◀ Cap. 16◀ Início
Capítulo 17 · A Aliada Cap. 18 ▶▶
Helena para diante das meninas, sentadas no sofá com os olhos inchados de choro, e anuncia que precisa sair para procurar Élida; Bia se endireita, alarmada.
// Apartamento de Helena

O apartamento da Helena estava mergulhado num silêncio denso — apenas o zumbido imperceptível dos filtros de ar quebrando a quietude. Após a higienização na Câmara de Higienização Molecular e algumas horas de descanso agitado, a exaustão física havia diminuído, mas a ansiedade mental continuava em alerta vermelho, pulsando nas têmporas de cada uma delas. Helena andava de um lado para o outro na sala, verificando o bracelete digital repetidamente. Os passos eram abafados pelo piso inteligente, mas a tensão nos ombros gritava. Ela parou diante das meninas, sentadas no sofá como estátuas de luto, os olhos ainda inchados pelo choro recente.

— Eu preciso ir — anunciou, a voz carregada de uma urgência que não admitia réplicas.

Bia se endireitou imediatamente, o instinto de proteção assumindo o controle. Esfregou o antebraço.

— Ir? Pra onde? Não podemos sair lá fora. A cidade tá caçando a gente.

— Vocês não podem — corrigiu Helena, suave, mas firme. — Eu preciso. Tenho que procurar Élida. Ela precisa confirmar como o bracelete foi comprometido e limpar os rastros digitais que deixamos. Só ela tem a criptografia necessária pra bloquear o rastreio da Gestora novamente.

Clara, encolhida no canto do sofá, ergueu o rosto trêmulo.

— Vai nos deixar sozinhas?

Helena ajoelhada diante do sofá, segurando as mãos frias de Clara, enquanto Nexxus vigia do encosto da poltrona.

Helena se aproximou, ajoelhando-se para ficar na altura dos olhos delas. Segurou as mãos frias de Clara.

— Vocês não estão sozinhas. Nexxus ficará aqui. — Olhou para o gato, empoleirado no encosto da poltrona, os olhos brilhando num azul vigilante. — Este apartamento é o lugar mais seguro da cidade. Nada entra aqui sem que eu saiba. Os sensores são calibrados pra detectar qualquer assinatura de calor ou movimento num raio de cinquenta metros.

Helena digita a sequência no painel da porta e sai; a porta se fecha com um sussurro hermético, deixando as meninas sozinhas com o gato.

Levantou-se, ajustando o casaco com movimentos precisos.

— Tranquei os protocolos de acesso. Ninguém consegue passar por aquela porta sem a chave criptografada. Volto em uma hora. Não abram pra ninguém. Nexxus vai tomar conta de vocês.

Helena digitou uma sequência rápida no painel da porta, que se abriu e fechou com um sussurro hermético, selando o mundo lá fora.

E então, elas ficaram na companhia do gato e dos próprios fantasmas.

Na espera angustiante, Isa morde a junta do polegar de braços cruzados, Bia respira em contagens para conter o pânico e Clara aperta uma almofada contra o peito.

O tempo parecia se arrastar, cada segundo esticando-se como um elástico prestes a romper. Isa mordia a junta do polegar, a mente analítica travada num loop de culpa — os braços cruzados, buscando uma saída. Bia forçava os ombros a relaxar, respirando em contagens de quatro tempos para não deixar o pânico subir.

— Volta logo, Helena… — Bia sussurrava para si mesma, um mantra para afastar o pavor.

Clara abraçava uma almofada contra o peito, apertando-a com força. O cheiro limpo e sintético do apartamento a enjoava. Tudo ali era leve e perfeito demais — não havia espaço para o peso do luto.

— Será que a Sofia tá com frio? — murmurou, quase falando sozinha. — Tomara que ela esteja bem… onde quer que esteja.

Isa encara o teto do apartamento, desabafando, enquanto Clara abraça a almofada e Bia escuta em silêncio.

Isa abriu a boca para responder, mas a voz não saiu. Quando finalmente falou, foi para o teto:

— Sabe o que é pior? Desde que a gente chegou, só fez o que mandaram. Siga o drone. Siga o gato. Siga a Helena. E olha onde a gente tá.

Ninguém respondeu. Nexxus abriu um olho e voltou a fechá-lo.

O cansaço venceu Bia e Isa. As pálpebras pesaram como chumbo — o sono, uma fuga temporária, as puxou para baixo.

Clara, insone, olha para o sofá vazio de Sofia e se levanta devagar, incapaz de suportar mais um instante ali dentro.

