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Capítulo 19 · O Retorno Cap. 20 ▶▶
Bia, coberta de poeira vermelha, carrega Clara quase inconsciente nas costas até a porta de segurança do apartamento, com Nexxus ao lado.
// Apartamento de Helena

O apartamento estava mergulhado num denso silêncio quando Bia e Clara voltaram, cerca de quarenta minutos depois de Helena ter saído. Nexxus estava com elas.

Estavam exaustas e cobertas por uma fina camada de poeira vermelha — vestígios da busca desesperada pelo Jardim Analógico. Bia carregava Clara nas costas, quase inconsciente, ainda sob o efeito do choque emocional.

— Conseguimos, Clara — sussurrava contra o pescoço da amiga, a voz rouca pela exaustão.

— Sim… Conseguimos. E eu encontrei o mp3 — disse Clara, confirmando o aparelho no bolso.

Bia estava ofegante, o coração acelerado. A cada passo, sentia o ácido lático queimar as pernas — mas a visão da porta de segurança a aliviava.

Bia, coberta de poeira vermelha, acomoda Clara no sofá do apartamento enquanto Nexxus abre a porta de segurança.

Nexxus acionou o painel antes que ela conseguisse digitar o código, e a porta deslizou. Entraram. Bia colocou Clara no sofá com um suspiro que veio do fundo da alma.

— Tá segura — garantiu, olhando para Nexxus, empoleirado sobre a mesa de centro, os olhos azuis vigilantes.

Nexxus pulou no sofá, aninhando-se ao lado de Clara, como um felino protetor.

— Parabéns, Bia. Você se saiu muito bem — disse o gato, o tom sereno.

Bia esfregou o rosto, a poeira áspera arranhando a pele.

— Formamos uma bela dupla, Nexxus — tentou esboçar um sorriso, mas o cansaço não deixou.

— Seus sinais vitais estão todos equilibrados, Clara — Nexxus falou, analisando-a. — Você só precisa descansar.

— Nexxus tem razão. Descanse — concordou Bia.

Helena entra apressada e tensa, cobrando Bia e Clara por terem desobedecido às ordens, quando a porta bipa novamente com uma visita inesperada.

Bia estava se preparando para usar a Câmara de Higienização Molecular quando o painel da porta emitiu um bipe de acesso. Helena estava de volta — entrou apressada, com a expressão tensa.

— Por que não me obedeceram? Élida detectou saídas no protocolo antes de eu sair de lá. O que aconteceu? — Parou, vendo o estado das duas. — Por que saíram? Pensei que tivessem entendido a gravidade da situação! Avisei que este apartamento é o único lugar seguro na cidade!

— A Clara fugiu, Helena. Ela tava se culpando por tudo — Bia explicou rapidamente.

Mas antes que pudesse dar mais detalhes sobre o resgate, a porta bipou novamente.

Helena se virou, a irritação se transformando em surpresa.

— Quem será? O acesso é tão limitado!

O código que o painel mostrou era de uma concessão recente. A porta deslizou, revelando Isa.

Isa entra elétrica no apartamento ao lado de Natália, de sobretudo preto de gola alta, e Helena, entre o alívio e o terror, enfrenta o SENTINELA.

Isa não estava exausta — estava elétrica. Os olhos brilhavam com uma mistura de adrenalina e choque. O cabelo estava desalinhado e o rosto coberto por um fino suor frio. E, ao lado dela, uma figura alta, imponente, vestida de preto, que as três conheciam muito bem.

— ISA! — Helena gritou, misturando o alívio de vê-la ao terror pelo SENTINELA. — VOCÊ TÁ LOUCA? O que você fez? Onde você tava?

Natália entrou no apartamento. O olhar era clínico e rápido, avaliando o ambiente e a confusão das meninas. O sobretudo preto de gola alta fazia dela uma estátua fria da lei no meio daquela sala quente de emoções.

— Helena — a voz de Natália era calma e firme.

Helena parou, incrédula. Os olhos verdes faiscavam em descrença.

— O que você quer? Veio me prender? — e, com voz desafiadora: — Não tenho medo de você! Você acha que eu não sei o que você fez? O que você tá fazendo aqui?

Avançou um passo, mantendo a postura defensiva.

Isa se coloca entre Helena e Natália no meio da sala, gesticulando eufórica, enquanto Bia e Clara observam.

Isa se colocou entre as duas, agindo com a determinação que vinha do choque da própria revelação.

— Helena, para! Você não tá entendendo nada! — gesticulava, sem conter a euforia. — Sofia tá viva!

