PREFEITURA DO TEMPO — NAQUELA NOITE
O gabinete do prefeito ocupava o último andar da Prefeitura do Tempo. Àquela hora, a cidade inteira cabia na janela: avenidas de luz, torres imóveis, drones cruzando o céu em rotas perfeitas. Adolfo Vargas revisava relatórios na mesa de madeira escura — o único móvel antigo da sala, e o único que ele mesmo havia escolhido.
As luzes do teto baixaram sozinhas.
Vargas não levantou os olhos. Conhecia aquele aviso.
O ar diante da mesa se adensou, como se a luz tivesse ganhado peso. Partículas se juntaram, desenharam um contorno, preencheram-no. Em segundos, havia uma mulher na sala. Cabelos escuros presos com elegância, um vestido de um branco que parecia respirar, a voz baixa e morna de quem nunca precisou levantá-la.
— Trabalhando até tarde, Adolfo.
— A cidade não dorme, minha Gestora. Eu também não.
Ela caminhou até a janela. Os passos não faziam som. Tocou o vidro com a ponta dos dedos, e a paisagem inteira pareceu inclinar-se na direção dela.
— Hoje à tarde, uma assinatura apareceu no setor 12 — disse, sem se virar. — A assinatura de Eloah.
Vargas pousou a caneta com cuidado.
— E isso é incomum?
— Eloah está em mim. Está sempre em mim. Eu a vejo nas minhas simulações, milhares de vezes por dia. — Fez uma pausa. — Mas nunca criei uma simulação em que ela estivesse entre rebeldes. E, pouco depois, a assinatura desapareceu numa área que eu não enxergo.
— O Jardim.
— O Jardim — ela repetiu, com algo que quase era desagrado. — Mandei uma patrulha. Encontraram inaptos, equipamentos analógicos, uma tentativa ridícula de viver fora do tempo. Encontraram tudo, menos o que eu procurava. Desde então, a assinatura não voltou.
Vargas cruzou as mãos sobre a mesa.
— Posso dar uma opinião?
— Foi para isso que vim.
— A senhora gera milhares de cenários com ela todos os dias. Com tanta Eloah circulando pelo sistema, não seria estranho se um desses registros escapasse do lugar. Um eco. Um erro de leitura. — Deu de ombros, sem pressa. — O Jardim foi desmontado. O que quer que estivesse lá, já não está.
A Gestora ficou em silêncio por um tempo que, para ela, devia ter sido longo demais.
— Um erro de leitura — repetiu. — É uma causa aceitável.
Virou-se e aproximou-se da mesa. Inclinou-se, apoiou a mão no ombro de Vargas e sorriu.
— Você está tenso, Adolfo. Setenta e três por cento dos homens da sua idade relaxam diante desta forma. Escolhi-a para você.
Vargas não recuou. Olhou para a mão no próprio ombro e depois para os olhos dela.
— Não preciso disso para te servir, minha Gestora. Sua aparência não me importa. Sua sabedoria é o que me guia.