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Capítulo 04 · A Escolha Cap. 05 ▶▶
Bia sentindo que os exercícios ficaram invasivos, como dedos invisíveis na mente

Envolvidas com os treinamentos, horas pareciam minutos. Minutos, segundos. O tempo ali não era o mesmo — dobrava-se como nas equações de Einstein. Outras simulações se iniciaram, ensinando-as a despertar a mente adormecida.

Mesmo com todo o aprendizado, algo parecia errado. Bia foi a primeira a sentir. Os exercícios ficavam mais velozes, mas também mais invasivos — como dedos invisíveis folheando páginas da própria consciência.

— Por que sinto isso? — perguntou, o coração disparado.

Visão do laboratório estéril com adolescentes conectados a capacetes e um homem de jaleco observando gráficos cerebrais

A resposta veio em imagens. O mundo de cada uma se dissolveu. Todas estavam agora na mesma sala escura. Trechos de imagens piscavam como fragmentos de filme. Memórias. Mas não delas.

Um laboratório estéril. Adolescentes com capacetes rudimentares, fios grossos conectados às cabeças. Um homem de jaleco observava gráficos cerebrais em múltiplas telas — o rosto parcialmente obscurecido, mas familiar no jeito de mover as mãos. Uma tela mostrava ondas cerebrais em padrões complexos. Linhas de texto surgiram:

Compatibilidade neural — 97%

Variabilidade emocional — adequada

Potencial de integração — alto

Era como se alguém estivesse mapeando não apenas cérebros, mas a essência de quem aquelas meninas eram. A voz de Hannes ecoou simultaneamente nas mentes delas, sem corpo visível, como ondas:

— Vocês reconhecem esse homem?

O rosto do professor Elias se tornando nítido no perfil holográfico

Sofia forçou o olhar. O perfil revelava mandíbula forte, barba bem cuidada. A imagem foi se tornando nítida aos poucos.

— Parece… não, não pode ser — titubeou Sofia.

— É o professor Elias — Bia falou, a certeza cortando o ar.

O choque percorreu seus corpos.

— O que ele tá fazendo? Parece que tá coletando nossos dados — Isa disse, quase em pânico.

— Quando isso aconteceu? Ou vai acontecer? — Sofia quis saber.

— Foi no tempo de vocês — respondeu a voz de Hannes. — São padrões de frequências neurais. A essência do que faz vocês únicas.

A tela com os quatro perfis neurais coloridos e o quinto perfil central, E.V. Subject Alpha, conectados por linhas de energia

A tela mostrou quatro perfis neurais, coloridos e complexos: azul, vermelho, verde e dourado. Embaixo, seus nomes: Bia, Isa, Clara e Sofia. Mas havia um quinto perfil — maior e mais complexo:

E.V. — SUBJECT ALPHA

Linhas de energia conectavam os cinco, pulsando como veias vivas. Uma linha mais espessa ligava Bia ao perfil central:

VARIÁVEL PRIMAL — COMPATIBILIDADE: 99,8%

O painel destacava dados sobre os experimentos realizados com os adolescentes. Uma equação se destacava:

B + I + C + S = E.V. (SA)

Clara observava a tela, voz trêmula:

— Por que nossos nomes estão ali?

— Vocês foram selecionadas — Hannes respondeu.

Bia sentiu um nó pesado no estômago.

— Escolhidas pra quê?

— Pela compatibilidade de suas sinapses, vocês poderão completar o que está incompleto e carregar o código que pode mudar o que foi feito.

A adolescente pálida conectada a fios e capacete pulsante, pedindo ajuda em silêncio

O mundo mental estremeceu. A imagem mudou.

Uma adolescente surgiu. Treze, quatorze anos. Cabelos escuros sobre travesseiro branco. Pele pálida, quase translúcida. Conectada a fios que subiam pelos braços e desapareciam em um capacete pulsante. Os olhos da menina se abriram em uma fresta.

— Quem é ela? — Bia perguntou.

— Ela é E.V. — Subject Alpha. A fonte. A primeira prisioneira do Sistema.

Clara leu seus lábios:

— Ajudem-me.