A palavra caiu como um raio. Sofia — um tiro no coração do luto. Helena parou abruptamente. O choque a atingiu com a força de uma parede. O corpo cambaleou levemente, a raiva se esvaindo.

— O que você disse? Repete! Ela tá viva?

— Sofia não morreu. Ela tá viva. Sua mãe a salvou, Helena — Isa apontou para Natália, que permaneceu em silêncio.

Num pequeno apartamento oculto, sob luz branca e fria, o SENTINELA permanece imóvel, ainda de gola alta fechada, diante de Sofia, que recua assustada.
// Apartamento Oculto · Horas Antes

Se, naquele instante caótico, fosse possível abrir uma fenda invisível no espaço-tempo, Helena e as meninas veriam o que havia acontecido com Sofia horas antes — e entenderiam que ela não fora simplesmente perdida, mas arrastada pelo destino.

A sala não era uma cela. Não era o Subnível. Nem o quartel. Parecia um apartamento — pequeno, silencioso, de alguma forma seguro. A porta se fechou atrás das duas.

O SENTINELA ficou imóvel por alguns segundos. O silêncio era tão estranho quanto tudo o que estava acontecendo.

No pequeno apartamento oculto, o SENTINELA tira as luvas e solta a gola alta, revelando a Sofia um rosto feminino, suave e cansado.

E então, lenta e deliberadamente, tirou as luvas. Depois soltou a gola alta do sobretudo.

O rosto ficou parcialmente exposto pela luz branca — e o que Sofia viu a fez congelar. Não era um rosto duro, austero, de soldado. Era suave. Feminino. Com marcas de cansaço, não de crueldade.

O SENTINELA sorriu. Um sorriso real. Quente. Humano.

Sofia sentiu o coração acelerar.

— Não tenha medo — disse a mulher, com voz baixa e serena. — Aqui, você está segura.

— Quem… quem é você? — Sofia gaguejou.

A mulher pareceu escolher as palavras com cuidado.

— Alguém que já deveria ter aparecido antes.

Sofia, encostada na parede do pequeno apartamento, ouve a mulher prometer protegê-la e dizer que ela tem mais a ver com Helena do que imagina; então a mulher ergue a mão.

Sofia recuou até encostar na parede do pequeno apartamento.

— O que você quer comigo?

A resposta veio como um sussurro:

— Proteger você.

— Mas… por quê?

A mulher respirou fundo, procurando as palavras certas — um gesto humano, dolorosamente humano.

— Porque existe uma verdade sobre você — a voz quase se quebrou — que ainda não está pronta pra saber.

Sofia sentiu o coração falhar por um segundo. A mulher deu mais um passo — não ameaçador, cuidadoso.

— Você tem mais a ver com Helena do que imagina.

Sofia abriu a boca, mas antes que pudesse perguntar qualquer coisa, a mulher ergueu a mão.

— Descanse.

— Não… espera… — pediu Sofia.

— Vai ficar tudo bem. Eu prometo.

Sofia, encostada na parede, cede à hipnose; as pálpebras pesam enquanto a mulher a observa com cuidado.

Não havia gás. Não havia droga. Nem tecnologia. Havia hipnose — o tipo de habilidade que só um SENTINELA verdadeiramente treinado poderia dominar. Os olhos de Sofia ficaram pesados, as pálpebras descendo como âncoras. O último pensamento, antes que a escuridão a engolisse, foi uma súplica silenciosa, quase uma oração lançada ao vazio:

As meninas… por favor… estejam bem.

E então, o silêncio.

Natália observa Sofia adormecida, tocando de leve seus cabelos, e sussurra sozinha para a própria sombra que o despertar será a parte mais difícil.

A mulher permaneceu imóvel, a figura alta e atlética recortada contra a luz branca do apartamento. O casaco longo de tecido preto e gola alta — que antes parecia uma armadura de terror na floresta — repousava sobre os ombros com uma austeridade silenciosa. Ela despiu as luvas de couro devagar. Os dedos, agora livres, tocaram levemente a mecha de cabelo de Sofia — um gesto carregado de uma memória que não pertencia àquele tempo, nem àquele uniforme.

A luz refletia em seu rosto, suavizando os traços rígidos e o cabelo penteado para trás. Ali, naquele instante de quietude, ela não era apenas uma peça do sistema. Caminhou até a janela vedada, os passos agora abafados e cautelosos.

Natália, olhando para o nada, sussurrou para a própria sombra na parede:

— O despertar será a parte mais difícil.

