Sofia viu sua vida transformada num algoritmo. Classificar. Registrar. Arquivar. Repetir. Repetir. Repetir. O tempo não passava — se acumulava. O coração dela doeu como se uma agulha gelada a atravessasse.
— Então é isso...? — pensou, sentindo o desespero crescer na garganta. A rotina repetitiva é a prisão onde as ideias morrem, onde o sentimento humano é um luxo extinto.
O reflexo inclinou-se pra frente, olhos opacos.
— Você vai mentir. Vai enganar, vai perder seus amigos e, quando cair, me encontrará à sua espera.
— Não — ela disse, colocando a mão no peito. — Eu tenho escolha. Tenho consciência. E vou lutar pra nunca me tornar você.
O reflexo projetou um sorriso apagado e sussurrou, com a voz oca:
— A poesia é ruído... A ética é inconveniência... A liberdade é entropia social...
Sofia sentiu o chão interno tremer. Seu maior medo estava ali: tornar-se burocrática, fria, incapaz de empatia — uma serva eficiente de um sistema que ela não reconhecia como humano. Fechou os olhos, inspirou e falou com voz firme:
— Isso é só uma possibilidade... não um destino. Eu posso ser mais que isso. Eu serei a melhor versão de mim mesma.
A imagem trincou. Uma rachadura que atravessou toda a superfície. O cubículo se fragmentou em luz. E o espelho se desfez pra ela.