Clara não dormiu. A culpa era um estimulante cruel.

As palavras da Isa ainda ardiam: alguém sempre estraga tudo. Clara não conseguia parar de pensar que o “alguém” tinha cara, e a cara era a dela.

Olhou para Bia e Isa adormecidas, para o sofá vazio onde Sofia deveria estar. E por um instante o apartamento perfeito virou outra coisa: uma casa abandonada, sem vida. Clara se viu novamente sozinha. Ela não suportaria ver mais ninguém desaparecer. Um arrepio subiu antes que ela pudesse impedir.

Levantou-se devagar.

Nexxus, que parecia cochilar, abre um olho azul e o fixa em Clara, que se move em silêncio pelo carpete macio.

Os movimentos eram silenciosos no carpete macio — mas não para Nexxus. O gato, que parecia cochilar, abriu um dos olhos. A íris azul focou em Clara.

A visão de Nexxus: Clara como um mapa térmico de sofrimento, com leituras de cortisol, batimentos irregulares e um alerta de protocolo.

Na mente processadora de Nexxus, o mundo desacelerou. Ele não via apenas uma menina triste — via um mapa térmico de sofrimento. Cortisol em níveis tóxicos. Batimentos cardíacos irregulares. Pânico dissociativo. Um alerta em seu protocolo de segurança foi ativado: Clara precisa reduzir seu nível de estresse imediatamente.

Com os olhos vermelhos e a respiração ofegante, Clara se aproximou.

— Por favor, Nexxus, me deixa sair… Preciso caminhar um pouco. Estou sufocando aqui — mal consigo respirar.

A ordem era explícita: ninguém devia sair do apartamento sem Helena. Nexxus avaliou a solicitação e concluiu que manter o confinamento resultaria em colapso psíquico iminente.

Os componentes analisadores elaboraram o relatório em milissegundos: o confinamento causaria trauma irreversível. Alternativa viável — desobedecer o comando e liberar Clara.

Era um risco físico provável contra uma certeza de dano mental permanente. Nexxus tomou a decisão.

O painel da porta acende em verde com “Acesso autorizado” sob a mão trêmula de Clara, enquanto Nexxus pisca lentamente ao fundo.

Clara caminhou até o painel da porta num sonambulismo doloroso. Encostou a mão trêmula no painel frio, esperando encontrar a barreira. Não sabia o que Nexxus havia decidido.

O gato piscou lentamente.

Autorização de Emergência: Integridade Psíquica — Alvo: Clara.

O painel emitiu um bipe suave. Acesso autorizado.

Clara nem percebeu que fora o gato. Para ela, foi o universo abrindo uma fenda. Ela saiu — a porta se fechou atrás dela com o mesmo sussurro hermético.

Nexxus se espreguiça sozinho no apartamento, os sensores já travados na assinatura térmica de Clara que se afasta pela cidade.

Nexxus se espreguiçou, bocejando como um gato comum. Os sensores travaram na assinatura térmica de Clara, iniciando o rastreamento.

Havia desobedecido à ordem de Helena para salvar a mente de Clara. Agora, restava esperar Bia acordar antes que o sol se pusesse completamente.

No fim de tarde dourado, Clara caminha como um espectro pelos corredores de cristal de Ibaru, descendo até a rua em direção à Zona Integrada.
// Zona Integrada · Esquina da Loja de Vinícius

Lá fora, Ibaru brilhava com sua perfeição indiferente sob a luz dourada do fim de tarde. Clara caminhava como um espectro pelos corredores de cristal, descendo até o nível da rua. Os pés a levaram para a Zona Integrada, guiados por uma memória recente — foi até onde ficava a loja de Vinícius.

Clara parada na esquina, diante da fachada branca e lisa da loja de upgrades cibernéticos que tomou o lugar da loja de Vinícius.

Mas, quando chegou à esquina, parou. Sabia que a loja de antiguidades não existia mais. No lugar das prateleiras de madeira e dos objetos com história, havia uma fachada lisa, branca e brilhante — uma loja de upgrades cibernéticos, operada por braços mecânicos silenciosos. O Sistema havia apagado Vinícius. Apagado sua história. Clara parecia querer se certificar de que não tinha sido um pesadelo.

O ar faltou nos pulmões. Ela correu para o beco lateral — o único lugar que a modernidade ainda não havia tocado completamente. Era estreito, sujo, escondido entre os prédios reluzentes. Ali, cercada pelas sombras alongadas, Clara desabou.