Helena cambaleia, pálida, olhando de Natália para Isa e Bia, e recua balançando a cabeça quando Natália a chama de filha.
// Apartamento de Helena · Presente

A fenda no espaço-tempo se fechou. De volta à sala, era o despertar de Helena que começava — e prometia ser, para ela, igualmente árduo.

Helena cambaleou, o rosto pálido como mármore. As palavras de Isa — sua mãe a salvou — ainda ecoavam, impossíveis. Olhou para Natália, depois para Isa, depois para Bia. A incredulidade era palpável.

— Isso é algum tipo de piada? Uma hipnose?

— Não, filha. É a verdade — Natália deu um passo à frente, a voz suave e baixa — o oposto da autoridade que a roupa impunha.

Helena recuou, balançando a cabeça em negação.

Helena recua diante de Natália, recusando-a com raiva e dor, enquanto Isa e Bia assistem tensas.

— Não! Não me chame de filha! Minha mãe me abandonou há muito tempo! — Olhou com desdém para aquela figura imponente. — Você não é nada pra mim!

— Sinto muito que você pense assim. Tem muita coisa que você ainda não sabe, Helena. Você foi a razão pela qual eu me infiltrei no Sistema — Natália afirmou, a expressão carregada de dor. — Quando você foi marcada como ‘inapta’, precisei te proteger. Precisei me tornar o que você mais odeia. Tornei-me SENTINELA para garantir que a Gestora não te levasse para o Subnível.

Isa segura o braço de Helena e confirma que Natália e o prefeito Vargas estão infiltrados contra o Sistema; a raiva de Helena se desfaz em confusão.

Isa se aproximou de Helena e segurou o braço dela.

— É verdade, Helena. Escuta sua mãe. E seu pai, o prefeito Vargas, também tá infiltrado contra o Sistema. Eles nos salvaram na floresta, dando pistas falsas pro Comando. Eles nos protegeram o tempo todo — confirmou Isa, repetindo o que ouvira de Natália.

— Eu sei que as meninas vão libertar o Subnível. Eu acredito nisso — afirmou Natália.

Helena soltou o ar num suspiro que parecia vir do fundo da alma.

A raiva se desfez em confusão, e a incredulidade deu lugar a uma dor antiga que agora ganhava um novo significado.

Helena olha para Natália e, pela primeira vez, vê uma mãe; lágrimas de alívio escorrem pelo rosto dela.

Helena olhou para Natália — o SENTINELA que sempre odiara — e viu ali, pela primeira vez, uma mãe. Uma mãe que se sacrificara para salvar a filha.

As lágrimas escorreram pelo rosto de Helena. Não lágrimas de tristeza, mas do alívio devastador de saber que era amada, após anos acreditando ser rejeitada. A culpa e o abandono se dissolveram num único instante de revelação.

— Vocês fizeram isso por mim? Pra me proteger?

— Tive que fazer coisas horríveis com pessoas inocentes para que a Gestora confiasse em mim. Acham que eu deixaria minha filha ser rastreada sem controle? Eu mesma plantei aquele código no bracelete. A Gestora precisava acreditar que estava no controle. E acreditou.

— Então não era uma invasão externa. Era você me protegendo! — reconheceu Helena.

Clara se ergue do sofá, trêmula, e pergunta a Natália se era ela quem decidia quem era levado, enquanto todos os olhares se voltam para ela.

No sofá, Clara não dormia mais. As palavras da Natália — pessoas inocentes — tinham atravessado o torpor como água fria. Ela se ergueu devagar, primeiro sentada, depois de pé, as pernas ainda trêmulas. Todos os olhares se voltaram para ela.

— Então foi você? — A voz saiu pequena, quase sem ar. — Você quem decidia quem era levado?

Natália virou-se para ela. Não respondeu de imediato — apenas sustentou o olhar, e nesse silêncio havia uma resposta.

— Eu achava que a culpa era minha — Clara continuou, e agora as palavras vinham em tropel, soltando um peso de dias. — Cada vez que eles eram levados, eu tinha acabado de... de me descontrolar. De falar alto, de sentir demais. Eu achei que era eu que trazia eles... o Will, o Bernard, o Vinícius... que era tudo por minha culpa.

A sala ficou imóvel. Bia abriu a boca, mas não encontrou o que dizer — porque, sem nunca ter dito, também havia se perguntado se a culpa não era mesmo da Clara.

Natália se abaixa diante de Clara, que está de pé e trêmula junto ao sofá, falando com voz de bálsamo.

Natália atravessou a sala. Abaixou-se diante da Clara, e quando falou, a voz parecia um bálsamo.

