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Capítulo 24 · A Ilusão Cap. 25 ▶▶
Helena explicando às meninas que a Gestora interpreta a presença delas em Ibaru como apenas um glitch de simulação
// Laboratório de Amy · Instantes Antes da Conexão

As meninas começaram a compreender o que o código fazia por elas. Helena completou o raciocínio.

— Quando vocês caminham por Ibaru, ela interpreta aquilo como apenas mais uma simulação. Um glitch. Nada que mereça alerta.

— Então não somos invisíveis — disse Bia, lentamente. — Somos... um erro de processamento.

— O melhor erro que poderiam ser — completou Amy. — A própria Gestora, sem saber, está lhes dando cobertura.

As quatro meninas materializando-se num deserto digital infinito, Bia de joelhos com a areia-luz escorrendo entre os dedos
// Dentro da Rede Neurotaquiônica · O Deserto Digital

As ondas sonoras subiram. Ouviu-se um clique sutil — protocolo rodando. A luz tornou-se líquida, os sons esmaeceram. O ar pareceu convidar para a queda. Isa sentiu um puxão interno, como se algo a chamasse pelo cordão da alma. Amy disse, com os olhos brilhando:

— Agora!

Os olhos delas se fecharam. O som do vento sussurrava os nomes. A luz se dobrou. Sofia viu grãos de areia se formando — o primeiro vestígio da mente da Gestora. Todas tiveram a sensação de navegar, como barcos à vela empurrados por uma brisa invisível.

Um clarão intenso surgiu e, aos poucos, revelou o mundo atrás de uma cortina translúcida. Clara não sabia se tinha os olhos abertos ou fechados. A luz parecia brotar de dentro delas, instalada nas veias dos novos corpos digitais. Um som veio devagar — vento assobiando numa fenda estreita. De repente, sentiram o peso do próprio corpo. O chão tornou-se sólido. O calor brotava na pele. Bia caiu de joelhos, as mãos afundando na areia. Cada grão cintilava como cristal — frações de código materializadas. Ela apertou a areia entre os dedos; os grãos explodiram em luzes minúsculas, formando uma poeira digital que logo se dissipou.

Bia erguendo os olhos para dunas enormes sob um céu invertido de linhas de luz mutantes, uma rede neural pulsando no vazio

— Que lugar é esse? — murmurou Clara. A voz ecoou afinada, corrigida pelo ambiente.

Bia ergueu os olhos: dunas enormes, um deserto de geometrias simétricas. O céu aterrorizava — um oceano invertido e suspenso; em vez de estrelas, linhas de luz mutando constantemente. Uma rede neural pulsando livre no vazio.

Isa chutou a areia. Era leve demais. A perna pareceu flutuar, desafiando a física.

— Isso é… inacreditável!

— É a rede por dentro — disse Sofia, impressionada. — Um mundo totalmente diferente do nosso!

Clara testando a própria voz afinada pelo ambiente digital enquanto Sofia observa que tudo ali é recalculado com mais harmonia

Clara tocou a própria garganta, testando:

— Minha voz tá melhor, tipo afinada.

Sofia concordou:

— Parece que nada fica igual aqui. Tudo é recalculado, processado. Até os nossos corpos têm mais harmonia!

Bia respirou fundo:

— Não se afastem. A gente tem que ficar juntas. Aqui é fácil se perder.

Isa dando passos cautelosos que quase a fazem flutuar sobre a areia leve demais do deserto digital

Isa deu alguns passos cautelosos e parou:

— Gente, a gravidade tá louca. Tem hora que, em vez de andar, eu flutuo.

Sofia completou:

— Tenho a sensação de que, se eu saltar, posso sair voando.

Bia repetiu, frisando as palavras:

— Não se afastem… Não se empolguem demais. Temos que ficar atentas.

Dezenas de lobos humanoides translúcidos com luz vermelha rodopiando na cabeça descendo das dunas em direção às meninas

Mal terminou de falar, o vento ergueu uma faixa de partículas cintilantes que rolavam das dunas em espiral.

— O que são aqueles trecos brilhando? — perguntou Clara.

