualquer cautela. — Uma escola de verdade pra aprender essas coisas? Eu queria estudar num lugar assim a vida inteira!

As palavras ecoaram pelo corredor de cristal com uma intensidade que destoava de tudo ao redor — o calor de uma emoção genuína num lugar onde ninguém sentia em voz alta.

Um pulso sonoro invisível reagindo à emoção de Clara, sem que ninguém percebesse

Helena abriu um sorriso, mas algo nele vacilou.

Longe dali, num ponto que nenhuma delas podia ver, a quietude perfeita registrou a perturbação. Não uma identidade. Não um rosto. Apenas uma impossibilidade: emoção crua, intensa, com uma assinatura que não deveria estar ali. Um som agudo pulsou no ar e parou. Ninguém reparou.

Helena conduzindo as meninas a uma sala lateral, prometendo garantir que estejam seguras

Caminhou até uma sala lateral e advertiu:

— Agora preciso garantir que estejam seguras. Entrem.

Bia não conteve a preocupação.

— Seguras? Estamos em perigo?

— Agora que estão comigo, não mais — Helena afirmou.

Helena entregando colares com pedra de ametista para ocultar as meninas do rastreamento do Sistema

Na sala, tocou a parede de vidro, que ficou opaca, bloqueando a visão externa. Abriu um armário embutido e entregou a cada uma um colar em forma de medalha com uma pedra que parecia ametista.

— Usem isto. Esses colares vão ocultá-las do Sistema.

— Ocultar do quê exatamente?! — Clara exclamou, assustada.

— Do rastreamento do Sistema — respondeu Helena. — Cada colar tem microdispositivos que bloqueiam o rastreamento neural e visual. Enquanto usarem, estarão protegidas.

Bia segurou o colar, olhar questionador.

— De qual sistema você tá falando?

— O que controla tudo. O que tá acima de Hannes e das outras NEUROTÁQUIONS. Usem o colar, depois explico melhor.

Helena mostrando o Hollo-Lens, o sensor de pulso, as luvas hápticas e os anéis OrbCell

Vestiram os colares em silêncio, sentindo o leve zumbido das pedras ativando os dispositivos. Sofia notou as mochilas no armário. Percebendo a curiosidade dela, Helena se antecipou e mostrou o conteúdo: o Hollo-Lens, o sensor digital de pulso, as luvas hápticas e, por fim, os anéis OrbCell. Explicou cada um com precisão, os olhos sempre atentos à reação das meninas.

Close-up do anel OrbCell na palma de Helena, projetando uma tela holográfica azul-glacial

À primeira vista, o anel na palma de Helena parecia uma aliança simples e impecável, forjada em uma platina tão pura que parecia emitir uma luz própria, fria como o luar. O metal branco tinha um polimento espelhado, desprovido de qualquer botão, tela ou ornamento visível. No entanto, bastava apenas girar suavemente o aro externo em torno do dedo. Esse movimento milimétrico alinhava seus nanocircuitos e permitia que o calor biométrico da pele ativasse o equipamento. Em resposta, linhas finas de uma luz azul-glacial começavam a pulsar pelo metal e, em um piscar de olhos, feixes de fótons projetavam-se no ar, desdobrando uma tela holográfica tridimensional — um terminal fluido que unia a elegância de uma joia clássica à potência de um celular futurista.

— Tudo isso pra quê? — Isa perguntou, desconfiada, cruzando os braços.

— Vocês são aquelas que esperávamos. São as ‘eleitas’. Um percurso foi preparado, e minha função é apresentar as tecnologias disponíveis, depois as aulas e a cidade. Mas isso só será seguro se permanecerem indetectáveis — explicou Helena.

As meninas se entreolharam. Cada resposta de Helena abria três novas perguntas.