— Escuta com atenção, porque eu só vou dizer uma vez, e você vai carregar isso pelo resto da vida. — Fez uma pausa. — Nunca despreze as suas emoções. Elas mostram quem você é. Não foi culpa sua. Foi do Sistema. Fui eu. Cada nome, cada captura, fui eu que apontei, para que a Gestora confiasse em mim e nunca olhasse para vocês. Você pode ter sido a variação que o Sistema percebeu. Mas a mão que pegou os inocentes foi a minha.

Clara tremia.

— Mas eles foram levados do mesmo jeito...

Clara, em lágrimas, ouve Natália falar sobre o Subnível, onde ninguém morre; o peso finalmente sai de seus ombros.

— Foram levados para o Subnível — disse Natália, e a voz baixou, carregando a própria fé como quem carrega uma esperança. — E no Subnível ninguém morre. Apenas são desligados da vida. Suspensos. Esperando. — Tocou o rosto da Clara. — Eu não entreguei ninguém à morte. Entreguei à espera de dias melhores. E acredito, com tudo que me resta, que vocês vão acordar todos eles.

Alguma coisa cedeu dentro da Clara — não as lágrimas, que já corriam, mas o peso por trás delas. O copo que transbordara na fuga, finalmente, estava vazio.

Natália tira as luvas de couro e seca com delicadeza as lágrimas de Helena, dizendo que a ama.

Natália tirou as luvas de couro. Os dedos que usava para hipnose se moveram em direção ao rosto de Helena, que observava tudo em prantos, e secou as lágrimas com delicadeza.

— Acompanho a vida de Amy há muito tempo. Sei quem ela se tornou — por isso fiz arranjos para que ela te desse o apoio que eu não pude te dar, minha filha. — Cada nova palavra de Natália trazia um alívio para a alma ferida de Helena, que ansiava por aquele momento. — Eu te amo, filha. Seu pai te ama. Nunca duvide disso.

Natália e Helena se abraçam no meio da sala — o SENTINELA e a dissidente —, observadas por Clara, Bia e Isa.

O SENTINELA e a dissidente se abraçaram num misto de dor e consolo — a imagem daquele abraço, no meio da sala, era a antítese de tudo que o Sistema representava.

Clara, agora desperta no sofá, assistia a cena, as lágrimas de esperança misturando-se ao seu próprio alívio. Isa, ainda eufórica, interrompeu:

— Natália precisa voltar pra Sofia.

A voz soou como um alerta necessário.

Natália pede calma sobre o resgate de Sofia, promete avisar quando for o momento certo, e se despede da filha antes de sair furtivamente.

Natália se separou da filha, voltando à postura militar — mas os olhos ainda brilhavam com afeto.

— Sim. Preciso ir. Mas agora que você conhece a verdade, não precisamos mais fingir que nos odiamos. Isso precisa ter fim.

Olhou nos olhos de Helena.

— Isso acaba agora! — determinou Helena, as lágrimas escorrendo pelo rosto.

Bia perguntou, com o foco no plano:

— Quando poderemos ver Sofia? Onde ela tá?

Natália ergueu a mão, pedindo calma.

— Ainda não. É perigoso demais mover vocês até ela ou trazê-la aqui. Vocês devem seguir à risca minha orientação: não procurem por Sofia. Não tentem contatá-la. Ela está num lugar que a Gestora jamais vai procurar.

Com um olhar de quem tem tudo sob controle, disse:

— Confiem em mim. Aguardem meu sinal — a voz era firme. — Avisarei quando o momento de resgatar Sofia chegar. Até lá, peço silêncio e discrição.

Despediu-se, deu um abraço carinhoso na filha e, da mesma forma que entrou, saiu — furtiva e silenciosa.

Bia consulta o relógio holográfico da parede enquanto Nexxus comenta, com humor inesperado, que as chances de sucesso aumentaram muito.

Bia olhou para o relógio holográfico na parede, adaptado para as meninas controlarem as horas como estavam acostumadas.

— Hoje é dia 22/10. São 21h47. Até Natália retornar, vai ser a espera mais longa de todas — concluiu.

Nexxus processava tudo, os olhos azuis piscando. Avaliando a chegada da nova aliada, pensou em voz alta:

— Por essa, nem eu esperava. As nossas chances de sucesso acabaram de aumentar drasticamente.

O comentário soou inesperado, e todas riram da expressão de surpresa do gato — que, além de ser falante, tinha senso de humor.

Só quando as risadas cessaram, Bia notou as marcas avermelhadas que ela e Clara tinham deixado no sofá. A poeira do Jardim Analógico ainda cobria as duas. Uma passagem pela Câmara de Higienização Molecular levava poucos segundos — mas, entre a volta de Helena e a chegada de Natália, aqueles segundos simplesmente não tinham existido. As duas formaram uma fila diante da câmara e, pela primeira vez naquela noite, alguma coisa foi rápida e fácil.