Ao olhar melhor, Isa avistou sombras por trás dos objetos — formas no topo de uma duna próxima. Depois outra, e mais outra. Sofia apontou:

— Vocês viram aquilo? Tem… forma de… lobos em pé?

A primeira sombra desceu, caminhando sem escorregar na areia, sem deixar pegadas. Eram lobos humanoides translúcidos, como manequins de vidro escuro. Dentro da cabeça transparente, uma luz vermelha girava — uma matriz de símbolos em neon rodopiando sem parar. Não estava sozinha. Dezenas — talvez centenas — desciam em direção a elas. Um exército de sombras.

Bia reconhecendo nas criaturas homens com cabeça de chacal, como o deus egípcio Anúbis, enquanto Sofia tenta racionalizar o perigo

Clara sussurrou, trêmula:

— São animais ou pessoas? Eles parecem… feitos de luz e sombras!

Bia lembrou das aulas de história:

— Parecem homens com cabeças de chacal… como aquele deus egípcio… Anúbis!

— São apenas projeções de dados — avaliou Sofia, tentando manter a calma. — Talvez não possam nos ferir de verdade…

Mas ninguém sentiu a mesma confiança. Isa recuou um passo, o corpo todo tenso, pronta para fugir. Foi o bastante.

Close de uma lâmina de vidro cortante passando a milímetros da orelha de Sofia e cortando um chumaço do seu cabelo curto

O ser mais adiantado esticou o braço. Com movimentos rápidos, lançou fragmentos que pareciam lâminas de vidro cortante. Um estilhaço passou a milímetros da orelha de Sofia, cortando um chumaço do cabelo curto.

— Corram! — gritou Clara, o pânico tomando conta.

Bia se colocando entre a criatura e Sofia com a mão erguida, enquanto lâminas de vidro cortante caem ao redor

Bia reagiu por instinto, colocando-se entre a criatura e Sofia. As lâminas caíam perto dos pés. Ergueu a mão direita, braço a noventa graus, e gritou:

— Pare! Não machuque a gente!

Isa posicionou-se ao lado dela, pronta para uma luta desigual. No mesmo instante, Clara falou em voz alta, quase chorando:

— Pobres criaturas. Devem estar seguindo ordens! — Com um nó na garganta, completou: — Se elas nos conhecessem, certamente não nos fariam mal — saberiam que somos boas pessoas.

Instantaneamente, vários fragmentos de lâminas explodiram no ar antes de alcançá-las. A luz vermelha na cabeça do ser tornou-se azul.

A luz vermelha na cabeça da criatura se apagando e virando azul, enquanto Sofia percebe que foi a empatia de Clara que a desarmou

Bia abaixou a mão devagar, confusa.

— O que… o que aconteceu? Por que ele parou?

Sofia deduziu rápido:

— Não foi você, Bia. Foi a Clara. O medo da Isa provocou a criatura… mas a Clara, com as palavras, demonstrou empatia. E foi isso que o desarmou.

Isa lembrou das orientações de Amy:

— Não lutem! Questionem, duvidem, façam o oposto do que ela espera. Foi exatamente isso que a Amy falou.

O exército de sombras aproximava-se cada vez mais. Eram muitos.

As quatro meninas caminhando calmamente de mãos dadas em direção ao exército de sombras, sem demonstrar medo

— Isa tem razão! — concordou Bia. — Eles esperam que a gente corra para nos atacar. Faremos o oposto. Vamos caminhar até eles, de mãos dadas, sem demonstrar medo. A gente pode conversar sobre coisas positivas e falar das belezas da paisagem.

— Pobres criaturas — falou Clara. — Desejo de coração que sejam libertas da dominação da Gestora.

Deram as mãos e começaram a caminhar calmamente em direção às criaturas. Poderia não ser um bom plano, mas era o único que tinham — correr significaria ser alcançadas em segundos.

Em pouco tempo, foram completamente cercadas. Permaneceram calmas e cumpriram o combinado. O calor do deserto tornou-se menos escaldante. Filamentos de cor se formaram ao redor delas. Um arco cromático espalhou-se como tinta líquida, voando em direção aos seres. Uma a uma, as luzes vermelhas nas cabeças dos outros homens-chacais tornaram-se azuis.

