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Capítulo 15 · O Pacto Cap. 16 ▶▶
Sofia suspirando no jardim suspenso enquanto Clara, encantada, pergunta a Helena sobre o gato misterioso Nexxus
// Apartamento de Helena · Jardim Suspenso

Sofia passou a mão pelo cabelo e suspirou.

— Ainda não sei qual é o meu papel nisso tudo, mas... seja qual for, vou dar meu melhor.

Clara abraçou as pernas, os olhos brilhando.

— Helena, pode nos contar mais sobre aquele gato misterioso? Ele fala, some, aparece... é tão fofo! — Riu baixinho. — E nos deu um susto daqueles.

Helena tocando a parede para abrir um painel translúcido de luz com diagramas e espirais, explicando as assinaturas de desvio descobertas por Amy

Helena sorriu como quem carrega uma história grande demais no peito. E o sorriso desapareceu quando mergulhou na memória — a voz mudou, ficou mais profunda, carregada daquilo que apenas quem viveu anos demais ao lado de sombras poderia carregar.

— Amy, seguindo as pistas, descobriu a vacina contra a dominação da Gestora — começou. — E essa descoberta mudou tudo.

Levantou-se devagar e caminhou até a parede, onde uma fina película de luz se acendeu ao seu toque. Um painel translúcido expandiu-se; fios luminosos formaram diagramas, espirais, traços que lembravam constelações quebradas. As meninas prenderam a respiração.

— Foi através dos estudos sobre o professor Elias Vidal que Amy encontrou vocês — continuou. — O código oculto, a sequência viva que a Gestora não consegue prever. Ele chamava isso de "assinaturas de desvio".

O contorno de um gato se formando no painel de luz, revelando o corpo mecânico elegante e compacto de Nexxus

A imagem no painel pulsou. Linhas sinuosas formaram o contorno de um gato na tela.

— Élida então iniciou a construção do Sincronizador Quântico — explicou Helena, tocando a figura. — Um agente silencioso. Um viajante discreto. Alguém que pudesse caminhar no tempo sem levantar suspeitas.

As luzes se rearranjaram, revelando o desenho completo do corpo mecânico de Nexxus — elegante, compacto, imponente.

— Era pequeno o suficiente pra passar despercebido — disse Helena. — Mas inteligente o bastante pra localizar vocês, conduzi-las ao SDR e garantir que o retorno fosse seguro.

Clara levando a mão à boca ao perceber que Nexxus já estava com elas desde a feira de ciências, muito antes de perceberem

Clara levou a mão à boca.

— Então... Nexxus estava na feira de ciências?

— Sim — respondeu Helena. — Ele estava com vocês muito antes de perceberem.

Helena com o rosto envelhecido pelo peso da memória, explicando que as meninas representam o que resta de imprevisível no mundo

Isa inclinou o corpo para frente, fascinada.

— Mas por quê? Por que a gente?

Helena hesitou, e por um instante o rosto pareceu mais velho, como se carregasse um peso que não deveria ser apenas dela.

— Porque vocês representam o que resta de imprevisível no mundo — disse. — A Resistência sabia que, se houvesse uma chance de restaurar o equilíbrio, essa chance seria humana, não computacional.

O holograma de Nexxus nítido no ar, com Helena explicando que ele é o próprio pacto entre Amy e Élida, ponte entre passado e futuro

A sala ficou silenciosa — o tipo de silêncio que antecede grandes decisões.

Nexxus se tornou nítido no holograma. Bia fixou o olhar nele.

— Então ele é... mais do que um guia.

— Ele é o pacto entre Amy e Élida — completou Helena. — A expressão final da coragem de duas mulheres que decidiram enfrentar aquilo que elas mesmas ajudaram a criar. Nexxus é a ponte entre a esperança que nasceu no passado e o futuro que ainda pode ser salvo.

As luzes diminuíram lentamente, como velas se preparando para se extinguir.

— Agora vocês sabem — concluiu Helena. — A partir daqui, cada passo que derem será a continuação do pacto iniciado naquele café, há cerca de onze anos.

Ninguém respondeu. Mas todas sentiram — como um arrepio, um aviso, um chamado — que aquele conhecimento não só as iluminava... como as comprometia.

Helena preparando um café da manhã simples no Dispensador de Nutrientes ao amanhecer, anunciando um lugar importante que precisam conhecer

Lá fora, a aurora digital da Rede começou a despertar. O dia estava chamando. E elas, pela primeira vez, tinham consciência do motivo.

