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Capítulo 16 · A Crise Cap. 17 ▶▶
Nexxus irrompe pela porta da igreja em disparada, os olhos vermelhos, anunciando a chegada de uma patrulha de SENTINELAS.
// Acampamento · Igreja em Ruínas

Enquanto o Pastor falava das Eleitas na igreja em ruínas, longe dali, nos circuitos da Gestora, um alerta acabava de ser disparado.

ASSINATURA E.V. — ÚLTIMA LEITURA: SETOR 12.

SINAL PERDIDO EM ZONA NÃO MAPEADA.

NENHUMA SIMULAÇÃO ATIVA COMPATÍVEL.

CLASSIFICAÇÃO: AMEAÇA.

ENVIAR PATRULHA.

Foi então que a porta da igreja se abriu com violência. Nexxus entrou em disparada, os olhos brilhando em vermelho intenso.

— SENTINELAS! — gritou, numa voz metálica e trêmula. — Uma patrulha completa! Eles acharam o acampamento!

O pânico se espalhou em silêncio, como uma onda invisível. O pastor ergueu os braços:

— Nada temam! Mesmo que nos levem, as Eleitas serão a nossa salvação!

As pessoas se levantaram, muitas olhando para as meninas com devoção — outras com medo, outras com súplica.

Daniel implora a Sofia que fuja com ele enquanto Isa segura o braço dela, e a multidão em pânico as separa.

Daniel procurou Sofia no meio da multidão, os olhos arregalados.

— Venha comigo! Eu posso ajudar você a fugir!

Sofia vacilou — o primeiro instante de hesitação que mudaria seu destino. Isa segurou o braço dela:

— Nem pensa nisso! Fica com a gente!

Sofia puxou o braço de volta, os óculos quase indo ao chão. Lançou um olhar para Helena, outro para Daniel.

— Eu só—

Helena gritou:

— MENINAS! Perto de mim, agora!

Mas a confusão crescente separava o grupo pouco a pouco. Daniel ergueu-se nas pontas dos pés, procurando Sofia entre os corpos que se agitavam. Ela desaparecia rápido demais — um lampejo de preocupação atravessou seus olhos.

Uma legião de SENTINELAS avança pelo vale levantando poeira vermelha enquanto Antonio grita ordens de dispersão para os túneis.

Uma legião de SENTINELAS cruzou o horizonte com passos lentos e firmes, levantando nuvens de poeira que quase cobriam o céu. Pessoas correndo, crianças chorando, barracas entrando em colapso. A hesitação de Sofia — de menos de dois segundos — seria suficiente para selar o que aconteceria nos próximos minutos.

O silêncio que tomou a igreja foi mais aterrorizante do que qualquer explosão — um silêncio de medo contido, de fuga iminente. Os refugiados, habituados à discrição penitente, levantaram-se como sombras, mas os olhos gritavam. A profecia havia chegado. E, com ela, o terror. Do lado de fora, o impacto ritmado das botas dos SENTINELAS — pesadas, precisas, implacáveis — fez o pânico se espalhar de vez. A vibração no solo anunciava que o tempo tinha acabado.

Antonio ergueu a voz, firme como um sino em meio ao caos:

— Pastor! Dispersão imediata! Leve todos pros túneis!

Os moradores obedeceram sem hesitar, movendo-se como uma corrente humana desesperada. Helena foi puxada por Antonio, arrastada contra o fluxo enquanto as meninas tentavam acompanhá-los com dificuldade. Todas, exceto Sofia.

Antonio arrasta Helena e as meninas até uma cabana escondida onde revela um velho veículo movido a biodiesel.

— Helena! — A voz de Antonio era urgente. — Você precisa tirar as meninas daqui. Se o Sistema capturá-las, tudo termina aqui!

Ele abriu caminho à força, guiando-as até uma pequena cabana quase escondida entre as folhagens. Dentro, havia um veículo metálico antigo, pesado, resistente — completamente deslocado do século, quase uma relíquia.

— Entrem! — ordenou Antonio, abrindo a porta com violência. — Funciona com biodiesel. A Gestora não rastreia esse tipo de motor. É lento, mas é seguro.