O deserto começou a florescer. A paisagem transformava-se.

O exército de sombras pacificado caminhando por um jardim que brotou nas dunas transformadas

Bia piscou, desconcertada:

— Está funcionando!

Sofia tocou o braço dela, sentindo a vibração:

— Estamos conseguindo!

— Inacreditável… eles não estão mais nos atacando — disse Isa, aliviada.

— A gente não precisou machucar ninguém… — sorriu Clara.

— Aqui tudo é percepção — disse Sofia.

O exército de sombras agora caminhava pacificamente pela paisagem, que se tornara um jardim misturado às dunas.

Por um instante, pareceu que tinha funcionado.

As meninas assustadas nas dunas douradas, Clara agarrada ao braço de Bia e Isa apontando uma silhueta envolta em brilho púrpura no alto de uma duna distante

Até que o chão mudou. Como se o deserto decidisse voltar a ser o que era. As criaturas desapareceram. O jardim evaporou. As dunas arquearam-se. O vento retornou — mais quente, mais duro, carregando um som distorcido: vozes atravessando um rádio quebrado.

Clara segurou o braço de Bia com força:

— A Gestora… só pode ser ela. Deve estar preparando um novo ataque!

Isa apontou para o alto de uma duna distante:

— Vejam — tem alguém nos observando.

Uma silhueta humana, mal definida, começou a caminhar na direção delas. O calor do deserto dificultava identificar a imagem.

O grupo foi tomado por uma sensação estranha — um vento gélido, como um sopro na nuca. Sofia perguntou:

— Vocês sentiram isso?

Sim, todas sentiram. Um frio percorrendo a espinha, contrastando com o calor ardente. O vento soprou mais forte, levando areia de luz para cima num turbilhão. A figura enigmática ainda caminhava na direção delas. Um brilho púrpura parecia emanar do corpo.

As quatro meninas fugindo pelas dunas douradas enquanto Sofia aponta uma fenda escura entre duas dunas; ao longe, a silhueta púrpura

De longe, dava para saber que era a silhueta de uma mulher.

Por onde passava, toda a paisagem colorida se dissolvia.

Tudo ao redor dela voltava a ser apenas um deserto monocromático.

Elas decidiram não esperá-la. Isa puxou o braço de Bia.

— Temos que sair daqui!

— Mas pra onde? — gritou Clara.

Foi Sofia quem apontou para baixo, entre duas dunas — uma fenda escura, uma pequena abertura.

— Ali! — gritou. — Parece a entrada de uma caverna!

As quatro meninas correndo desesperadamente em direção a uma fenda escura entre duas dunas, o deserto tremendo atrás delas
// A Fenda · Refúgio na Rede

Correram em direção à fenda. O deserto tremeu. E as quatro correram como jamais haviam corrido.

Enquanto corriam, sentiam a luz das areias sendo esmagada sob os pés, o vento raspando os rostos como vidro quente. Entraram na fenda. Lá dentro, silêncio absoluto — um corredor liso, frio, sem textura, como se o Sistema ainda não tivesse terminado de renderizar aquele espaço.

Quando pararam, ofegantes, Clara caiu de joelhos. Isa encostou-se no paredão opaco, vigiando a entrada. Bia explorava o ambiente e Sofia deslizava as mãos pelas paredes. No interior da caverna, descansaram. O lugar servia de proteção e, de alguma forma, transmitia tranquilidade.

As meninas descansando dentro da caverna silenciosa, sentindo pela primeira vez algo parecido com paz dentro da rede

— Esse lugar parece estar fora da rede — disse Bia, olhando ao redor.

— É um espaço vazio. Não combina com o outro cenário — disse Sofia, tocando a parede.

Pela primeira vez desde que entraram na rede, sentiam algo parecido com paz. Sofia fechou os olhos, como se meditasse.

Do fundo da caverna vinha um som distante, muito distante. Parecia a respiração serena de alguém dormindo.

— Estão ouvindo? — perguntou Isa.

— Sim — respondeu Bia — mas vamos ficar aqui por enquanto. Até… até a gente se recuperar.