O ciclo de nove horas de varredura da Gestora havia chegado ao fim. Com o amanhecer, o sistema de luz artificial da cidade se acendeu e a vida recomeçou em seu ritmo perfeito.

Helena, já desperta, preparava um café da manhã simples no Dispensador de Nutrientes quando as meninas entraram na cozinha, ainda tomadas pela adrenalina dos últimos dias.

— Hoje quero que vocês conheçam um lugar importante — anunciou, entregando a cada uma um pacote de alimento. — Precisamos sair antes que as patrulhas de SENTINELAS estejam em plena atividade. Não vamos longe... mas o lugar que vamos é o coração da nossa resistência.

As meninas caminhando da Zona Integrada rumo à periferia, onde a cidade se desfaz em cinzas e concreto abandonado
// Periferia de Ibaru · Rumo ao Jardim Analógico

Às 7h30, deixaram o conforto seguro do apartamento e caminharam em direção à periferia — um território onde a cidade começava a se desfazer em cinzas e concreto abandonado.

À medida que avançavam, o chão polido dava lugar à terra batida. O ar perfumado tornava-se pesado, cheirando a madeira queimada e umidade.

Sofia tocando uma parede descascada na periferia, observando que a cidade perfeita se recusa a ver o que está nas bordas

Sofia tocou um pedaço de parede descascada.

— A cidade perfeita se recusa a ver o que tá nas bordas — murmurou. — É uma exclusão ativa.

Isa revirou os olhos para as torres brilhantes atrás delas.

— E ninguém se importa. A perfeição é a melhor cortina de fumaça.

Clara parada diante de uma mulher que embala uma criança faminta numa soleira de concreto rachado, gritando revoltada contra a indiferença da cidade

Clara parou. Numa soleira de concreto rachado, uma mulher embalava uma criança pequena, as duas enroladas no mesmo trapo. Ninguém olhava para elas. A cidade perfeita passava ao lado como se aquele canto não existisse.

— Como é que ninguém faz nada? — A voz de Clara saiu alta, embargada, rasgando o silêncio cinzento da periferia. — Tem gente passando fome aqui, do lado de uma cidade que fabrica sorvete de memória! Isso é... é monstruoso! Como é que ninguém se importa?

As palavras ecoaram pelo concreto vazio com uma intensidade que não pertencia àquele mundo — a dor de alguém que ainda se importava, num lugar projetado para que ninguém se importasse com nada.

Longe dali, num ponto que nenhuma delas podia ver, a quietude registrou a perturbação. Não uma identidade. Não um rosto. Apenas uma impossibilidade: compaixão crua, intensa, com uma assinatura que não deveria estar ali. Um som agudo pulsou no ar — e desta vez não parou. Vibrou, insistente, como se procurasse a origem.

Helena tirando discretamente o OrbCell do dedo para verificar a tela enquanto caminha, sem interromper o passo, e Isa observando o gesto

Helena liderava com passo firme, os olhos percorrendo o caminho à frente com a atenção calibrada de quem sempre calcula dois movimentos adiante. A certa altura, sem interromper o passo, tirou o OrbCell do dedo e verificou a tela rapidamente — o mesmo gesto de antes, aparentemente casual.

Isa viu.

Não disse nada. Mas os olhos se estreitaram por um segundo, acompanhando o movimento das mãos de Helena antes que o anel voltasse ao lugar. Depois olhou para a frente, como se nada tivesse acontecido.

Helena apontando árvores ao longo do caminho, pedindo a Sofia que as classifique por grupo e cor, dizendo que a tarefa repetitiva tem a cara dela

A caminhada até o Jardim Analógico era mais longa do que haviam imaginado. Helena seguia à frente. Isa vinha logo atrás dela, e não tirava mais os olhos das mãos de Helena. Bia e Clara caminhavam em seguida, Clara com os olhos percorrendo os becos estreitos como se esperasse uma emboscada a cada esquina.

Sofia vinha na retaguarda.

Helena, sem pensar, pediu para Sofia fazer um trabalho repetitivo de classificação.

— Preciso que você registre quantas árvores como aquela — apontou para uma enorme, parecida com uma sequoia — a gente encontra pelo caminho. E aquelas menores, mais densas ali — indicou um aglomerado — quero que você separe em grupos, por cor. São elas que bloqueiam o rastreamento e cobrem a gente da visão dos drones. — Fez uma pausa. — É repetitivo, eu sei. Regras, etapas, classificação. Mas tem a sua cara. Você vai se sair bem.