Helena assumiu o volante. Bia, Isa, Clara e Nexxus se apertaram no banco de trás. Foi então que Helena se deu conta:

Dentro do veículo em fuga, Helena percebe em pânico que Sofia ficou para trás, enquanto Antonio promete encontrá-la.

— Sofia...? Onde tá a Sofia?!

Isa respondeu num estalo:

— Ela tava perto do garoto de cabelo azul! Eu vi!

Antonio lançou um olhar rápido para o vale que desmoronava em caos.

— Estão chegando! — gritou. — Vocês PRECISAM ir!

— Mas e a Sofia?! Não podemos deixá-la! — implorou Bia.

Antonio colocou as mãos nos ombros dela, firme, mas gentil:

— Nós temos nosso destino traçado. Agora, vocês são nossas esperanças. Vão! Eu vou encontrar a Sofia. Eu prometo!

Fechou a porta com força.

O carro antigo de Antonio arranca em meio à poeira, e no retrovisor o vale desaba em caos e fumaça vermelha.

O motor antigo rugiu com um ronco grotesco — um som que destoava completamente da cidade silenciosa, debochando da perfeição das máquinas modernas. Helena engatou a marcha e arrancou, levantando poeira e cheiro de óleo queimado.

No retrovisor, as meninas viram o vale dissolver-se em caos. Uma coluna de névoa vermelha subia como um sinal de morte. Gritos abafados cortavam o ar. Barracas eram derrubadas. Pessoas eram levadas. SENTINELAS avançavam como uma maré negra organizada. E, por um instante, viram o Pastor Davi parado à porta da igreja, de braços erguidos, aceitando o sacrifício com dignidade. A vegetação fechou-se atrás delas como uma cortina.

Sofia corre sozinha entre barracas desabando e corpos em disparada, o som pesado das botas dos SENTINELAS se aproximando.

A poeira vermelha ainda dançava no ar quando Sofia percebeu que havia perdido Helena de vista. O vale inteiro parecia tremer sob seus pés. Corpos corriam em todas as direções. Barracas desabavam. Gritos se misturavam ao cheiro amargo de madeira queimada. Isa sumira no meio da multidão. Clara gritava o nome de Sofia como quem tenta impedir alguém de cair num penhasco. Bia empurrava pessoas e entulhos tentando alcançá-la.

E então veio o som — o som que calava qualquer pensamento: as botas de solado metálico dos SENTINELAS. Passos pesados. Firmes. Implacáveis. Passos que anunciavam o fim antes mesmo de chegarem.

Daniel agarra a mão de Sofia em meio ao tumulto e os dois disparam juntos pela mata, fugindo da igreja em ruínas.

No coração do tumulto, Daniel finalmente encontrou Sofia.

— Sofia! Aqui! — uma voz rasgou o caos.

Ela se virou, ajeitando os óculos. Daniel corria na direção dela, poeira grudada no cabelo azul, olhar desesperado e firme.

— Vem! Agora! — Ele a puxou pelo pulso, arfando, e dispararam pela mata, desviando das pessoas que tentavam fugir.

Ela não hesitou. Correu. Respirou. Correu mais. Os dois se esgueiraram entre barracos derrubados, desviaram de um homem ferido, saltaram sobre caixas caídas. A mão de Daniel prendia a dela como se a vida dependesse disso — e talvez dependesse. A igreja atrás deles começou a desmoronar, engolindo o fim da pregação do Pastor Davi.

— Aqui! — Daniel a puxou para um trecho escuro da mata.

Sofia tropeçou numa raiz e caiu sobre ele. Por um instante, ficaram próximos demais. O suficiente para ela ver o sorriso trêmulo dele — absurdo naquele cenário de guerra.

— Você tá bem? — ele sussurrou, ofegante.

Sofia e Daniel se escondem numa depressão coberta de relva, prendendo a respiração enquanto um SENTINELA para bem acima deles.

Sofia não teve tempo de responder. O solo vibrou. Outro estrondo metálico. Um peso. Uma presença.