Clara respirou fundo.

— Eu nem sabia que podia correr tanto.

Isa apoiada na parede da caverna, tensa, avisando que aquilo foi só o começo

Isa, ainda apoiada na parede:

— Isso… isso foi só o começo. Temos que estar preparadas. Sinto que vêm mais coisas por aí!

Sofia abriu os olhos.

— Isa tem razão. O centro da Gestora fica muito mais fundo. Ainda estamos na superfície da rede.

Bia encostou a cabeça na parede, tentando ouvir o que acontecia lá fora. O deserto parecia se reconfigurar — sons do vento reorganizando-se em códigos.

Sinto como se já conhecesse esse lugar… — pensou Bia.

O silêncio da fenda era tão profundo que parecia absorver até os pensamentos. Nenhum vento. Nenhuma partícula de luz. Nada, exceto as respirações delas e aquele som distante vindo do fundo da caverna.

Bia espiando pela abertura da fenda, mostrando às outras como o deserto lá fora parece o negativo invertido de uma foto

Bia se esticou para espiar pela abertura por onde haviam entrado.

— Olhando daqui, o deserto parece um negativo de foto — disse.

— Como assim? — quis saber Clara.

— Uma vez, meu pai me mostrou um. As áreas claras da cena original ficam escuras, e as escuras viram claras, com suas cores todas trocadas.

As outras meninas se aproximaram da fenda para olhar. Ficaram admiradas com a inversão total do mundo lá fora.

Voltando para o interior, respiravam devagar, o coração ainda acelerado pela fuga. Bia encostou a mão na parede fria. A superfície tinha algo estranho — um vazio que não pertencia nem ao mundo real, nem à mente da Gestora. Um refúgio? Um erro no sistema? O importante era que ali, por enquanto, estavam seguras.

Sofia andando de um lado para o outro na caverna, teorizando que a fenda é uma lacuna no processamento que a Gestora não percebe

Sofia andava de um lado para o outro, buscando lógica.

— A fenda é tipo uma lacuna no processamento — disse. — Como… um buraco no código.

— Um esquecimento — completou Isa, passando os dedos pela parede. — Um lugar que a Gestora não nota. Se notasse, já teria nos encontrado.

— Ou talvez seja um local que ela tentou apagar e não conseguiu de todo — acrescentou Clara.

— Ou um lugar em que, por algum motivo, ela não ousa entrar — murmurou Bia.

As quatro trocaram olhares. Um arrepio tácito percorreu o grupo. O que poderia haver ali dentro que assustasse até a Gestora?

Bia espiando aterrorizada centenas de criaturas amontoadas do lado de fora da entrada da fenda

Bia espiou lá fora novamente.

Desta vez, viu algo aterrorizante.

— Gente, eu não sei o que são, mas tem muitas criaturas bem próximas da entrada.

Olharam juntas. Dezenas, talvez centenas, amontoadas do lado de fora. Com a inversão de cores, ficava ainda mais difícil identificar o que eram.

— Seja o que for, não parecem amigáveis — disse Isa. — Acho que estamos seguras aqui. Se conseguissem entrar, já teriam invadido.

— O que a gente vai fazer? — perguntou Clara.

— Vamos ficar onde estamos — sugeriu Sofia. — Se percebermos que estão tentando entrar, corremos pro fundo da caverna.

O fundo era completamente escuro, sem nenhum vestígio de luz. O tempo ali dentro era diferente. Estático. Como se não passasse.

Clara imóvel no escuro da caverna, sussurrando para as outras escutarem uma vibração baixa e uma melodia distante

Clara estava inquieta. As mãos abriam e fechavam sem parar, a mente buscando alguma saída. De repente, parou.

— Escutem… — sussurrou.

Todas se calaram. No início, não era som — era vibração. Um pulsar baixo, como se o ar estivesse murmurando.

A vibração parecia vir não apenas do fundo da caverna, mas de dentro da própria rede — como se alguém, em algum ponto mais profundo, estivesse respondendo.

Depois veio uma sequência mais delicada: notas musicais que mexiam com as lembranças de Clara.

// Em Produção

O próximo capítulo ainda não foi publicado.

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