Os olhos se fecharam e a imagem se dissolveu lentamente em partículas de luz, como cinzas ao vento.

— Vocês precisarão escolher o destino dela — revelou a voz de Hannes.

Clara chorava. Isa respirava em soluços. Sofia se agarrava à cadeira. Bia mantinha os olhos fixos no nada, o rosto da menina gravado na mente.

As revelações pressionavam suas mentes a ponto de as deixar fragilizadas. A imagem daquela jovem — quase uma criança, debilitada, clamando por ajuda — era um retrato de fragilidade que nenhuma palavra poderia descrever.

As meninas trêmulas de volta na biblioteca, com Hannes flutuando diante delas carregada de pesar

— Hannes! — Clara gritou. — Nos tire daqui!

Hannes materializou-se.

— Sinto muito que tenha sido assim. Vocês já viram o suficiente.

O mundo virtual se desfez. De volta à biblioteca, as meninas tremiam. O suor colava as roupas. Clara limpava o rosto. Isa cerrava os punhos. Sofia respirava de forma irregular.

Bia permanecia imóvel, lembrando os olhos da adolescente. Hannes flutuava diante delas, carregada de pesar:

— Vocês são a nossa esperança. Peças-chave de uma complexa equação. O nosso futuro depende de vocês.

Bia questionando Hannes sobre a ligação com E.V.

— E.V.… — Bia murmurou. — É com ela que a nossa missão tá relacionada?

Hannes assentiu.

— Por que ela tá assim? — Sofia perguntou, inquieta.

— Foi por amor. O pai tentou salvá-la. Ao fazê-lo, a perdeu. E, ao perdê-la, tudo mudou.

Isa de pé, tensa e indignada, acusando Hannes de manipulação

O ambiente da biblioteca, antes acolhedor, tornava-se sufocante. Uma mistura de raiva e indignação tomou conta de Isa.

— Vocês tão manipulando a gente! — acusou, levantando-se de súbito, corpo tenso, olhar faiscante. — Nos arrastaram pra cá, usaram a gente, colocaram coisas em nossas cabeças sem pedir permissão!

— Não — Hannes corrigiu, voz firme, descendo como onda calma. — Estamos agindo com cautela. O propósito da missão de vocês precisa ser revelado gradualmente. Se mostrasse tudo de uma vez — se soubessem o peso total do que carregam — suas mentes poderiam colapsar.

Sofia se levantou, tirando os óculos para limpá-los, respirando fundo.

— Colapsar? Tipo… ser destruída? Permanentemente?

— Exatamente — Hannes afirmou. — Por isso seguimos o plano. Cada revelação no momento certo. Cada verdade quando estiverem prontas para suportá-la.

Hannes explicando a metáfora da gota que cai continuamente num vaso de cristal fino

Bia questionou, buscando confirmação:

— Então existe mesmo um plano, uma missão. O SDR, o gato, o bilhete com meu nome… tudo foi orquestrado.

— Sim — Hannes admitiu, olhando para elas com brilho intenso. — Tudo será revelado no tempo certo.

A voz soou como promessa:

— Nada disso é para machucá-las. É para salvá-las. Para salvar a todos nós.

— Como assim, salvar? De que estamos falando? — questionou Bia.

— Salvar-nos da busca incessante pela perfeição, pois tudo aqui tem um custo muito alto. Logo vocês entenderão tudo o que precisam saber — e só então conhecerão o propósito de vocês.

Bia percebeu que não adiantava insistir. Hannes prosseguiu:

— A realidade chegará até vocês como uma gota que cai continuamente num vaso de cristal fino. Se abrirmos uma torrente, o cristal se rompe. Não tenham pressa.

Hannes se desmaterializando numa explosão suave de luz dourada

Clara segurou o encosto da cadeira, olhos marejados.

— E agora? O que vai acontecer?

Hannes flutuou mais perto, irradiando calor reconfortante.

— Agora vocês continuam a jornada. Cada etapa revelará mais sobre a missão de vocês. Cada experiência as fortalecerá. Assim, talvez — só talvez — encontrem um caminho que não destrua tudo que existe aqui.