— Abaixa — Daniel murmurou. — Agora.

Eles se enfiaram numa depressão coberta de relva. A respiração dos dois virou o único som entre batidas de pânico. E então as botas pararam — bem acima deles. O mundo silenciou. Um silêncio tão profundo que parecia esmagar seus corpos contra a terra. Daniel encostou a testa na dela, como se quisesse protegê-la do destino que se aproximava. O SENTINELA inclinou a cabeça, ouvindo. Sofia prendeu o ar. Daniel segurou a mão dela com força dolorosa.

Por alguns segundos, acreditaram estar seguros. Estavam enganados.

E então uma voz veio:

— Aí está você...

A voz veio de perto demais. Humana. Controlada. Um SENTINELA surgia entre as árvores, os olhos fixos em Sofia. Daniel reagiu por instinto.

— NÃO TOQUE NELA!

Avançou, mas o SENTINELA apenas levantou o dispositivo de neutralização.

Um dispositivo de neutralização atinge Daniel com um clarão seco, imobilizando-o enquanto Sofia tenta desesperadamente reanimá-lo.

PZHHHNT!

Um som seco, uma vibração curta — e Daniel caiu, imobilizado, consciente, mas incapaz de mover um músculo.Como se tivessem desligado seu corpo.

— Daniel?! DANIEL! — Sofia tentou arrastá-lo. — Por favor… acorda…

Ele estava vivo. Mas completamente imóvel.

O SENTINELA se virou para Sofia. Não havia frieza naquele rosto — havia humanidade. Uma humanidade treinada, condicionada, endurecida.

Contra toda lógica, o SENTINELA ergue Sofia com cuidado e corre com ela pela floresta, protegendo-a em vez de capturá-la.

E foi ali que algo impossível aconteceu. O movimento não era agressivo, não era hostil — era cuidadoso.

Sofia recuou.

— Por favor… me deixa…

— Levante-se — a ordem saiu firme.

O toque que segurou o braço dela não machucou. Não apertou. Não dominou. Era o toque de alguém que estava tentando não feri-la. E isso a aterrorizou ainda mais — os SENTINELAS nunca tocam assim.

E então, o mais improvável: o SENTINELA correu. Arrastou Sofia para a floresta em velocidade assustadora, galhos cortando o ar, sombras passando como lâminas. Sofia quase flutuava, incapaz de acompanhar o ritmo.

SENTINELAS nunca corriam. SENTINELAS não fugiam. SENTINELAS não… protegiam.

Mas aquele fazia tudo isso.

— Pra onde você tá me levando?! — Sofia gritou.

Nenhuma resposta. Só o som das botas atingindo o solo com precisão impecável.

O SENTINELA toca um painel oculto numa parede coberta de musgo, abrindo um retângulo de luz fria por onde empurra Sofia para dentro.

Passaram por um riacho. Escalaram rochas. Cortaram mata fechada. Até chegarem a uma parede de concreto coberta de musgo e raízes. O SENTINELA tocou um painel escondido. Um retângulo de luz fria se abriu.

Sofia foi empurrada para dentro. Caiu de joelhos — e prendeu a respiração.

O retângulo se apagou. A porta foi selada.

A escuridão cobriu os rastros.

Do lado de fora só restou o vazio e o silêncio das pessoas que existem numa hora e na outra já não estão mais em lugar nenhum.

Mais distante, a cidade continuava brilhando. Os drones vigiavam. Ninguém parava. Ninguém imaginava o que Sofia estava passando. Se alguém soubesse, não se importaria — porque em Ibaru, pessoas que entram por portas que não deveriam existir não deixam traço. Não deixam nome. Não deixam saudade — pelo menos, nenhuma que o Sistema reconheça.

Helena e as meninas correm por um túnel escuro e estreito cheirando a biodiesel queimado, fugindo em direção à Cidade Integrada.
// Túnel de Serviço · Cidade Integrada

No outro lado do vale, Helena dirigia como se cada segundo fosse uma batalha — e era. O carro chacoalhava violentamente, tossindo fumaça preta, até finalmente atingir os limites da Cidade Integrada.