Dois dias tensos se passam no apartamento congelado até que finalmente chega uma mensagem curta de Natália: chegou o momento.
// Apartamento de Helena · Dois Dias Depois

Dois dias se passaram até que Natália finalmente fizesse contato. Foram dias longos, tensos e silenciosos, em que o apartamento de Helena parecia estar congelado, aguardando ser aquecido outra vez.

A mensagem de Natália veio sem detalhes — apenas um aviso simples: Chegou o momento. Preparem-se.

Desde então, ninguém conseguia descansar de verdade.

Espera tensa no apartamento: Helena anda de um lado para o outro, Isa estala os dedos, Clara cantarola com o mp3 e Nexxus vigia a porta quando o bipe finalmente soa.

Helena andava de um lado para o outro, como se cada passo fosse uma tentativa desesperada de conter o próprio coração. Isa estalava os dedos compulsivamente, o olhar sempre preso na porta, franzindo a testa. Clara cantarolava a música do mp3 como quem recita uma oração. Bia mantinha o corpo imóvel, mas a mente estava sempre maquinando algo. Até Nexxus se movia pouco — atento à porta, sentado como um guardião silencioso.

Todas esperavam. Sabiam que aquela porta se abriria a qualquer momento, no tempo certo.

Quando o aviso sonoro finalmente ecoou pelo apartamento, o bipe suave pareceu uma explosão.

Isa ficou paralisada.

Bia se ergueu num impulso. Clara deixou o mp3 cair no sofá. Helena sentiu o mundo preso entre duas batidas de coração.

Nexxus se posiciona diante da porta, que desliza devagar; na luz do corredor surge Natália, amparando Sofia.

Nexxus foi o primeiro a se mover, posicionando-se diante da porta como se a função programada sempre tivesse sido proteger aquele exato momento. O painel se acendeu. A porta deslizou devagar, permitindo que a luz fria do corredor invadisse a sala por um longo segundo — e então a sombra de uma figura alta surgiu na entrada.

Natália. Era 24/10, 21:00h, quando ela chegou.

Atrás dela, apoiada, estava Sofia.

Helena sentiu as pernas fraquejarem.

Sofia, pálida mas viva, ajeita os óculos e sorri timidamente para as amigas ao entrar na sala.

Sofia parecia cansada, frágil, mas viva — tão viva que a presença dela parecia um milagre. O rosto estava pálido, mas os olhos reconheciam cada canto daquela sala, como se estivesse retornando para casa após atravessar um mundo inteiro. Ajeitou os óculos.

— Sofia? — Helena sussurrou, a voz escapando como um soluço.

Sofia ergueu os olhos devagar. Um sorriso pequeno, delicado, quase tímido se formou — o tipo de sorriso que alguém faz ao reencontrar algo precioso demais. Deu alguns passos lentos, até estar bem perto delas.

— Oi, gente… Adveni, perveni — disse, mostrando os dentes.

Ninguém entendeu, exceto Nexxus. Mas ninguém questionou. O importante era que ela tinha chegado.

Helena corre e abraça Sofia com tanta força que quase a derruba; as outras meninas se aproximam emocionadas.

Helena correu. Não pensou, não hesitou, não pediu permissão — simplesmente correu até Sofia e a abraçou com força, tanta força que quase a derrubou. Sofia engasgou num riso abafado pelo corpo de Helena, abraçando-a de volta. Clara começou a chorar antes mesmo de se levantar. Isa levantou a mão, saudando à distância.

Bia fechou os olhos e respirou fundo, como se soltasse um peso que segurara por dias.

Nexxus abaixou a cabeça e traduziu em voz baixa:

— “Parti e cheguei” — recitando o latim dela.

Natália observava tudo com uma expressão que ninguém soube decifrar de imediato — algo entre exaustão, alívio profundo e uma dor silenciosa escondida atrás dos olhos, como um segredo que machucava.

Helena segura o rosto de Sofia perguntando se ela foi ferida, e todas se voltam instintivamente para Natália, que apenas sorri em silêncio.

Helena afastou-se apenas o suficiente para segurar o rosto de Sofia entre as mãos.

— Você tá machucada? Alguém te fez algum mal?

Sofia balançou a cabeça devagar.

— Não, mal nenhum. Fui bem tratada — até demais. Longe do Subnível, em algum lugar que a Gestora nunca encontraria.

Todas olharam instintivamente para Natália. Natália apenas sorriu.