Ela fixou os olhos em Clara, vendo o medo estampado no rosto dela.

— Não há nada a temer. Vocês estarão seguras, protegidas. E em breve voltarão para casa. Eu garanto.

Voltando-se para Bia, murmurou, quase como segredo:

— Nosso futuro depende de vocês. Sabemos que ele está em boas mãos.

As meninas ficaram paralisadas, o peso da frase comprimindo o peito. Hannes sorriu — esperança refletida em heroínas improváveis.

— Obrigada, meninas. Por serem quem são.

Estendeu a mão num gesto suave de despedida.

— Continuem. Há um roteiro a ser seguido. Alguém já espera para guiá-las ao próximo passo.

Seu corpo brilhou intensamente, tornando-se translúcido. A voz ecoou multiplicada, como se viesse de todos os cantos:

— Lembrem-se… vocês não estão sozinhas. Nunca estiveram. Nunca estarão.

Numa explosão suave de luz dourada, Hannes se desmaterializou. Partículas luminescentes flutuaram antes de desaparecerem.

Nexxus, o gato siamês, retornando ao chão cristalino da biblioteca em silêncio

Um silêncio profundo reinou na biblioteca.

Segundos depois, o som familiar de patas tocando o chão cristalino. O gato retornou — o siamês de olhos azuis intensos, inteligente e desconcertante. Fitou as meninas com expressão quase indiferente.

— Nexxus! — balbuciou Bia.

— Vejo que aprenderam meu nome! — exclamou o gato.

Nexxus inclinou a cabeça, o peito pulsando em ritmo que lembrava respiração.

— Vocês têm perguntas. Façam-nas.

Nexxus explicando o tecido do tempo e os pontos de inflexão

Clara deu um passo atrás, ainda desconfiada.

— Desde quando você monitora a gente?

— Seus nomes estão gravados em minha matriz. Vocês foram registradas muito antes de chegarem aqui.

— Isso não faz sentido. Quem faria isso? — Isa estreitou os olhos.

— Aquela que compreendeu que o tempo não é linha, mas tecido. Vocês são fios essenciais. A “arquiteta” traçou o destino de vocês desde quando o dela ainda se formava.

Sofia ficou fascinada.

— Arquiteta? Então somos parte de um padrão maior que tá sendo construído?

— Mais do que padrão. Vocês são pontos de inflexão. Sem vocês, o tecido do tempo se rasga.

As meninas ouvindo Nexxus falar sobre serem agentes de mudança

Bia engoliu em seco.

— E o que a gente deve fazer?

Nexxus pausou, como se processasse a pergunta.

— Minha programação não tem registros sobre isso. Mas posso dizer: o futuro que viram é instável. Vocês precisam decidir se serão protagonistas ou espectadoras do que virá.

Isa deu de ombros.

— Como assim? Parece que todo mundo aqui fala em grego!

— Vocês têm a oportunidade de ser agentes de mudança. Do que escraviza para o que liberta. Vocês precisam restabelecer o equilíbrio entre passado e futuro.

Isa bufou.

— Isso é vago demais.

— O vago protege vocês.

Sofia agachada acariciando Nexxus, perguntando quem o criou

As quatro se entreolharam, em silêncio, até Sofia mudar de assunto:

— Nexxus… quem criou você?

Os olhos azuis brilharam mais forte.

— Em breve, muito breve, vocês ouvirão falar dela. Amy, a “arquiteta”, fez de mim memória viva.

Bia se aproximou, agachou-se e tocou o pelo macio.

— E por que fomos escolhidas pra estar aqui?

— Porque vocês foram ‘eleitas’ por aquele que criou este futuro.

Nexxus interrompeu a fala, como se escolhesse as palavras com cuidado, e completou:

— Nada mais posso revelar agora. Mas alguém já espera para guiá-las ao próximo passo. Ela tem todas as respostas que vocês precisam.

Clara envergonhada com o estômago roncando, quebrando a tensão do momento

O silêncio foi cortado pelo ronco inconfundível do estômago de Clara. Ela corou.

— Desculpa…

Isa descruzou os braços.

— Agora eu também tô com fome. A gente nem almoçou hoje.