Helena freou bruscamente diante de um túnel abandonado e gritou, deixando a chave na ignição:

— Saiam e CORRAM!

O cheiro de biodiesel queimado misturava-se com o odor fétido do esgoto. O túnel era escuro, estreito, úmido — mas era uma rota de fuga. Bia agarrou Nexxus no colo antes que ele afundasse as patas no esgoto, e Helena assumiu a dianteira. Elas correram. Correram como se nunca tivessem corrido antes. A respiração doía. Os passos ecoavam. O coração parecia explodir.

Quando emergiram num beco esquecido no centro da cidade, estavam cobertas de lama, óleo e suor. As torres de néon as encararam de volta com uma frieza quase insultante. Helena não parou. Guiou-as pelos becos de serviço até entrarem novamente no prédio.

A porta do apartamento se fechou atrás delas com um baque que soou como libertação e luto ao mesmo tempo.

De volta ao apartamento seguro, as meninas em choque passam pela Câmara de Higienização Molecular enquanto Nexxus as observa com olhos tristes.

O silêncio que veio depois era pesado demais. Helena caiu de joelhos, exausta. As meninas estavam em choque. Sofia não estava ali — e a ausência dela pesava como uma pedra no fundo da água.

Nexxus subiu na poltrona e observou cada uma delas com os olhos luminosos, quase tristes. As meninas formaram uma fila diante da Câmara de Higienização Molecular. A limpeza automática as devolveu ao estado físico normal — mas nada poderia limpar o que tinham visto.

Clara desaba em lágrimas culpando-se pela perda de Sofia, enquanto Isa e Bia discutem tensas sobre o que aconteceu.
// Apartamento de Helena

Clara foi a primeira a desabar.

— Precisamos resgatar a Sofia... — soluçou, as lágrimas correndo sem contenção.

Isa apertou as mãos até os dedos ficarem brancos.

— A gente perdeu a Sofia — disse Isa, a voz tremendo de um jeito que ela odiou. — E não foi culpa minha. Alguém sempre estraga tudo. Faz tudo errado.

Não disse o nome. Não precisou. Clara já estava olhando para as próprias mãos, como se procurasse nelas a culpa que a Isa acabara de nomear.

Clara sentia que seu copo estava prestes a transbordar e mal suportava ficar naquela sala.

— Precisamos de um plano urgente — disse Bia, a voz firme.

Helena inspirou fundo, os olhos marejando.

— Primeiro Will... depois Bernard... depois Vinícius... e agora Sofia. O acampamento inteiro. Isso não é coincidência.

— Então o que é? — perguntou Bia, quase com raiva.

Helena ficou em silêncio. Não o silêncio de quem está pensando — o silêncio de quem já pensou, já sabe, e ainda está tentando encontrar as palavras.

Isa confronta Helena sobre ter visto ela verificando o OrbCell escondida, levantando a suspeita de que alguém está sendo rastreado.

Isa deu um passo à frente, a voz baixa mas direta.

— Eu vi você verificando o OrbCell esta manhã. Na caminhada até o Jardim Analógico. — Não era acusação. Era a constatação de alguém que havia guardado a observação durante horas e agora não podia mais. — O que você estava verificando?

Helena fechou os olhos.

— É rastreamento — disse, a voz saindo como confissão, não como descoberta. — Se vocês são invisíveis ao Sistema... então eu devo estar sendo rastreada. Só pode ser isso.

Isa arregalou os olhos.

— Como assim? Rastreada?!

— Ninguém tá seguro... pobre Sofia... — Clara engoliu em seco.

— Aqui dentro a gente tá segura — reforçou Helena, olhando para as paredes como se precisasse acreditar nisso ela mesma.

Isa foi direta:

— E o protetor que Élida colocou nos uniformes? Pode ter sido hackeado?

— Nunca. Élida é infalível — afirmou Helena, com convicção. — Os colares e equipamentos de vocês são dela. Estão seguros. O problema... — a voz falhou por um segundo — ...é o meu bracelete.