Caiu de joelhos no chão frio, juntou as mãos numa oração — um gesto antigo que a mãe lhe ensinara e que ela raramente usava.

— Por favor… — sussurrou, a voz quebrada pelo choro. — Se puder me ouvir… Deus… não deixe que tudo tenha sido em vão. Não deixe que eles apaguem a gente. Me dê um sinal. Qualquer coisa.

Ficou ali, soluçando, a testa encostada no chão sujo do beco, sentindo-se minúscula diante daquele futuro gigante e frio.

Entre o entulho do beco, Clara encontra o velho mp3 intacto e o aperta contra o peito como uma relíquia recuperada.

Quando ergueu a cabeça, limpando as lágrimas com a manga da blusa, algo brilhou na penumbra — perdido sob um pedaço de entulho que os robôs de limpeza haviam ignorado. Não era metal polido, nem cristal. Era plástico velho, arranhado.

Clara estendeu a mão, os dedos trêmulos roçando o objeto. Puxou-o.

Era o mp3. Intacto. Como se tivesse sido deixado ali de propósito, ou protegido por uma força invisível quando as paredes da loja cederam.

Clara apertou o aparelho contra o peito, sentindo o plástico frio aquecer na mão. Um soluço escapou da garganta — mas dessa vez não era de desespero. Era de reconhecimento. Eles não haviam apagado tudo.

Clara foge para longe das luzes da Zona Integrada e se senta entre as pedras das ruínas da antiga igreja, no Jardim Analógico, com o mp3 nas mãos sob o céu laranja e roxo.
// Jardim Analógico · Ruínas da Igreja

Precisava sair dali. Aquele beco ainda era muito exposto. Precisava de um santuário antes que a noite caísse e os drones de vigilância iniciassem a ronda.

Clara se levantou, segurando o mp3 como uma relíquia, e correu. Foi para longe das luzes da Zona Integrada, em direção à borda do setor, onde a cidade perfeita falhava. Foi para o Jardim Analógico.

As ruínas da antiga igreja a receberam com sombras acolhedoras. No céu — livre do controle da Gestora — o sol já se escondia no horizonte, tingindo as pedras de laranja e roxo. Ali, entre as paredes de pedra e o teto aberto para o firmamento, ela se sentou.

Com as mãos ainda tremendo, apertou o botão central. A tela riscada piscou na penumbra crescente.

Música 01 — “Silêncio na Memória”, de Ana Maris. Era aquela canção antiga que falava sobre o tempo que passa, sobre cantar enquanto o som ainda não vai embora, porque toda canção tem sua hora. Uma melodia leve, quase alegre, dizendo uma coisa triste e inadiável: que um dia tudo desaparece, mas quem fica não se esquece. — Clara apertou o play.

Clara deitada entre as ruínas da igreja, olhos fechados, ouvindo o velho mp3 sob o céu laranja e roxo do entardecer.

A voz rouca e acústica preencheu o silêncio das ruínas.

Protegida pelas pedras do passado, Clara chorou — não mais de medo, mas de uma tristeza limpa, permitindo-se sentir o luto por Sofia, por Daniel e por si mesma. Calmamente, deitou-se, fechou os olhos e mergulhou no som daquela canção. O tempo estava correndo. E o risco de ser capturada aumentava a cada minuto.

Bia desperta sobressaltada na sala em penumbra e percebe que Clara não está no sofá; Isa se levanta, rígida.
// Apartamento de Helena

Longe dali, Bia despertou com um sobressalto. O apartamento estava na penumbra — a luz de segurança da sala havia sido reduzida. Esfregou os olhos, confusa, e olhou pro sofá. Isa estava ali, mas Clara não estava. Bia olhou ao redor e chamou:

— Clara?

A voz estava rouca pelo sono e pelo medo.

Isa se levantou com o corpo rígido.

— Onde ela foi? Onde ela se meteu dessa vez?

Bia diante do painel da porta, que registra uma saída recente, com Isa logo atrás e Nexxus na poltrona.

Bia correu até a porta. O painel estava verde — trancado, mas registrava uma saída recente. Virou-se para Nexxus, empoleirado na poltrona, observando-as com uma calma irritante.

— Nexxus! O que aconteceu? Por que a porta registrou uma saída? Foi a Clara? Por que você não me acordou?

O gato pulou no chão, caminhando com a leveza de um felino.

— Clara manifestou sinais de colapso psíquico iminente — disse, a voz calma e natural. — A manutenção do confinamento resultaria em dano traumático irreversível. Usei o protocolo de autodeterminação em situações neuro-comportamentais.