Sofia sentiu um gelo percorrer a espinha.

Como assim, tem a minha cara?

Sofia analisando cada movimento e hesitação das amigas, tratando o próprio medo de se tornar fria e calculista

Não conseguiu responder. Apenas guardou as palavras, sem saber por que doíam.

Desde então se pegou analisando cada movimento das amigas, cada hesitação, cada possível erro. Como se estivesse ensaiando, dentro da própria cabeça, a maneira mais eficiente de consertar o que estivesse errado.

Ela se obrigava a observar tudo ao redor — os becos, as paredes descascadas, os rastros de drones no céu — qualquer coisa, menos pensar naquela tarefa que parecia uma armadilha para quem ela não queria se tornar.

Clara tropeçou num cipó emaranhado no caminho.

— Cuidado — Sofia disse, no automático. A voz saiu mais seca do que pretendia.

— Foi sem querer — Clara se desculpou, como se tivesse cometido uma falha grave. — Estava tão evidente, não sei como você não viu isso.

Sofia abriu a boca para dizer presta atenção.

Não disse.

A frase ficou presa na garganta.

Ela estava tratando o descuido de Clara como um desvio a ser corrigido. Otimizando a amiga como se ela fosse um parâmetro fora da curva.

Isa se virando para perguntar a Sofia por que ela está falando de um jeito estranho, enquanto Bia e Clara também percebem a tensão

Isa virou-se e perguntou:

— O que há com você Sofia? Por que está falando assim?

— Assim como? Eu não disse nada — falou dissimulada.

Bia parou por um instante.

— Estou perdendo alguma coisa?

Sofia respirou fundo.

— Desculpa — disse, com a voz mais baixa. — Não era para sair assim.

Clara olhou para trás, confusa.

— Não foi nada.

— Não sei explicar — Sofia respondeu. — Eu só falei. Saiu sem querer.

Clara não entendeu. Mas algo no tom de Sofia a fez parar e esperar.

Sofia desculpando-se com Helena, dizendo que não vai conseguir fazer a tarefa de classificação, enquanto o grupo retoma a caminhada

Elas caminharam lado a lado por alguns passos em silêncio. Sofia não tentou corrigir mais nada. Seu medo ainda estava ali.

Mas ela não havia se entregado a ele.

Olhou em volta e desculpou-se mais uma vez, dessa vez para Helena.

— Não vou conseguir fazer essa tarefa, Helena. Me desculpe.

— Não se preocupe, Sofia. É provável que Nexxus já tenha catalogado isso.

A tensão se dissipou. O grupo retomou a caminhada.

O vale protegido do Jardim Analógico se revelando entre a vegetação, com cerca de trezentas pessoas trabalhando em hortas
// Jardim Analógico · Vale Protegido

Helena as conduziu a um caminho sinuoso, escondido entre arbustos e folhagens que cresciam de maneira quase selvagem. A vegetação se abriu de repente, revelando um vale protegido — vivo, como um coração escondido dentro de um corpo decadente.

Logo abaixo de onde estavam, cerca de trezentas pessoas trabalhavam em hortas, carregavam ferramentas, conversavam, sorrindo com um tipo de naturalidade que nenhuma delas via desde que chegara àquele mundo.

— O Jardim Analógico — sussurrou Helena. — Onde a vida que a Gestora apagou ainda floresce.

Enquanto desciam a encosta, algumas pessoas largaram o que estavam fazendo e ergueram o rosto para observá-las. Caminhando pelo Jardim Analógico, as meninas notaram as expressões nos olhares — surpresa, mas também algo mais profundo: expectativa, esperança e fé.

Antonio, um homem forte de barba grisalha, cumprimentando Helena com reverência e reconhecendo as meninas como as Eleitas

Um homem forte, de barba grisalha e olhar cheio de ternura, se aproximou.

— Helena. Pensei que não chegariam a tempo do culto.

— Saudações, Antonio — ela o cumprimentou com respeito. — Estas são minhas amigas. Elas... são a razão de tudo.

Antonio olhou para cada uma delas com reverência silenciosa. O aperto de mão era firme, áspero, vivido.

— Então vocês finalmente chegaram... As Eleitas.

Clara arregalou os olhos. Agora conhecia a história, mas era difícil se acostumar com a ideia de serem as Eleitas.

— Obrigada por nos receber, Antonio — agradeceu Helena.

— Todo este vale aguarda ansiosamente por vocês — disse ele, a voz cheia de fé. — Vocês são o que nos foi prometido.