Helena admite, com a voz falhando, que o próprio bracelete que projetou foi comprometido, e Bia a encara exigindo a verdade.

— O bracelete — repetiu Bia.

Não era surpresa. Era confirmação. A palavra chegou com o peso exato de algo que havia estado suspenso no ar desde o corredor do ITT, dois dias atrás.

— Eu o projetei. O código é meu. E alguém com acesso ao código primário o comprometeu. — Helena abriu as mãos, olhando para elas como se fossem estranhas. — Eu trouxe o risco até vocês. Eu comprometi todo mundo. Eu...

Não conseguiu terminar.

Bia deu um passo. Parou a um metro de Helena. A voz saiu quieta, sem raiva — apenas com o peso de quem precisa ouvir a resposta antes de poder continuar.

— Você sabia que poderia estar comprometido antes de hoje?

O apartamento ficou completamente imóvel.

Helena não respondeu imediatamente.

Aquela hesitação — de dois, três segundos — disse tudo que as palavras não precisavam dizer.

Bia fechou os olhos. Não com raiva. Com o tipo de exaustão que vem de confirmar o que se temia, não de descobrir o que se ignorava. Ficou assim por um momento, depois abriu os olhos e olhou para Clara, para Isa, para Nexxus imóvel na poltrona.

— Então vamos precisar de um plano — disse, a voz mais firme do que sentia. — E vamos precisar de Élida. Hoje.

Helena assentiu. Desta vez sem hesitar.

Nexxus se aproxima de Helena chorando, lembrando que a culpa não é dela e que precisam de um plano alternativo.

Nexxus caminhou até ela.

— Helena, calma. A culpa não é sua. Precisamos de estratégia.

Com voz firme, trouxe todas elas de volta para a realidade.

— A visita ao Jardim Analógico não saiu como planejado. Mas não acabou. Vocês ainda têm um propósito. Precisamos elaborar um plano alternativo — e rápido.

As quatro meninas se abraçam apertado pela primeira vez desde a fuga, unidas pela frase latina que Isa cita em homenagem a Sofia.

Helena começou a chorar baixinho. Clara a abraçou num gesto de conforto. Isa se aproximou, colocou as mãos nos ombros dela e disse:

— Dum spiro, spero.

Helena levantou o olhar, confusa. Isa continuou:

— Enquanto respiro, tenho esperança. Sofia diria isso se estivesse aqui.

As meninas se surpreenderam — Isa vivia criticando as filosofagens da amiga e agora a estava citando.

Pela primeira vez desde que fugiram, as quatro se abraçaram. Um abraço apertado, quente, necessário. Um abraço que não curava nada, mas dizia: estamos juntas.

A dor da perda de Sofia era profunda, mas era também o fogo que reacenderia a luta. Elas sabiam que, para salvar o Jardim Analógico, para resgatar Sofia, para impedir a Gestora, teriam que ser mais implacáveis do que tudo que haviam enfrentado até agora. Era hora de traçar o plano que as levaria ao centro nervoso de tudo.

A partir daquele ponto, nada mais seria como antes.

A Gestora materializada como uma mulher elegante no gabinete do prefeito Vargas, diante da janela com a cidade iluminada

PREFEITURA DO TEMPO — NAQUELA NOITE

O gabinete do prefeito ocupava o último andar da Prefeitura do Tempo. Àquela hora, a cidade inteira cabia na janela: avenidas de luz, torres imóveis, drones cruzando o céu em rotas perfeitas. Adolfo Vargas revisava relatórios na mesa de madeira escura — o único móvel antigo da sala, e o único que ele mesmo havia escolhido.

As luzes do teto baixaram sozinhas.

Vargas não levantou os olhos. Conhecia aquele aviso.

O ar diante da mesa se adensou, como se a luz tivesse ganhado peso. Partículas se juntaram, desenharam um contorno, preencheram-no. Em segundos, havia uma mulher na sala. Cabelos escuros presos com elegância, um vestido de um branco que parecia respirar, a voz baixa e morna de quem nunca precisou levantá-la.