— Traduz isso, por favor? — Isa interveio, franzindo a testa.

— Ela iria surtar se ficasse aqui. Eu a deixei sair — Nexxus respondeu, olhando diretamente para Bia. — A saúde mental, por diretriz de Élida, é prioridade superior à possibilidade de insegurança física.

O choque silenciou as duas. Nexxus havia desobedecido à ordem direta de Helena.

— Você desobedeceu a Helena? — Bia sussurrou, sentindo a própria liderança ser testada pela IA.

— Cumpri a Diretriz de Preservação.

— E como vamos encontrá-la agora? Você a perdeu! Ela pode estar em qualquer lugar! — Isa estava quase gritando, a mente analítica falhando em aceitar a justificativa do gato.

— Não a perdi. Estou monitorando — Nexxus respondeu, movendo a pata num gesto rápido.

Um ponto vermelho pulsa no painel de vidro da mesa de centro, marcando a localização de Clara no Jardim Analógico enquanto Bia se prepara para ir buscá-la.

No painel de vidro da mesa de centro, surgiu um ponto vermelho pulsante, movendo-se lentamente numa área distante. As coordenadas eram claras.

— O que é isso? — Bia perguntou.

— O rastro sináptico dela na rede SkyWords da cidade — Nexxus explicou. — É um sistema de rastreamento preciso. Ela está no Jardim Analógico. Setor 12.

Bia respirou fundo, fechando os olhos por um segundo. A raiva de ter sido enganada pela IA foi substituída pela certeza de que precisava agir. Olhou para Isa.

— Eu vou buscá-la.

— Sozinha? Não! Vai ter que passar pela Zona Integrada — a área com mais SENTINELAS! — Isa argumentou.

— O tempo tá acabando. Se o Sistema não a pegou no beco, vai pegá-la nas ruínas. Preciso ir agora. — Bia se virou para Nexxus. — Qual é a rota mais rápida e segura?

Nexxus projetou um mapa holográfico da cidade na palma da mão de Bia, com uma linha verde traçada. O holograma piscou, retraindo-se num feixe de luz que apontava o local onde Clara estava.

Isa pede para ficar no apartamento à espera de Helena, e Nexxus concede a ela acesso à porta enquanto Bia se prepara para partir com o gato.

Isa olhou para Bia, já arquitetando um plano.

— Posso ficar aqui? Quando Helena retornar, alguém precisa contar pra ela o que tá acontecendo. — Uma pausa. — A porta tá trancada. Preciso que você me dê acesso pra entrar ou sair, caso seja necessário.

— Certo. Faça isso. Espere por Helena — Bia concordou.

Depois, olhou para Nexxus, a voz baixa e carregada de súplica.

— Por favor. Dê acesso à Isa. Ela vai ficar no apartamento. Você vem comigo — preciso do seu rastreamento.

O gato processou a solicitação e a necessidade logística.

— Acesso concedido — respondeu, cedendo à lógica da missão.

Bia e Nexxus saem do apartamento; Isa fica sozinha na sala e solta um suspiro de alívio.

Bia e Nexxus saíram. A porta se fechou. Isa ficou sozinha no apartamento. Deu um suspiro profundo de alívio.

Sozinha na sala, Isa decide procurar Natália, a única pessoa que, em sua avaliação, poderia saber o paradeiro de Sofia.

O plano de ficar para trás tinha um motivo: procurar por Sofia. A única pessoa que, em sua avaliação, podia dar pistas do paradeiro dela era Natália. E Natália era o alvo mais perigoso da cidade.

Isa diante da estante, segurando a foto antiga de Natália e Adolfo Vargas, com Helena ainda criança.

O olhar de Isa parou na estante de livros — havia uma foto antiga de Natália e Adolfo Vargas num enquadramento inocente, de quando Helena era criança. Natália, vestida como civil, antes de se tornar SENTINELA. Isa pegou a foto. Precisava de um rosto, de uma pista para encontrar aquele SENTINELA.

— Desculpe, Bia — sussurrou, mesmo sabendo que ninguém podia ouvi-la. — A segurança da Sofia é mais importante.

Caminhou até o painel da porta. O bipe soou. Acesso autorizado. Ela saiu — e o apartamento ficou vazio.

Isa se dirigiu ao lugar mais perigoso da Zona Integrada, na tentativa de encontrar Natália — na sua cabeça, a única pessoa que poderia entrar no Subnível e ajudar a libertar Sofia.