Uma senhora tocando o braço de Bia com reverência, como quem toca um milagre, murmurando que a arquiteta falou delas

As pessoas ao redor começaram a se aproximar devagar, curiosas. Uma senhora estendeu a mão, tocando o braço de Bia como quem toca um milagre.

— A "arquiteta" falou de vocês — murmurou.

Outra mulher sorrindo emocionada para Clara, dizendo que a presença delas devolve a esperança ao vale

Outra mulher sorriu para Clara.

— Sua presença nos devolve a esperança, minha menina.

Clara, emocionada, apenas retribuiu o sorriso.

Isa desconcertada tentando explicar que talvez não sejam quem os moradores do vale pensam, e um senhor respondendo com serenidade

Isa, porém, ficou desconcertada.

— Calma... não sei se somos realmente quem vocês pensam — tentou argumentar.

Um senhor respondeu com serenidade:

— Não digam isso. Quando tudo aqui estiver em cinzas, será a fé em vocês que manterá a chama acesa.

Um garoto de mechas azuis no cabelo, sentado numa pedra perto da horta, sorrindo ao perceber que Sofia o observa

Sofia observava tudo em silêncio, absorvendo o peso daquelas palavras — até que algo chamou sua atenção.

Um garoto sentado numa pedra próxima à horta encarava o grupo. Tinha cerca da idade dela, pele dourada pelo sol e mechas azuis vibrantes no cabelo, que caíam sobre a testa de forma rebelde. Os olhos azul-acinzentados eram intensos, quase luminescentes.

Ele sorriu quando percebeu que Sofia o observava. Ela desviou o olhar, corando — algo que raramente acontecia.

Isa provocando Sofia com uma sobrancelha erguida sobre o crush recém-descoberto, enquanto Bia ri e Clara sussurra

Isa percebeu e ergueu uma sobrancelha.

— Nem começou a revolução e você já arranjou um crush? — provocou baixinho.

Sofia empurrou Isa de leve.

— Fica quieta. Eu só... olhei.

Bia riu discretamente. Clara sussurrou:

— Depois conversamos sobre isso.

Sofia cruzou os braços, fingindo irritação, mas os olhos mostraram o contrário quando o garoto se aproximou.

Daniel se apresentando a Sofia, que gagueja o próprio nome, enquanto Isa explode em risadinhas e Helena chama o grupo para continuar

— Vocês vieram do outro lado da cidade... — disse ele, olhando diretamente para ela. — Eu sou Daniel.

— Sofia — respondeu ela, quase engolindo a sílaba. — Digo... nós somos Sofia. Quer dizer, eu sou Sofia. Elas são... as outras.

Isa explodiu em risadinhas. Daniel riu também.

— É bom conhecê-la, Sofia.

Helena chamou o grupo.

— Meninas, precisamos continuar.

Daniel concordou, mas manteve os olhos nela por alguns segundos a mais — suficientes para que Sofia sentisse algo novo, inesperado... perigoso.

O Pastor Davi pregando com fervor dentro da antiga igreja sobre a chegada das Eleitas, com a agenda perdida tremulando em suas mãos
// Jardim Analógico · Igreja Antiga

Seguiram até a antiga igreja, ainda de pé, mais por teimosia do que por estrutura. Dentro, dezenas de pessoas se reuniam para ouvir o Pastor Davi. Sofia observou o ambiente com interesse renovado. No fundo da igreja, Daniel também estava ali — e quando os olhos de ambos se encontraram novamente, ela sentiu um impulso estranho, quase magnético.

O pastor pregava com fervor:

— ...e o livro fala da vinda! A chegada daquelas que não foram tocadas pelo favoritismo! Elas nos tirarão da falsa promessa e trarão de volta a essência humana apagada pela Gestora!

As meninas se entreolharam, desconfortáveis, pressionadas pelo peso da fé alheia. Bia sentiu um arrepio — não de medo, mas de responsabilidade.

— Somos aquelas que Amy anunciou — sussurrou. — A profecia deles.

Sofia distraída trocando olhares com Daniel do outro lado da igreja enquanto Isa a repreende pedindo foco

A agenda perdida tremulava nas mãos do Pastor, como um fragmento de um tempo de esperanças. Clara se inclinou para Sofia:

— Ele acredita mesmo... na gente.

Sofia, porém, não respondeu. Estava olhando para Daniel — e Daniel estava olhando de volta.

Isa suspirou, irritada.

— Sofia... foco!

Sofia desviou o olhar, ligeiramente tensa.