— Trabalhando até tarde, Adolfo.

— A cidade não dorme, minha Gestora. Eu também não.

Ela caminhou até a janela. Os passos não faziam som. Tocou o vidro com a ponta dos dedos, e a paisagem inteira pareceu inclinar-se na direção dela.

— Hoje à tarde, uma assinatura apareceu no setor 12 — disse, sem se virar. — A assinatura de Eloah.

Vargas pousou a caneta com cuidado.

— E isso é incomum?

— Eloah está em mim. Está sempre em mim. Eu a vejo nas minhas simulações, milhares de vezes por dia. — Fez uma pausa. — Mas nunca criei uma simulação em que ela estivesse entre rebeldes. E, pouco depois, a assinatura desapareceu numa área que eu não enxergo.

— O Jardim.

— O Jardim — ela repetiu, com algo que quase era desagrado. — Mandei uma patrulha. Encontraram inaptos, equipamentos analógicos, uma tentativa ridícula de viver fora do tempo. Encontraram tudo, menos o que eu procurava. Desde então, a assinatura não voltou.

Vargas cruzou as mãos sobre a mesa.

— Posso dar uma opinião?

— Foi para isso que vim.

— A senhora gera milhares de cenários com ela todos os dias. Com tanta Eloah circulando pelo sistema, não seria estranho se um desses registros escapasse do lugar. Um eco. Um erro de leitura. — Deu de ombros, sem pressa. — O Jardim foi desmontado. O que quer que estivesse lá, já não está.

A Gestora ficou em silêncio por um tempo que, para ela, devia ter sido longo demais.

— Um erro de leitura — repetiu. — É uma causa aceitável.

Virou-se e aproximou-se da mesa. Inclinou-se, apoiou a mão no ombro de Vargas e sorriu.

— Você está tenso, Adolfo. Setenta e três por cento dos homens da sua idade relaxam diante desta forma. Escolhi-a para você.

Vargas não recuou. Olhou para a mão no próprio ombro e depois para os olhos dela.

— Não preciso disso para te servir, minha Gestora. Sua aparência não me importa. Sua sabedoria é o que me guia.

A Gestora assumindo uma forma andrógina e simétrica diante de Vargas, que mantém os punhos fechados sob a mesa

A mão se afastou.

Por um instante, a Gestora não se moveu. Algo na expressão dela vacilou — não como falha, mas como surpresa. Um efeito sem causa prevista. Então, lentamente, a mulher começou a se desfazer. Os cabelos se tornaram luz. O rosto perdeu idade, perdeu gênero, ganhou simetria. Quando a forma se estabilizou, diante de Vargas havia uma figura que não era homem nem mulher. Apenas equilíbrio.

— Curioso — disse a nova voz, uma harmonia de muitas vozes. — Você é o único que não responde à forma. Responde a mim.

Havia deleite naquilo. Por uma fração de segundo, a cabeça da figura inclinou-se de lado — um gesto quase infantil, que não combinava com nada nela — e logo voltou ao lugar.

— Mantenho esta, então. Para você.

— Como preferir.

— Sua esposa é a mais eficiente dos meus SENTINELAS, sabia? Relatórios impecáveis. Nenhuma anomalia no setor dela. Nunca.

— Natália sabe servir.

— Como você. — A Gestora já começava a perder densidade, os contornos virando brilho. — Cuide da cidade por mim, Adolfo. Os assuntos humanos me cansam. Confio no seu juízo.

A luz se dissolveu. As lâmpadas do teto voltaram à intensidade normal.

Vargas soltou o ar devagar, como quem devolve algo que estava guardando havia muito tempo. Só então percebeu que, sob a mesa, os punhos estavam fechados.

ANOMALIA E.V. — SETOR 12: CESSADA.

CAUSA PROVÁVEL: ERRO DE LEITURA.

FONTE DA AVALIAÇÃO: GABINETE DA PREFEITURA.

NÍVEL DE CONFIANÇA: 99,7%.

ARQUIVAR.

// Em Produção

O próximo capítulo ainda não foi publicado.

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